Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Tales Alvarenga
Esquizô! Esquizô!

"Poderíamos declarar inelegíveis para
a universidade pública belezas globais
como as atrizes Carolina Dieckmann,
Luana Piovani e
Deborah Secco"

Tem dias que o Brasil parece um hospício com a contabilidade em dia. O médico Antonio Palocci cuida com zelo das colunas do débito e do crédito. O país está crescendo 5% ao ano, bate recordes de exportação, tem a mais baixa inflação com que se poderia sonhar e está ficando a cada dia mais confiável ao investidor estrangeiro. Mas só um esquizofrênico poderia deixar de perceber o que alguns malucos estão fazendo no pátio do manicômio.

No Rio de Janeiro, o cenário mais exuberante do sanatório, a polícia está pegando crianças que vivem na rua. Os jornais estão publicando fotos de meninos que mal ultrapassam a altura de uma mesa sendo arrastados aos berros por policiais parrudos em trabalho que é oficialmente definido como "social". A verdade é que a polícia foi encarregada de livrar a paisagem dos pivetes. O objetivo é tranqüilizar turistas, assustados com as notícias sobre assaltos e assassinatos de estrangeiros no Rio de Janeiro.

Em Brasília, um deputado petista apresentou um projeto que regulamenta a prostituição. Caso a lei venha a ser aprovada, prostitutas, prostitutos, dançarinos que se apresentam nus ou qualquer pessoa que tenha como função despertar a sexualidade alheia serão classificados como "trabalhadores da sexualidade". Para quê? Para que essas pessoas sejam registradas no Ministério do Trabalho e no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Continuarão sendo prostitutas, prostitutos e dançarinos pelados, só que com carteira assinada. Pergunta: alguém levaria no bolso um documento em que é descrito como operário da sexualidade? A intenção pode ser das melhores, mas a execução parecerá mais perseguição ao sexo pago do que proteção ao trabalho. No Brasil, metade da mão-de-obra ganha o salário sem carteira assinada e ninguém está nem aí. Para não falar do exército de pobres coitados trabalhando em regime de escravidão em fazendas nos grotões do gigante adormecido em berço esplêndido.

Nas universidades, a discussão do momento é implantar cotas para o ingresso de negros e índios no ensino público superior. Muito justo. As vagas no melhor ensino superior gratuito são ocupadas quase inteiramente por brancos, filhos das classes média e alta. Na Universidade de Brasília, no entanto, a turma está exagerando. Como o número dos "falsos negros" triplicou nos dois últimos vestibulares, há uma comissão para tirar a prova dos noves. Examina o tipo de cabelo do candidato, a cor da pele, o formato do nariz. O único método aceitável de avaliação num país com a fluidez racial do Brasil é aquilo que a pessoa diz de si própria, ou seja, a auto-atribuição da raça. Fora isso, a coisa ganha um ranço de preconceito. Que tal radicalizar e inverter a equação? Poderíamos declarar inelegíveis para a universidade pública belezas globais como as atrizes Carolina Dieckmann, Luana Piovani e Deborah Secco. Elas são objeto de enorme preconceito a favor. São ótimas atrizes, mas levam uma vantagem na linha de largada, por serem lindas e perfeitas como são. Pois que paguem sua faculdade particular se quiserem estudar.

Parece injusto com as nossas beldades, pois não? Parece comportamento de manicômio. Muito bem. É tão inaceitável como caçar crianças de rua com a carrocinha, tão esquisito como fichar prostitutas e tão descabível como medir a taxa de negritude de vestibulandos num país mestiço como o Brasil.

 
 
 
 
topovoltar