Edição 1 628 -15/12/1999

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Distrito Federal

Crime sem autor

Ninguém quer assumir a responsabilidade
pela barbárie da polícia de Brasília

Policarpo Junior

Na semana passada, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados ouviu o depoimento do ex-secretário de Segurança do Distrito Federal Paulo Castello Branco, do comandante da PM, Antônio Ribeiro, e de mais três coronéis que participaram da operação policial que resultou na morte do jardineiro José Ferreira da Silva, deixou outros dois trabalhadores cegos e 36 feridos durante uma manifestação de funcionários da Novacap, uma empresa pública de Brasília. O protesto estava praticamente no fim quando um batalhão armado da polícia resolveu investir com violência contra os manifestantes, provocando a tragédia. Os deputados tentam descobrir duas coisas: a primeira, quem foi que atirou. A segunda: de onde partiu a ordem para que o batalhão de elite, armado, entrasse em ação quando policiais militares de outro batalhão já estavam a ponto de dominar o protesto. O comandante da tropa de elite, coronel Mário Vieira, disse que seguiu ordens "superioríssimas", mas só quer revelar quem é o tal "superioríssimo" em juízo. Se for o governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, como se imagina, parece óbvio que ele não deu ordem para matar e cegar ninguém, embora isso não o isente de responsabilidade.

Roriz cometeu dois erros graves em relação ao episódio. O primeiro foi a omissão. Numa situação de tal gravidade, esperava-se que ele assumisse a responsabilidade como chefe do governo e mandasse apurar os fatos imediatamente, abrindo um processo de punição dos culpados. O governador preferiu o silêncio. Agiu como se a morte do jardineiro José Ferreira da Silva e o ferimento dos outros participantes do protesto tivessem ocorrido no Arizona. Roriz só se pronunciou sobre o assunto três dias depois, pressionado pela cobrança da opinião pública. Ao fazê-lo cometeu o segundo erro. Para se livrar do problema, chegou a levantar a suspeita de que o tiro de espingarda que matou o jardineiro poderia ser obra de algum partido político interessado em prejudicar seu governo. Tentou com isso inverter o problema. Sem afirmá-lo textualmente, mas deixando perfeitamente claro nas entrelinhas, o governador lançou a culpa no partido que apóia protestos, o PT de seu antecessor. Dessa forma, agiu de má-fé. A morte de uma pessoa durante uma manifestação política, sindical ou qualquer que seja sua motivação é um ato criminoso e é assim que deve ser tratado.

Os opositores do governo têm no episódio um grande trunfo para espancar o governador. E não sem razão. Desde que assumiu, Roriz tenta aniquilar os vestígios do antecessor de maneira rude e atabalhoada, algo que beira a obsessão. No dia da posse, manifestantes levados ao Palácio do Buriti vaiaram o ex-governador Cristovam Buarque, xingaram sua esposa e arrancaram sua foto da galeria dos ex-governadores. Depois, foram mostradas imagens da residência oficial com paredes sujas, baratas mortas e móveis destruídos. Cristovam foi acusado até de furtar livros da biblioteca. Joaquim Roriz tratou de apagar até mesmo uma experiência do governo anterior que mereceu reconhecimento geral pela eficiência, o programa Bolsa-Escola, que dá um salário mínimo às famílias que mantêm seus filhos estudando. Pois Roriz, contrariando a Unesco, o Unicef, educadores e especialistas no assunto, descobriu que o programa é ruim. Também acabará com a Poupança-Escola, um incentivo em dinheiro que o governo dá aos alunos aprovados. Parte da verba destinada ao programa já foi remanejada para a publicidade oficial.

No terreno das realizações, Roriz tem optado pela maneira mais fácil e atrasada de fazer política. Milhares de famílias cadastradas recebem diariamente pão e leite e uma cesta básica no fim do mês. O governo também vai distribuir, a partir do ano que vem, material escolar, tênis e uniforme, além de criar restaurantes comunitários nas cidades-satélites para oferecer refeições gratuitas. Estuda ainda isentar os mais humildes do pagamento das taxas de água e luz e está cadastrando pessoas sem moradia para receber lotes. Roriz gosta de grandes obras. Foi dele, em 1991, a idéia de construir um metrô, na época a obra mais cara do mundo em termos proporcionais. Até hoje os trens não circulam, embora já tenham consumido mais de 1 bilhão de reais. Ele queria ficar na história como o engenheiro das grandes obras. Se não agir logo a respeito dos tiros da PM no protesto da Novacap, poderá ser lembrado como o governador da grande omissão.