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Cinema
Canalha inofensivo
Refilmagem drena todo o sangue de Alfie,
um dos personagens mais cruéis dos anos 60

Isabela Boscov
Divulgação
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| Law, como o Alfie "moderno": um
motorista de limusine que só veste Zegna |
Em 1962, o dramaturgo inglês Bill Naughton
criou um dos personagens mais cruéis da excelente ficção
britânica daquela década o motorista Alfie,
que elogiava as mulheres dizendo que elas estavam em ótimo
estado, como se falasse de um carro, e se referia a elas não
pelo pronome feminino "she", mas pelo neutro "it" dos objetos e
animais. Levado primeiro ao rádio, depois ao teatro londrino
e à Broadway, Alfie chegou ao cinema em 1966, interpretado
por Michael Caine, e virou um ícone cultural. Alfie usava
suas namoradas como serventes, largava a mãe de seu filho
porque ela exigia dele coisas que um homem nunca deve ceder a uma
mulher (por exemplo, respeito) e seduzia e engravidava a esposa
de um amigo por falta de coisa melhor para fazer naquela tarde.
Alfie, porém, não inferiorizava as mulheres só
porque era um cafajeste, e porque seu mundo pré-feminista
o autorizava a isso. Na atuação furiosa de Caine,
suas atitudes desprezíveis mascaravam seus próprios
complexos de inferioridade, rejeição e inadequação
todos com aquele odor inconfundível de fixação
edipiana. Do ponto de vista emocional, Alfie era, enfim, um exemplar
mutilado e fracassado da espécie masculina. Homens assim
existem hoje como antes, mas a condição da mulher
mudou. O estigma associado àquelas que vivem um caso extraconjugal,
estão sozinhas no mundo ou têm uma gravidez indesejada
é bem menos duro. Modernizar o personagem, portanto, é
difícil. O que não significa que Charles Shyer, diretor
e co-roteirista do novo Alfie O Sedutor (Alfie,
Inglaterra/Estados Unidos, 2004), em cartaz a partir de sexta-feira,
tivesse de optar logo de cara pelo caminho mais fácil.
Paramount Pictures
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| Caine, com Jane Asher, no original, de 1966:
um mutilado emocional |
Interpretado por Jude Law que é lindo e bom ator,
mas inócuo no papel , Alfie agora dirige limusines
em Nova York, e não na esquálida região leste
de Londres. Num passe (ruim) de mágica, sumiram as distinções
de classe. Sem que se saiba como, também, Alfie tem dinheiro
para vestir Zegna e calçar Prada. Nem seu charme perverso,
que era a ferramenta de sobrevivência do original de Caine,
ele precisa exercitar: as mulheres caem a seus pés. O problema
de Alfie, agora, se resume a não querer compromissos
o que é ao mesmo tempo um direito do cidadão e um
motivo bem mais canalha para se servir de uma conquista sexual do
que um laço materno incompleto. O que o filme prega é
que, se Alfie se emendar, ele será feliz na monogamia. Não
há remendo, porém, que dê jeito num filme tão
insincero.
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