Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Cinema
Canalha inofensivo

Refilmagem drena todo o sangue de Alfie,
um dos personagens mais cruéis dos anos 60


Isabela Boscov


Divulgação
Law, como o Alfie "moderno": um motorista de limusine que só veste Zegna

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Em 1962, o dramaturgo inglês Bill Naughton criou um dos personagens mais cruéis da excelente ficção britânica daquela década – o motorista Alfie, que elogiava as mulheres dizendo que elas estavam em ótimo estado, como se falasse de um carro, e se referia a elas não pelo pronome feminino "she", mas pelo neutro "it" dos objetos e animais. Levado primeiro ao rádio, depois ao teatro londrino e à Broadway, Alfie chegou ao cinema em 1966, interpretado por Michael Caine, e virou um ícone cultural. Alfie usava suas namoradas como serventes, largava a mãe de seu filho porque ela exigia dele coisas que um homem nunca deve ceder a uma mulher (por exemplo, respeito) e seduzia e engravidava a esposa de um amigo por falta de coisa melhor para fazer naquela tarde. Alfie, porém, não inferiorizava as mulheres só porque era um cafajeste, e porque seu mundo pré-feminista o autorizava a isso. Na atuação furiosa de Caine, suas atitudes desprezíveis mascaravam seus próprios complexos de inferioridade, rejeição e inadequação – todos com aquele odor inconfundível de fixação edipiana. Do ponto de vista emocional, Alfie era, enfim, um exemplar mutilado e fracassado da espécie masculina. Homens assim existem hoje como antes, mas a condição da mulher mudou. O estigma associado àquelas que vivem um caso extraconjugal, estão sozinhas no mundo ou têm uma gravidez indesejada é bem menos duro. Modernizar o personagem, portanto, é difícil. O que não significa que Charles Shyer, diretor e co-roteirista do novo Alfie – O Sedutor (Alfie, Inglaterra/Estados Unidos, 2004), em cartaz a partir de sexta-feira, tivesse de optar logo de cara pelo caminho mais fácil.

Paramount Pictures
Caine, com Jane Asher, no original, de 1966: um mutilado emocional


Interpretado por Jude Law – que é lindo e bom ator, mas inócuo no papel –, Alfie agora dirige limusines em Nova York, e não na esquálida região leste de Londres. Num passe (ruim) de mágica, sumiram as distinções de classe. Sem que se saiba como, também, Alfie tem dinheiro para vestir Zegna e calçar Prada. Nem seu charme perverso, que era a ferramenta de sobrevivência do original de Caine, ele precisa exercitar: as mulheres caem a seus pés. O problema de Alfie, agora, se resume a não querer compromissos – o que é ao mesmo tempo um direito do cidadão e um motivo bem mais canalha para se servir de uma conquista sexual do que um laço materno incompleto. O que o filme prega é que, se Alfie se emendar, ele será feliz na monogamia. Não há remendo, porém, que dê jeito num filme tão insincero.

 
 
 
 
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