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Distrito
Federal
Crime
sem autor
Ninguém
quer assumir a responsabilidade
pela barbárie da polícia de Brasília
Policarpo
Junior
Na
semana passada, a Comissão de Direitos
Humanos da Câmara dos Deputados ouviu
o depoimento do ex-secretário de Segurança
do Distrito Federal Paulo Castello Branco,
do comandante da PM, Antônio Ribeiro,
e de mais três coronéis que participaram
da operação policial que resultou
na morte do jardineiro José Ferreira
da Silva, deixou outros dois trabalhadores
cegos e 36 feridos durante uma manifestação
de funcionários da Novacap, uma empresa
pública de Brasília. O protesto
estava praticamente no fim quando um batalhão
armado da polícia resolveu investir
com violência contra os manifestantes,
provocando a tragédia. Os deputados
tentam descobrir duas coisas: a primeira,
quem foi que atirou. A segunda: de onde partiu
a ordem para que o batalhão de elite,
armado, entrasse em ação quando
policiais militares de outro batalhão
já estavam a ponto de dominar o protesto.
O comandante da tropa de elite, coronel Mário
Vieira, disse que seguiu ordens "superioríssimas",
mas só quer revelar quem é o
tal "superioríssimo" em juízo.
Se for o governador do Distrito Federal, Joaquim
Roriz, como se imagina, parece óbvio
que ele não deu ordem para matar e
cegar ninguém, embora isso não
o isente de responsabilidade.
Roriz
cometeu dois erros graves em relação
ao episódio. O primeiro foi a omissão.
Numa situação de tal gravidade,
esperava-se que ele assumisse a responsabilidade
como chefe do governo e mandasse apurar os
fatos imediatamente, abrindo um processo de
punição dos culpados. O governador
preferiu o silêncio. Agiu como se a
morte do jardineiro José Ferreira da
Silva e o ferimento dos outros participantes
do protesto tivessem ocorrido no Arizona.
Roriz só se pronunciou sobre o assunto
três dias depois, pressionado pela cobrança
da opinião pública. Ao fazê-lo
cometeu o segundo erro. Para se livrar do
problema, chegou a levantar a suspeita de
que o tiro de espingarda que matou o jardineiro
poderia ser obra de algum partido político
interessado em prejudicar seu governo. Tentou
com isso inverter o problema. Sem afirmá-lo
textualmente, mas deixando perfeitamente claro
nas entrelinhas, o governador lançou
a culpa no partido que apóia protestos,
o PT de seu antecessor. Dessa forma, agiu
de má-fé. A morte de uma pessoa
durante uma manifestação política,
sindical ou qualquer que seja sua motivação
é um ato criminoso e é assim
que deve ser tratado.
Os
opositores do governo têm no episódio
um grande trunfo para espancar o governador.
E não sem razão. Desde que assumiu,
Roriz tenta aniquilar os vestígios
do antecessor de maneira rude e atabalhoada,
algo que beira a obsessão. No dia da
posse, manifestantes levados ao Palácio
do Buriti vaiaram o ex-governador Cristovam
Buarque, xingaram sua esposa e arrancaram
sua foto da galeria dos ex-governadores. Depois,
foram mostradas imagens da residência
oficial com paredes sujas, baratas mortas
e móveis destruídos. Cristovam
foi acusado até de furtar livros da
biblioteca. Joaquim Roriz tratou de apagar
até mesmo uma experiência do
governo anterior que mereceu reconhecimento
geral pela eficiência, o programa Bolsa-Escola,
que dá um salário mínimo
às famílias que mantêm
seus filhos estudando. Pois Roriz, contrariando
a Unesco, o Unicef, educadores e especialistas
no assunto, descobriu que o programa é
ruim. Também acabará com a Poupança-Escola,
um incentivo em dinheiro que o governo dá
aos alunos aprovados. Parte da verba destinada
ao programa já foi remanejada para
a publicidade oficial.
No
terreno das realizações, Roriz
tem optado pela maneira mais fácil
e atrasada de fazer política. Milhares
de famílias cadastradas recebem diariamente
pão e leite e uma cesta básica
no fim do mês. O governo também
vai distribuir, a partir do ano que vem, material
escolar, tênis e uniforme, além
de criar restaurantes comunitários
nas cidades-satélites para oferecer
refeições gratuitas. Estuda
ainda isentar os mais humildes do pagamento
das taxas de água e luz e está
cadastrando pessoas sem moradia para receber
lotes. Roriz gosta de grandes obras. Foi dele,
em 1991, a idéia de construir um metrô,
na época a obra mais cara do mundo
em termos proporcionais. Até hoje os
trens não circulam, embora já
tenham consumido mais de 1 bilhão de
reais. Ele queria ficar na história
como o engenheiro das grandes obras. Se não
agir logo a respeito dos tiros da PM no protesto
da Novacap, poderá ser lembrado como
o governador da grande omissão.
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