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Ponto
de vista: Lya Luft O
pecado da intolerância
"Nossa postura diante
do inesperado, do diferente, raramente é de atenção,
abertura, escuta. Pouco nos interessam os motivos, o bem, as angústias
e buscas, direitos e razão de quem infringe as regras da nossa
acomodação, frivolidade ou egoísmo" Numa
escola de uma capital brasileira, alguns pais reclamam com a direção:
não querem seus filhos estudando ao lado de dois meninos estrangeiros,
de um país que consideram "atrasado e fanático". A direção,
a meu ver pecando por compactuar com a intolerância, agravada pelo fato
de envolver crianças, pede aos pais que resolvam o assunto entre eles.
Resultado: os pais dos meninos estrangeiros, pressionados de um lado e desamparados
de outro, tiram os filhos da escola. Diga-se que o pai em questão é
um executivo com um currículo invejável e a mãe, professora
universitária. Mas, ainda que fossem pessoas simples, seus direitos teriam
sido igualmente feridos.
Ilustração
Anderson Marçal
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Num
restaurante de classe média, pessoas torcem o nariz e pagam a conta antecipadamente,
sem concluir a refeição, porque na mesa ao lado senta-se um casal
negro, com uma filha e um filho adolescentes. Ninguém comenta ou reclama
de que se trata de uma demonstração criminosa de racismo, não
comprovável mas evidente. A adolescente discriminada põe-se a chorar
e pede aos pais para irem embora também. A família comemorava ali
o 14º aniversário dela.
Um rapaz decide largar os estudos superiores
e empregar-se numa empresa decente. O salário não é alto,
mas a situação lhe convém: ele prefere experiência
a diploma, e é isso que lhe está sendo oferecido. O pai resolve
não falar mais com ele, nega-lhe qualquer ajuda monetária, e só
não o expulsa de casa devido aos apelos da mãe. Porém, em
todas as ocasiões em que é possível, deixa claro que o filho
é "a sua grande decepção".
Uma mulher decide sair de um casamento infeliz
e pede a separação. O marido, que certamente também não
está feliz, recusa qualquer combinação amigável e
quer uma separação litigiosa. As duas filhas moças tomam
o partido do pai, como se de repente a mãe que delas cuidara por mais de
vinte anos tivesse se transformado em alguém desprezível, irreconhecível
e inaceitável. Nenhuma das duas lhe pergunta os seus motivos; ninguém
deseja saber de suas dores; nenhuma das duas jovens mulheres lhe dá a menor
chance de explicação, o menor apoio. Parece-lhes natural que, diante
de um passo tão grave da parte de quem as criara, educara, vestira, acarinhara
e acompanhara devotadamente por toda a vida, fosse negado qualquer apoio, carinho
e respeito.
Os casos se multiplicam, são muito mais cruéis do que estes, existem
em meu bairro, em seu bairro. Nossa postura diante do inesperado, do diferente,
raramente é de atenção, abertura, escuta. Pouco nos interessam
os motivos, o bem, as angústias e buscas, direitos e razão de quem
infringe as regras da nossa acomodação, frivolidade ou egoísmo.
Queremos todos os privilégios para nós, a liberdade, a esperança.
Para os outros, mesmo se antes eram muito próximos, queremos a imobilidade,
a distância. Cassamos sem respeitar os seus direitos humanos mais básicos.
A intolerância, que talvez não conste no índex das religiões
mais castradoras, é com certeza um feio pecado capital. Do qual talvez
nenhum de nós escape, se examinarmos bem.
Lya Luft é escritora |