Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Cultura
Só vale pelas figuras

Organizado por Umberto Eco, História da
Beleza
não cumpre o que seu título promete


Carlos Graieb

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Trechos do livro História da Beleza

O italiano Umberto Eco é um homem de inúmeras habilidades: importante teórico da linguagem e da comunicação, romancista de sucesso, provocante crítico cultural. Em suas vestes de filósofo e historiador das idéias, Eco propõe a seguinte distinção entre os conceitos de bom e de belo: o primeiro tem a ver com as coisas que estimulam o nosso desejo e que, portanto, gostaríamos de ter, ao passo que o segundo se refere aos objetos que contemplamos independentemente de querer possuí-los. Se a definição é válida, pode-se discutir. Mas ela é muito pertinente se aplicada ao livro História da Beleza (tradução de Eliana Aguiar; Record; 438 páginas; 150 reais), de cuja introdução foi retirada. Com mais de 300 imagens impressas em papel de qualidade – reproduções de pinturas e esculturas célebres, de edifícios, peças de design, fotos de moda e de publicidade –, o livro é um lindo objeto, que enobrece a mesinha de centro de qualquer sala de estar. Faltou-lhe, contudo, ser bom. O leitor de fato interessado no que o título promete (uma história da beleza) dificilmente desejará adquirir esse obra cara, mas de texto pobre quando não confuso.

Na capa de História da Beleza, Umberto Eco é identificado como organizador. Não é apenas porque o livro, além de um compêndio de imagens, é também um compêndio de citações sobre a questão do belo – de Platão a Franz Kafka, de Homero a Roland Barthes. É porque Eco realmente dividiu a redação com um certo Girolamo de Michele, romancista e professor universitário desconhecido fora da Itália. Mas dá trabalho descobrir essa informação: ela se encontra escondida, em letrinhas diminutas, na página que traz os dados técnicos sobre o volume. A escrita a quatro mãos parece ter contribuído para afrouxar os vínculos entre os capítulos e reduzir a consistência do livro. Ou talvez não. Eco avisa logo de saída que não vai se esforçar para identificar ideais constantes de beleza sob a variedade da história. "Caberá ao leitor encontrar a unidade sob as diferenças", diz ele. Cada um que se vire para juntar as idéias.

No fundo, Eco e De Michele parecem amparar-se numa idéia que tiraram do filósofo alemão Friedrich Nietzsche: a da dicotomia entre a "beleza apolínea", fundada na harmonia e na serenidade, e a "beleza dionisíaca", que é desregrada, provocante e visceral. A história da beleza resultaria do embate entre esses ideais. Esse enredo emerge da leitura dos capítulos 3, 11, 12 e 13, que são os mais substanciosos e compõem a espinha dorsal do livro. O primeiro disseca os conceitos de proporção e harmonia, e os três restantes enfocam as revoluções estéticas e de sensibilidade trazidas pela era moderna, em movimentos como o romantismo e o modernismo.

Divulgação
A vênus moderna Gisele Bündchen: "beleza de consumo" propagada pela mídia


Fora dessa linha mestra, a história contada pelos autores é fragmentária e desigual. Páginas interessantes se alternam com outras dignas de manuais para vestibulandos. Entre os capítulos que se salvam, encontra-se o dedicado à "beleza dos monstros", que aborda o fascínio despertado pelos demônios e seres imaginários, pelos animais estranhos, pelos habitantes misteriosos de terras distantes. A seleção de citações é particularmente saborosa, como no trecho em que São Bernardo reclama da mania dos arquitetos medievais de "enfeitar" igrejas com imagens bizarras: "O que faz nos claustros, onde os frades lêem os Ofícios, aquela ridícula monstruosidade, aquela espécie de estranha formosura e deformidade formosa? O que estão a fazer lá os imundos símios? Ou os ferozes leões? Oh, Senhor, se não nos envergonhamos dessas tolices, por que pelo menos não lamentamos as despesas?". No mais, é preciso ir pinçando idéias aqui e ali. A observação de que a estreita conexão entre beleza e arte é um produto da época moderna é pertinente e interessante: "Se determinadas teorias estéticas modernas reconhecem apenas a beleza da arte, subestimando a beleza da natureza, em outros períodos históricos aconteceu o inverso: a beleza era uma qualidade que podiam ter as coisas da natureza, enquanto a arte tinha apenas a incumbência de fazer bem as coisas que fazia", escreve Eco. Os rótulos "beleza da provocação" e "beleza do consumo", empregados na discussão sobre o século XX, também constituem bons achados.

Num livro tão cheio de imagens maravilhosas, a ausência de discussões alentadas sobre obras de arte específicas não deixa de surpreender. Podem-se contar nos dedos as passagens em que um quadro é descrito. Mesmo nessas ocasiões, a linguagem permanece fria diante da eloqüência da pintura. Talvez seja esse o maior defeito da História da Beleza de Umberto Eco: uma estranha incapacidade de se enlevar com o que é belo.

 

Teoria e prática

Examinando-se os tratados renascentistas sobre a proporção como regra matemática, a relação entre teoria e realidade só parece satisfatória no que diz respeito à arquitetura e à perspectiva. Quando se tenta entender, através da pintura, qual seria o ideal renascentista da beleza humana, parece haver uma discrepância entre a perfeição da teoria e as oscilações do gosto. Quais os critérios proporcionais comuns a vários homens e mulheres tidos como belos por diversos artistas? Podemos encontrar tal regra proporcional nas Vênus de Botticelli e Lucas Cranach ou na ninfa de Palma, o Velho? (...) Realmente, não se vê quais seriam os critérios proporcionais comuns à época.

Trecho de História da Beleza

 

A democracia das formas

Os mass media não apresentam mais nenhum ideal único de Beleza. Os meios de comunicação repropõem a opulência de Mae West e a graça anoréxica das últimas modelos; a Beleza negra de Naomi Campbell e a nórdica de Claudia Schiffer; a mulher fatal e a mocinha água-com-açúcar à Julia Roberts. O nosso viajante do futuro já não poderá distinguir o ideal estético difundido pelos mass media. Será obrigado a render-se diante da orgia de tolerância, de sincretismo total, de absoluto e irrefreável politeísmo da Beleza.

Trecho de História da Beleza

 
 
 
 
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