Edição 1 628 -15/12/1999

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A batalha de Seattle

A Rodada do Milênio atraiu para si a hostilidade
de uma plêiade incrivelmente heterogênea de ativistas
unidos apenas por um profundo e violento mal-estar
com relação aos rumos das relações internacionais

 

Ilustração Alê Setti
A
pacata cidade de Seattle, situada no canto superior esquerdo dos Estados Unidos e berço da Boeing e da Microsoft, testemunhou recentemente uma luta absolutamente desigual: um velho e vetusto conceito, o multilateralismo comercial, e sua mais expressiva representação, a OMC (Organização Mundial do Comércio), foram ambos estraçalhados por uma terrível criatura cujo poder se tem multiplicado extraordinariamente nesta volúvel atmosfera do fim do milênio: o politicamente correto.

Na verdade, a vítima, dirão os diplomatas, era um alvo fácil, um processo negocial já meio em desuso, tendente a funcionar apenas quando existem unanimidades em certa quantidade e ressalvas que protegem minorias. Nos anos 50, com poucos países interessados no processo de liberalização comercial e muitas barreiras comerciais a derrubar, o processo multilateral de negociação empregado nas várias "rodadas" liberalizantes foi extremamente bem-sucedido, a despeito de sua complexidade e apesar das ressalvas.

Desde a Rodada Uruguai, todavia, duas tendências têm sido claras: de um lado, amadurece o estatuto jurídico dos acordos sob a égide da OMC e também os mecanismos de resolução de controvérsias, em que são discutidos os truques e sutilezas que aparecem de todo lado. Com o tempo, portanto, as conferências viraram acordos, que se transformaram em instituições, que criaram suas rotinas. As formas mais tacanhas de protecionismo vão tendendo à extinção, e com isso uma gigantesca burocracia fica prisioneira de seu próprio sucesso: se sua missão está cumprida, o que há para fazer em novas rodadas?

É claro que existem problemas não resolvidos, como o protecionismo agrícola europeu ou o mau uso das legislações antidumping, e também temas novos, especialmente na área de alta tecnologia. Mas não é claro que o processo a adotar para resolver esses problemas seja o mesmo que se utilizou nas rodadas das últimas décadas. O número de países aumentou, as lideranças são múltiplas e já não existem mais tantas barreiras comerciais como nos anos 50. Muitos países fizeram aberturas unilaterais, outros se agruparam em blocos, fazendo liberalizações entre si, e aqui, como em outras partes, o protecionismo desenvolvimentista entrou em franca decadência.

Diante disso, tínhamos bons motivos para não deflagrar mais uma rodada, e a experiência de Seattle mostrou que havia um outro problema a lidar, cujo tamanho foi amplamente subestimado: a hostilidade dirigida ao processo de globalização por parte de uma plêiade incrivelmente heterogênea de ativistas unidos apenas por um profundo e violento mal-estar com relação aos rumos das relações internacionais. Seja porque estão prejudicando o meio ambiente, extinguindo os empregos, roubando a alma das pessoas, acabando com as especificidades culturais, estabelecendo uma ética desumana, ou porque, ao fim das contas, existe uma conspiração em andamento, não se sabe bem com que propósito. A aproximação do milênio enseja inúmeras teorias conspiratórias e apelos místicos e também uma espécie de neoludismo, ou seja, uma reação emocional ao desamparo espiritual provocado pela rápida mudança tecnológica, pelo fracasso das utopias ou simplesmente pela monotonia da vida em Seattle.

O fato é que a Rodada do Milênio atraiu para si um poderoso ataque do movimento "anti-isso-que-aí-está", e os estragos foram enormes. O maior deles talvez tenha sido a facilidade com que os manifestantes, a despeito do conjunto de disparates proclamados em suas faixas e cartazes, encostaram contra a parede as mais poderosas lideranças do planeta, obrigadas a reconhecer que a OMC não é transparente, que precisa tratar de trabalho infantil, meio ambiente e preferência para países muito pobres. Tudo muito politicamente correto, mas movido pela mais perversa comunhão de interesses entre militantes do tipo "rebeldes sem causa" e lobbies protecionistas muito bem estabelecidos que souberam utilizar o politicamente correto a seu favor.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ
e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)