Edição 1 628 -15/12/1999

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Ataque ao bolso do vovô

O governo ameaça mexer no salário mínimo
e esmagar as aposentadorias.
Desiste diante da reação negativa

Franco Iacomini

O governo Fernando Henrique tem certa propensão a produzir trapalhadas por falar demais. O episódio mais recente envolveu os aposentados, uma fatia numerosa (18 milhões de pessoas) e vulnerável da população. O desconcerto começou com o porta-voz da Presidência, Georges Lamazière, na segunda-feira passada. Em seu encontro diário com jornalistas, Lamazière informou que o governo estudava a criação de dois salários mínimos: um para os trabalhadores da ativa e outro para os aposentados. Para fazer isso, seria modificada a legislação em vigor, que prevê a existência de um só piso, válido tanto para quem trabalha quanto para quem se aposentou. Quando Brasília aumenta esse piso, atualmente de 136 reais, o porcentual escolhido vale para todos, sem distinção. Com a criação dos dois salários mínimos, desvinculados um do outro, os reajustes não precisariam mais ser casados. O governo poderia aprovar um índice para os trabalhadores sem ter de alterar o provento dos aposentados. O objetivo era evitar o aprofundamento do buraco nas contas da Previdência, hoje calculado em 45 bilhões de reais, toda vez que aumenta o salário dos trabalhadores. Aos brasileiros que souberam da notícia pelos telejornais da noite ficou apenas a suspeita de que ministros e presidente andam conspirando para atacar o dinheiro dos vovôs e vovós.


Getúlio Vargas assina lei que fixa o salário mínimo: só na ficção

Discutir a desvinculação do salário mínimo é fundamental. A forma de discutir, no entanto, é crucial neste caso. Fernando Henrique já chamou os que se aposentam cedo de vagabundos, num escorregão verbal. Não deveria correr o risco de indispor-se novamente com a opinião pública nesse terreno. Mas foi o que ele fez. Cabe ao governo abrir discussões polêmicas quando necessário. Dispõe de uma série de canais para isso, incluindo seus aliados no Congresso, que podem levantar debates sem que o presidente precise ir para a arena num primeiro momento. A forma menos recomendável de abordar um assunto delicado é entregar a tarefa ao porta-voz da Presidência. Quando ele fala, a assinatura do presidente está por trás. A resposta à declaração de Lamazière veio imediatamente. A idéia foi bombardeada. No dia seguinte, Fernando Henrique desmentiu o porta-voz. Segundo FHC, o que se avalia, na verdade, é a possibilidade de criar pisos para diversas categorias profissionais. "Pior ainda", reagiu o economista José Pastore, especialista em relações do trabalho. "Isso acabaria com a negociação entre patrão e empregado e engessaria de vez a economia brasileira." O governo continua tentando se explicar, mas agora ninguém mais acredita na sinceridade do que é dito pelo Planalto a respeito de aposentados e salário mínimo.

O salário mínimo é reajustado anualmente para recompor as perdas provocadas pela inflação. O indexador previsto em lei é um certo índice de reajuste do salário mínimo, IRSM. Se esse índice é alto, o caixa da Previdência não suporta. Se o IRSM é baixo, os trabalhadores da ativa que recebem o mínimo é que não suportam e podem decidir-se por uma greve. Fato é que ativos e inativos lutam de braços dados pelo mesmo número. O próximo embate acontecerá em maio, e o índice de ajuste não será pequeno. A inflação já ultrapassou 7% – e subirá mais um pouco nos cinco meses que faltam. Se os mínimos forem separados, os aposentados e trabalhadores estarão brigando por indicadores diferentes. Para quem ainda não se aposentou, a mudança poderia ser positiva. Livre das amarras impostas pelo caixa da Previdência, o piso dos trabalhadores poderia ser mais alto do que atualmente. Não seria surpresa se os idosos ficassem gritando sozinhos, até porque a realidade fria dos números conspira contra eles. Como todas as aposentadorias são vinculadas ao mínimo, se o governo o reajustasse em apenas dez reais, as despesas da Previdência cresceriam em 4,6 bilhões de reais por ano. Se isso ocorrer, as pessoas que trabalham serão chamadas a recolher mais impostos, e ninguém quer isso.


Antonio Milena
Aposentados pedem reajuste, em 1991: descaso histórico


Aposentados não têm grande poder de mobilização, principalmente se comparados a categorias organizadas como bancários e metalúrgicos. Fragilizados pela idade e, muitas vezes, com a saúde debilitada, acabam se resignando. O governo tem um histórico de maus-tratos em relação aos aposentados do Instituto Nacional de Seguro Social, o INSS. A Previdência se esboroou por causa da má administração e da má-fé de Brasília ao longo de décadas, mas convoca-se a pagar a conta o velho dos 136 reais. Sem força para enfrentar os grupos de pressão no Congresso e fazer aprovar um pacote efetivo de mudanças na Previdência, o Executivo tenta uma saída pela tangente, tirando uma lasca do vovô que ganha o salário mínimo. São 12 milhões de vovôs nessa situação, é bom esclarecer. Em gestões anteriores, Brasília usou diversos artifícios para reduzir o rombo da Previdência. Atrasava a concessão de novos benefícios a quem atingia o tempo de serviço previsto e mudava datas de pagamento para beneficiar-se do imposto inflacionário. Um dos episódios mais vexaminosos ocorreu em 1991, quando o governo brigou na Justiça para não pagar um reajuste de 147% que estava devendo aos aposentados. Na ocasião, funcionários da Previdência foram obrigados a se esconder da polícia, porque estavam sendo procurados por desobedecer ordem judicial. A situação dos aposentados do Brasil chegou a ficar quase tão ruim quanto na Argentina. Lá, os aposentados foram os maiores prejudicados pela hiperinflação dos anos 80, no final do governo de Raúl Alfonsín.

"A Previdência caminhava para a bancarrota e o salário mínimo encolheu na mesma medida", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, sócio da empresa de consultoria Tendências. O debate sobre a desvinculação do mínimo não poderia estar sendo travado num momento mais delicado para o governo. Confira:

.Brasília aprovou um pacote de mudanças nas regras do INSS. Uma delas, das mais impopulares, obriga as pessoas a trabalhar durante um período maior de tempo antes de se aposentar. Assim, contribuem um pouco mais para o sistema previdenciário antes de colocar o pijama.

.Outro assunto impopular em debate no Congresso é a adoção de uma taxa de contribuição previdenciária para os servidores públicos inativos. Os funcionários da ativa recolhem 9 bilhões de reais por ano para sustentar as aposentadorias, mas União, Estados e municípios gastam 50 bilhões com seus aposentados.

O Congresso discute a possibilidade de se autoconceder um aumento de mais de 50% nos salários. Se o reajuste for aprovado, os deputados e senadores vão ganhar 90 salários mínimos cada um por mês. Em um ano, o conjunto dos parlamentares estará recebendo uma massa salarial de mais de 600.000 salários mínimos. Com tanta notícia ruim no ar, talvez fosse prudente ter esperado um pouco mais para iniciar essa discussão da desvinculação do salário mínimo.

O salário mínimo no Brasil nunca foi levado a sério. Como era uma peça de ficção, os governos o esticavam ou encolhiam para agradar eleitores ou ajeitar as contas públicas. Os governos populistas de Getúlio Vargas e João Goulart pagaram os maiores valores. Quando Getúlio criou um piso mínimo para os trabalhadores, em 1940, o salário de 220 mil-réis era considerado alto demais para um país cuja população era predominantemente rural. Como era elevado, ninguém pagava. Só existia na lei. Hoje em dia, ele é tão baixo que ao menos nas grandes cidades todo mundo ganha muito mais do que o piso legal. De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgados na semana passada, uma em cada cinco pessoas economicamente ativas recebe um salário mínimo no final do mês. Pelos números fica-se sabendo que 15 milhões de trabalhadores da ativa e 12 milhões de aposentados declaram receber os 136 reais do salário. Segundo os especialistas, são números enganosos. Muitas dessas pessoas recebem comissões ou gorjetas que não aparecem nas estatísticas oficiais. É o caso de garçons e vendedores, empregados registrados oficialmente com um salário na carteira, mas com um "por fora" que chega a ser cinco ou dez vezes maior. Outras pessoas complementam a renda com bicos.

"É impossível saber com exatidão quantas pessoas ganham de fato o salário mínimo", afirma o economista José Maurício Soares, especialista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos, Dieese. Caso Brasília venha a comprimir o valor das pensões, os velhos da Previdência terão de apertar ainda mais o cinto. Em algumas cidades do Nordeste, onde a economia local depende basicamente do rendimento dos aposentados, o arrocho será sentido em seguida. Mas não haverá arrocho. Pressionado pela reação negativa às declarações do porta-voz Lamazière, o Planalto já avisou que não vai mexer no cofrinho magro do vovô e da vovó.

 

 

Fernando Henrique: num dia defende a desvinculação, no outro desmente tudo

 

 

Foto: Ricardo Stuckert