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Cultura
Só vale pelas figuras
Organizado por Umberto Eco, História
da
Beleza não cumpre o que seu título promete

Carlos Graieb
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O italiano Umberto Eco é um homem de
inúmeras habilidades: importante teórico da linguagem
e da comunicação, romancista de sucesso, provocante
crítico cultural. Em suas vestes de filósofo e historiador
das idéias, Eco propõe a seguinte distinção
entre os conceitos de bom e de belo: o primeiro tem
a ver com as coisas que estimulam o nosso desejo e que, portanto,
gostaríamos de ter, ao passo que o segundo se refere aos
objetos que contemplamos independentemente de querer possuí-los.
Se a definição é válida, pode-se discutir.
Mas ela é muito pertinente se aplicada ao livro História
da Beleza (tradução de Eliana Aguiar; Record;
438 páginas; 150 reais), de cuja introdução
foi retirada. Com mais de 300 imagens impressas em papel de qualidade
reproduções de pinturas e esculturas célebres,
de edifícios, peças de design, fotos de moda e de
publicidade , o livro é um lindo objeto, que enobrece
a mesinha de centro de qualquer sala de estar. Faltou-lhe, contudo,
ser bom. O leitor de fato interessado no que o título promete
(uma história da beleza) dificilmente desejará adquirir
esse obra cara, mas de texto pobre quando não confuso.
Na capa de História da Beleza,
Umberto Eco é identificado como organizador. Não é
apenas porque o livro, além de um compêndio de imagens,
é também um compêndio de citações
sobre a questão do belo de Platão a Franz Kafka,
de Homero a Roland Barthes. É porque Eco realmente dividiu
a redação com um certo Girolamo de Michele, romancista
e professor universitário desconhecido fora da Itália.
Mas dá trabalho descobrir essa informação:
ela se encontra escondida, em letrinhas diminutas, na página
que traz os dados técnicos sobre o volume. A escrita a quatro
mãos parece ter contribuído para afrouxar os vínculos
entre os capítulos e reduzir a consistência do livro.
Ou talvez não. Eco avisa logo de saída que não
vai se esforçar para identificar ideais constantes de beleza
sob a variedade da história. "Caberá ao leitor encontrar
a unidade sob as diferenças", diz ele. Cada um que se vire
para juntar as idéias.
No fundo, Eco e De Michele parecem amparar-se
numa idéia que tiraram do filósofo alemão Friedrich
Nietzsche: a da dicotomia entre a "beleza apolínea", fundada
na harmonia e na serenidade, e a "beleza dionisíaca", que
é desregrada, provocante e visceral. A história da
beleza resultaria do embate entre esses ideais. Esse enredo emerge
da leitura dos capítulos 3, 11, 12 e 13, que são os
mais substanciosos e compõem a espinha dorsal do livro. O
primeiro disseca os conceitos de proporção e harmonia,
e os três restantes enfocam as revoluções estéticas
e de sensibilidade trazidas pela era moderna, em movimentos como
o romantismo e o modernismo.
Divulgação
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| A vênus moderna Gisele Bündchen:
"beleza de consumo" propagada pela mídia |
Fora dessa linha mestra, a história contada pelos autores
é fragmentária e desigual. Páginas interessantes
se alternam com outras dignas de manuais para vestibulandos. Entre
os capítulos que se salvam, encontra-se o dedicado à
"beleza dos monstros", que aborda o fascínio despertado pelos
demônios e seres imaginários, pelos animais estranhos,
pelos habitantes misteriosos de terras distantes. A seleção
de citações é particularmente saborosa, como
no trecho em que São Bernardo reclama da mania dos arquitetos
medievais de "enfeitar" igrejas com imagens bizarras: "O que faz
nos claustros, onde os frades lêem os Ofícios, aquela
ridícula monstruosidade, aquela espécie de estranha
formosura e deformidade formosa? O que estão a fazer lá
os imundos símios? Ou os ferozes leões? Oh, Senhor,
se não nos envergonhamos dessas tolices, por que pelo menos
não lamentamos as despesas?". No mais, é preciso ir
pinçando idéias aqui e ali. A observação
de que a estreita conexão entre beleza e arte é um
produto da época moderna é pertinente e interessante:
"Se determinadas teorias estéticas modernas reconhecem apenas
a beleza da arte, subestimando a beleza da natureza, em outros períodos
históricos aconteceu o inverso: a beleza era uma qualidade
que podiam ter as coisas da natureza, enquanto a arte tinha apenas
a incumbência de fazer bem as coisas que fazia", escreve Eco.
Os rótulos "beleza da provocação" e "beleza
do consumo", empregados na discussão sobre o século
XX, também constituem bons achados.
Num livro tão cheio de imagens maravilhosas,
a ausência de discussões alentadas sobre obras de arte
específicas não deixa de surpreender. Podem-se contar
nos dedos as passagens em que um quadro é descrito. Mesmo
nessas ocasiões, a linguagem permanece fria diante da eloqüência
da pintura. Talvez seja esse o maior defeito da História
da Beleza de Umberto Eco: uma estranha incapacidade de se enlevar
com o que é belo.
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Teoria e prática
Examinando-se os tratados renascentistas
sobre a proporção como regra matemática,
a relação entre teoria e realidade só
parece satisfatória no que diz respeito à
arquitetura e à perspectiva. Quando se tenta
entender, através da pintura, qual seria o ideal
renascentista da beleza humana, parece haver uma discrepância
entre a perfeição da teoria e as oscilações
do gosto. Quais os critérios proporcionais comuns
a vários homens e mulheres tidos como belos por
diversos artistas? Podemos encontrar tal regra proporcional
nas Vênus de Botticelli e Lucas Cranach ou na
ninfa de Palma, o Velho? (...) Realmente, não
se vê quais seriam os critérios proporcionais
comuns à época.
Trecho
de História da Beleza
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A democracia das formas
Os mass media não apresentam
mais nenhum ideal único de Beleza. Os meios de
comunicação repropõem a opulência
de Mae West e a graça anoréxica das últimas
modelos; a Beleza negra de Naomi Campbell e a nórdica
de Claudia Schiffer; a mulher fatal e a mocinha água-com-açúcar
à Julia Roberts. O nosso viajante do futuro já
não poderá distinguir o ideal estético
difundido pelos mass media. Será obrigado
a render-se diante da orgia de tolerância, de
sincretismo total, de absoluto e irrefreável
politeísmo da Beleza.
Trecho de História
da Beleza
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