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A batalha
de Seattle
A
Rodada do Milênio atraiu para si a hostilidade
de uma plêiade incrivelmente heterogênea
de ativistas
unidos apenas por um profundo e violento mal-estar
com relação aos rumos das relações
internacionais
Ilustração
Alê Setti
A
pacata cidade de Seattle, situada no canto superior
esquerdo dos Estados Unidos e berço da Boeing
e da Microsoft, testemunhou recentemente uma luta
absolutamente desigual: um velho e vetusto conceito,
o multilateralismo comercial, e sua mais expressiva
representação, a OMC (Organização
Mundial do Comércio), foram ambos estraçalhados
por uma terrível criatura cujo poder se tem
multiplicado extraordinariamente nesta volúvel
atmosfera do fim do milênio: o politicamente
correto.
Na
verdade, a vítima, dirão os diplomatas,
era um alvo fácil, um processo negocial já
meio em desuso, tendente a funcionar apenas quando
existem unanimidades em certa quantidade e ressalvas
que protegem minorias. Nos anos 50, com poucos países
interessados no processo de liberalização
comercial e muitas barreiras comerciais a derrubar,
o processo multilateral de negociação
empregado nas várias "rodadas" liberalizantes
foi extremamente bem-sucedido, a despeito de sua
complexidade e apesar das ressalvas.
Desde
a Rodada Uruguai, todavia, duas tendências
têm sido claras: de um lado, amadurece o estatuto
jurídico dos acordos sob a égide da
OMC e também os mecanismos de resolução
de controvérsias, em que são discutidos
os truques e sutilezas que aparecem de todo lado.
Com o tempo, portanto, as conferências viraram
acordos, que se transformaram em instituições,
que criaram suas rotinas. As formas mais tacanhas
de protecionismo vão tendendo à extinção,
e com isso uma gigantesca burocracia fica prisioneira
de seu próprio sucesso: se sua missão
está cumprida, o que há para fazer
em novas rodadas?
É
claro que existem problemas não resolvidos,
como o protecionismo agrícola europeu ou
o mau uso das legislações antidumping,
e também temas novos, especialmente na área
de alta tecnologia. Mas não é claro
que o processo a adotar para resolver esses problemas
seja o mesmo que se utilizou nas rodadas das últimas
décadas. O número de países
aumentou, as lideranças são múltiplas
e já não existem mais tantas barreiras
comerciais como nos anos 50. Muitos países
fizeram aberturas unilaterais, outros se agruparam
em blocos, fazendo liberalizações
entre si, e aqui, como em outras partes, o protecionismo
desenvolvimentista entrou em franca decadência.
Diante
disso, tínhamos bons motivos para não
deflagrar mais uma rodada, e a experiência
de Seattle mostrou que havia um outro problema a
lidar, cujo tamanho foi amplamente subestimado:
a hostilidade dirigida ao processo de globalização
por parte de uma plêiade incrivelmente heterogênea
de ativistas unidos apenas por um profundo e violento
mal-estar com relação aos rumos das
relações internacionais. Seja porque
estão prejudicando o meio ambiente, extinguindo
os empregos, roubando a alma das pessoas, acabando
com as especificidades culturais, estabelecendo
uma ética desumana, ou porque, ao fim das
contas, existe uma conspiração em
andamento, não se sabe bem com que propósito.
A aproximação do milênio enseja
inúmeras teorias conspiratórias e
apelos místicos e também uma espécie
de neoludismo, ou seja, uma reação
emocional ao desamparo espiritual provocado pela
rápida mudança tecnológica,
pelo fracasso das utopias ou simplesmente pela monotonia
da vida em Seattle.
O
fato é que a Rodada do Milênio atraiu
para si um poderoso ataque do movimento "anti-isso-que-aí-está",
e os estragos foram enormes. O maior deles talvez
tenha sido a facilidade com que os manifestantes,
a despeito do conjunto de disparates proclamados
em suas faixas e cartazes, encostaram contra a parede
as mais poderosas lideranças do planeta,
obrigadas a reconhecer que a OMC não é
transparente, que precisa tratar de trabalho infantil,
meio ambiente e preferência para países
muito pobres. Tudo muito politicamente correto,
mas movido pela mais perversa comunhão de
interesses entre militantes do tipo "rebeldes sem
causa" e lobbies protecionistas muito bem estabelecidos
que souberam utilizar o politicamente correto a
seu favor.
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