Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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O acadêmico showman

A prosa de José Miguel Wisnik é performática
como a sua música. E ainda mais vazia


Jerônimo Teixeira

O professor de literatura da Universidade de São Paulo José Miguel Wisnik, de 56 anos, é um grande comunicador. Sua palestra sobre Guimarães Rosa na última Festa Literária de Parati, em julho, foi uma das mais aplaudidas (e mais longas) do evento. Dublê de acadêmico e músico, ele já gravou três discos, publicou três livros, compôs trilhas para filmes, peças de teatro, espetáculos de dança. Sua fala – mais até do que o canto meio falado que exercita em seus discos e shows – tem qualidades que alguns diriam encantatórias (consta que ele deixa muitas de suas alunas balançadas). O problema é que, perdida entre a suavidade bossa-nova da voz de Wisnik e a pirotecnia barroca de sua prosa, a platéia acaba esquecendo de questionar o que, afinal, ele está dizendo. Pois bem: o recado está dado e condensado no recém-lançado Sem Receita (Publifolha; 534 páginas; 69 reais), que reúne ensaios, letras de música e uma longa entrevista com o autor. Reduzida à medula, a mensagem de Wisnik se desdobra no seguinte: 1) a despeito das mazelas do país, a cultura brasileira é dinâmica, mestiça, original, enfim, uma coisa linda; 2) a música popular é a realização mais acabada da cultura brasileira; 3) logo, a música popular brasileira é dinâmica, mestiça, original, enfim, uma coisa linda. Como o próprio Wisnik ocupa seu modesto espaço na festa da MPB, Sem Receita tem um indisfarçado componente de auto-elogio.

Natural de São Vicente, em São Paulo, Wisnik cresceu pulando da banqueta do piano clássico para a arquibancada dos estádios, onde acompanhou o Santos, seu time do coração, no tempo de Pelé. Estudou letras na USP e vem mantendo, na carreira acadêmica, um pé na música e outro na literatura. Foi muito ligado a uma certa vanguarda musical paulista, especialmente ao grupo Rumo (alguém lembra?), que floresceu pelos anos 80 para murchar em seguida. Wisnik demorou a lançar-se em vôo musical solo e mantém uma discografia esparsa: estreou com José Miguel Wisnik, de 1992, seguido de São Paulo Rio, de 2000, e Pérola aos Poucos, de 2003. Apesar do temperamento retraído, ele arrisca uma certa exposição pessoal na música: a canção DNA fala do momento em que o compositor conheceu a filha, então com 17 anos, que tivera em um caso extraconjugal – o refrão repete as três letras do título, para revelar no final o nome da menina, Daniela. Ao lado desses acidentes afetivos, a biografia de Wisnik também tem sua dose de tragédia: em 1982, ele perdeu a primeira mulher, vítima de uma doença respiratória, e seis meses depois um filho de 7 anos morreu atropelado. Hoje casado com a artista plástica Laura Vinci, Wisnik está em um bom momento, com disco e livro novo. As obrigações universitárias limitam a carreira musical: ele não pode fazer longas turnês. Mesmo assim, para o ano que vem, já tem programados alguns shows-com-palestra ao lado do também músico e professor de literatura Arthur Nestrovski.

Unanimidade entre seus pares, Wisnik é, sobretudo, um sujeito boa-praça, afável demais para ser crítico. Sem Receita inclui poucos momentos de confronto de idéias. O mais direto (e engraçado) é a sua discussão com o já quase lendário crítico musical José Ramos Tinhorão, que em seu purismo nacionalista rejeita até a bossa nova, por considerá-la imitação do jazz. (Wisnik, aliás, afirma que é responsável por ter sensibilizado Tinhorão para a novidade do rap. Tinhorão nega.) Wisnik às vezes arranha uma crítica vaga ao lixo predominante na indústria musical, mas nunca dá nome aos bois. No geral, seus ensaios são pródigos em confete. É significativo, aliás, que Sem Receita inclua até uma peça publicitária: uma resenha de Budapeste, romance de Chico Buarque, escrita por encomenda da editora para figurar no kit promocional do livro.

São elogios, loas, celebrações e homenagens que não acabam mais. Esse fervor carnavalesco tem lá sua substância teórica. Uma comparação com o já citado Tinhorão pode ser elucidativa: obediente a um receituário rígido, Tinhorão exclui. Bossa nova, tropicalismo, rock, tudo isso é descartado como fruto estrangeiro. O nacionalismo de Wisnik, ao contrário, é inclusivo. Tudo entra, tudo vale. Todos os opostos se encontram e todos os conflitos se conciliam na brasilidade do professor. Num ensaio sobre Guimarães Rosa, Wisnik até admite que a fluidez da cultura brasileira também dá lugar à violência, a zonas sem lei em que impera a brutal retaliação do jagunço. Mas o ensaísta também deixa a impressão de que a própria existência de Guimarães Rosa, com suas "estórias encantadoras da dignidade inesgotável da pobreza no Brasil profundo", basta para resgatar as vergonhas sertanejas. Wisnik cita uma entrevista de seu amigo Caetano Veloso na qual o músico diz que o Brasil ainda não fez por merecer a bossa nova. Sem Receita, porém, inverte a equação: o descalabro brasileiro é redimido porque o país gerou Tom Jobim e João Gilberto.

Nessa parada, desfilam os chavões de sempre: a cultura mestiça, a antropofagia, a malandragem, a alegria nativa que é nosso legado para a humanidade. O auge da originalidade mestiça, claro, é a MPB. Até Machado de Assis é convocado como um profeta tropicalista, no primeiro e principal ensaio do livro, Machado Maxixe. Wisnik analisa o conto Um Homem Célebre – a história de um compositor de polcas muito populares nos salões cariocas, que no entanto cultiva a ambição frustrada de ser um autor sinfônico. O crítico faz o milagre de transformar esse personagem patético em um emblema positivo, um símbolo da maleabilidade da cultura nacional, do seu trânsito criativo entre o erudito e o popular. Em Machado Maxixe, pelo menos Wisnik tem uma idéia a defender. Na maior parte de Sem Receita, o que se vê é o encantamento do autor com a própria prosa. Para louvar Chico, Caetano, Roberto e Tom, Wisnik não se vexa nem de convocar deuses gregos (fala das "forças dionisíaco-apolíneas" e do "Eros dançante"). Tudo pontuado – tem de se cuidar do ritmo! – por aliterações, rimas, trocadilhos. Os trechos sobre Caetano e Chico reproduzidos nesta página são só uma amostra de como Wisnik se deixa possuir – para usar uma expressão que arremeda o estilo do autor – por uma euforia eufônica. Que ele provavelmente pensa ser música.

 

Os confetes "poético-musicais" de Wisnik  

Machado de Assis
"Foi quem primeiro percebeu a dimensão abarcante que assumiria a música popular no Brasil como instância a figurar e exprimir, como nenhuma, a vida brasileira como um todo."

Caetano Veloso
"Caetano lê o destino através do labirinto de labirintos da linguagem, o labirinto de canções, ele sabe ir e voltar por esse labirinto; e ao voltar ao começo, solitário/solidário, indica o que existe ."

Chico Buarque
"Artesão habilíssimo, lê as entranhas dos homens: sua lírica dramática é extremamente sensível ao corpo que sofre e goza. Sua poesia-música (...) capta a entranha sensível."

 
 
 
 
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