Edição 1 628 -15/12/1999

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CPI

Sob fogo cruzado

Acusado de subornar legista, irmão de PC
entra na mira da CPI do Narcotráfico

Expedito Filho e Leonel Rocha, de Maceió

O deputado Augusto Farias, de Alagoas, pode ser a próxima vítima a virar pó na malha fina da CPI do Narcotráfico. Na semana passada, um grupo de deputados da CPI esteve em Maceió para tomar os depoimentos do médico e coronel da Polícia Militar George Sanguinetti e do ex-governador de Alagoas Geraldo Bulhões. Ficaram impressionados com o que ouviram. Em seu relato, Sanguinetti informou à CPI que, durante uma reunião na casa de Bulhões, ouviu do funcionário público Eduardo Amaral, filho do coronel José de Azevedo do Amaral, secretário de Segurança na época do crime, que Augusto Farias pagou 400.000 dólares ao legista Fortunato Badan Palhares, da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp, para que ele fraudasse a conclusão do laudo pericial da morte de Paulo César Farias. O objetivo do suborno seria tornar crível a versão da polícia alagoana de que Suzana Marcolino matou PC, então seu namorado, suicidando-se em seguida. De acordo com essa versão, bastaria a assinatura de Palhares, um dos legistas mais requisitados do país, para que o caso parasse por aí.


Dorival Elze
Badan Palhares vai processar Sanguinetti e o ex-governador Bulhões por crime contra a honra


Bulhões não só confirmou as informações de Sanguinetti como acrescentou que a história do suposto suborno lhe fora contada em sua casa no início do ano passado. Esta não é a primeira vez que Augusto Farias tem seu nome envolvido em denúncias feitas à CPI do Narcotráfico. O caminhoneiro Jorge Meres, uma das principais testemunhas da CPI, acusou Augusto e seu irmão Rogério de comandarem uma quadrilha de ladrões de caminhões de carga. Ficou no diz-que-me-diz-que. Era a palavra do caminhoneiro bandido contra a do deputado. Diante dessa nova acusação, a situação de Augusto Farias se complica, e já se aposta na Câmara dos Deputados que, se a denúncia for confirmada, dificilmente o deputado escapará da cassação. Na sexta-feira, a advogada Tereza Doro, que defende Badan Palhares, anunciou que vai processar Sanguinetti por crime contra a honra e, por tabela, o ex-governador Geraldo Bulhões, caso não se confirme a versão da compra do laudo por 400
.000 dólares.  

Entre amigos Das três pessoas que ouviram falar no suposto suborno de Palhares, duas são conhecidas de longa data da família Farias. O ex-governador Bulhões elegeu-se pelas mãos tesoureiras de PC Farias, provocando um racha no coração do governo Collor. Renan Calheiros, que também concorria ao governo alagoano, rompeu com Collor e deixou a liderança do governo na Câmara, cargo que exercia, denunciando PC de comandar um esquema de corrupção. "Decidi contar tudo sobre os 400.000 dólares para ajudar a esclarecer a morte do amigo PC", justificou Bulhões.

A família Amaral também é outra velha amiga dos Farias. O delegado Cícero Torres, que até hoje garante que o crime foi passional, seguido de suicídio, estava sob as ordens do coronel José de Azevedo do Amaral, três vezes secretário de Segurança do Estado. Torres é também amigo íntimo de Eduardo Amaral, que agora se tornou a grande chave para esclarecer o caso. Ouvido por VEJA, Amaral, como era previsível, negou a história do suborno. Se houve mesmo uma ação entre amigos para escamotear o crime e esconder os verdadeiros culpados, o elo começa a se quebrar.

Sanguinetti é o único desafeto declarado de Augusto Farias. Na semana passada, ele informou também à CPI que o deputado Augusto Farias tentou matá-lo para evitar as críticas que vinha fazendo às investigações do caso PC. Augusto Farias teria ido ao presídio de segurança máxima contratar os serviços de pistolagem do coronel da PM Manoel Cavalcante que, mesmo vendo o sol nascer quadrado, comanda uma quadrilha de matadores profissionais. Sanguinetti foi o primeiro a contestar o laudo de Badan Palhares e desde o começo vem apontando o deputado como principal suspeito das mortes de Suzana e PC Farias.

A CPI não sabe se a ameaça de morte realmente aconteceu. Caso seja verdadeira, dificilmente se deveria às críticas que Sanguinetti fez ao laudo de Badan Palhares. O perito não esteve no local do crime, não viu os corpos e baseou sua análise em apenas três fotografias. Faltava-lhe também experiência. Embora seja professor de medicina legal, Sanguinetti não tinha prática como legista, o que tornava sua análise pouco sólida. Somente agora ele apresentou algo mais que simples insinuações.

O cerco se fecha Cabe agora à CPI do Narcotráfico a difícil tarefa de desvendar a nuvem de mistério que cerca o caso PC. Criada há nove meses, a CPI cassou o deputado Hildebrando Pascoal, aquele que fatiava suas vítimas com motosserra, trancafiou 28 pessoas do seu grupo e desvendou uma quadrilha que roubava caminhões de carga para trocar por cocaína na Bolívia, comandada pelos deputados estaduais José Gerardo e Francisco Caíca, do Maranhão. Da malha criminosa, com teias marginais no Acre, Maranhão e São Paulo, revelada pelo motorista Jorge Meres, fazia parte também o deputado Augusto Farias, como representante do Estado de Alagoas. Para saber se esse elo existe de fato, a CPI resolveu investigar o irmão de PC. Começou pelo misterioso assassinato do ex-tesoureiro e ampliou seus tentáculos para os negócios da família Farias. Uma subcomissão, comandada pelo deputado Robson Tuma, composta pelos deputados Padre Roque, Eber Silva e Lino Rossi, iniciou uma devassa na vida patrimonial do deputado. Entre os documentos, estão a certidão de tutela dos filhos de PC, três declarações de imposto de renda do deputado, recibos de pagamentos de funcionários dos Farias e fotos de campanha. Foram apreendidos, ainda, dois computadores e uma papelada que comprova as ligações do parlamentar com outras empresas da família Farias. A CPI acredita que, agora, o cerco se fechou. Toda a verdade sobre o caso PC Farias pode vir à tona. "A vida de Augusto Farias se complicou muito", diz o deputado Padre Roque, do PT paranaense. Se já vinha produzindo resultados positivos, a CPI do narcotráfico acaba de dar seu passo principal. Um dos maiores mistérios da história recente do país talvez esteja prestes a encontrar uma solução.