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Beleza O
paradoxo das francesas Invejadas pela magreza e
elegância, elas seguem comendo gorduras, doces e tudo o que é
bom 
Flavia Varella, de Paris
Nas
ruas de Paris, as mulheres chamam atenção pelo corpo esbelto e elegante.
Nos restaurantes, impressionam pelo que comem: entrada, prato principal, molhos
suculentos, queijo, um copo de vinho e doce de sobremesa. O pão, naturalmente,
acompanha tudo. É a versão feminina do "paradoxo francês",
o fenômeno que intriga pesquisadores da área médica, em especial
americanos e ingleses, dedicados a entender por que os franceses, mesmo comendo
alimentos ricos em gordura, apresentam baixos índices de mortalidade por
doenças coronarianas. Na estética, multiplicam-se os livros que
ensinam como transpor para outras nacionalidades a persistente esbelteza das francesas.
Anne Barone, uma americana que morou alguns anos na França, já escreveu
três, de uma série que intitulou Chic & Slim (Chique e
Magra), e mantém um muito visitado site na internet tudo para mostrar
como, após ter sido gorda por 25 anos, conseguiu perder peso e ficar magra
imitando o modo de vida das amigas. Sua explicação para o "paradoxo
das francesas": é questão de estilo. "As francesas são chiques.
Elas não engordam porque são vaidosas e não querem deixar
de ser chiques. Você já viu o tamanho da lingerie francesa? Só
sendo magra", disse Anne, em entrevista a VEJA. "A vaidade é um vício
útil para quem quer emagrecer." O método de emagrecimento que ela
adaptou das francesas inclui comprar só os ingredientes para a próxima
refeição, não ter despensa em casa e comer o que gosta, saboreando
bem. As explicações científicas
para o paradoxo francês passam pela presença de vinho e azeite nas
refeições e até por supostas qualidades digestivas do foie
gras. Mas a própria existência do tal paradoxo é colocada
em dúvida. "A mortalidade cardiovascular francesa é menor que a
da Europa do norte, mas semelhante à dos países do sul. Não
há nada que nos coloque numa situação excepcional", disse
a VEJA Serge Hercberg, diretor de nutrição epidemiológica
do Instituto de Saúde Francês (Inserm). A alimentação
pode explicar, contudo, o índice relativamente baixo de obesidade (11%,
contra 33% dos americanos) e sobrepeso (30%) dos franceses. "Tradicionalmente,
os franceses fazem três refeições em horários fixos
e com mais de um prato, o que favorece a presença de elementos de vários
grupos alimentares. Esses hábitos e um pouco de atividade física
ajudam a manter a forma, apesar do alto consumo de gorduras e açúcares",
afirma Hercberg. A brasileira Georgina Brandolini,
criada na França e casada com um conde italiano, segue a mesma linha de
raciocínio mas entrega outros truques. "A comida francesa é
pesada, mas equilibrada. As francesas, como eu, se ganham 1 quilo, logo fazem
um regiminho", revela. Metade delas afirma ter feito dieta ao menos uma vez na
vida, preocupação tão constante que a atriz Emmanuelle Béart
provocou comoção nacional quando, às vésperas dos
40 anos, apareceu seminua e bem arredondada na capa da revista Elle,
no ano passado. Um escândalo no país de sílfides como Vanessa
Paradis, a magérrima mulher do ator Johnny Depp, e Ludivine Sagnier, a
queridinha do momento, que desfila a silhueta naturalmente em forma em Swimming
Pool. "As francesas pensam muito no corpo. Todas as atrizes fazem regime
e plástica também , mas não contam", entrega a brasileira
Cristiana Reali, que atua no teatro e no cinema francês. Segundo ela, "o
corpo das francesas é diferente: elas têm mais barriga, menos cintura,
bumbum chato. Nós, brasileiras, já temos de nos preocupar mais com
os quadris, principalmente quando a idade avança".
Os especialistas consideram que o fato de um povo ser mais gordo que outro se
deve principalmente a fatores socioculturais. A estrutura petite, de poucas
carnes e ossatura delicada, tradicionalmente associada às francesas, não
tem valor científico. "Não se pode falar em padrão biofísico
francês", diz outro pesquisador, Claude Fischler, do Centro Nacional de
Pesquisa Científica (CNRS). "A França é o país europeu
com o maior fluxo migratório em sua formação. Não
existe homogeneidade genética", completa. Para Fischler, os franceses são
em geral magros porque a cultura alimentar os favorece. "Os franceses não
pulam refeições nem comem fora de hora porque é esse o esquema
em que vivem. Os americanos comem mais porque as porções lá
são maiores", diz. Em parceria com pesquisadores da Universidade da Filadélfia,
Fischler mediu porções servidas naquela cidade e em Paris, e as
americanas eram em média 25% maiores que as francesas. Outra diferença
constatada por Fischler na pesquisa: "Para nós, a refeição
é um momento de prazer, de confraternização. Para o americano,
é pôr comida dentro do corpo". Quando sua equipe pediu que os entrevistados
associassem uma palavra a bolo de chocolate, os americanos responderam culpa;
os franceses, celebração. Já creme de leite lembrou aos franceses
chantilly e aos americanos, algo pouco saudável. Como se vê, questão
de estilo.
Fontes:
Sofres 2002, Baromètre Santé
Nutrition 2002 e ObEpi 2003 | |