Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Gastronomia
Gastronomia com tutano

Para Jeffrey Steingarten, uma refeição
é muito mais que um punhado de calorias


Marcelo Marthe


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Segredos frugais

EXCLUSIVO ON-LINE
Trechos dos livros
Deve Ter Sido Alguma Coisa que Eu Comi
O Homem que Comeu de Tudo

Em A Fisiologia do Gosto (1825), primeiro tratado de gastronomia de que se tem notícia, o francês Jean Anthelme Brillat-Savarin definia esse novo campo do conhecimento como algo que ia além da arte de preparar um bom prato. Na sua visão, a relação do homem com os alimentos requeria um estudo mais amplo, que abarcasse áreas como a economia, a filosofia e a química. Se há um discípulo aplicado do velho e bom estilo de escrever sobre o assunto, trata-se de Jeffrey Steingarten. Crítico gastronômico da revista Vogue americana, ele é um aventureiro e um investigador incansável. A esse entusiasmo, os textos de Steingarten somam doses de ironia e incorreção política condizentes com os tempos atuais. Uma amostra são os artigos reunidos em Deve Ter Sido Alguma Coisa que Eu Comi (tradução de Luiz Henrique Horta; Companhia das Letras; 498 páginas; 58 reais). Como seu antecessor, o best-seller O Homem que Comeu de Tudo, lançado há quatro anos, o livro traz as aventuras de Steingarten em busca de iguarias exóticas e suas considerações (sempre cáusticas, diga-se) sobre tendências de comportamento. Ele é divertidíssimo e instrutivo, sobretudo quando faz análises de ingredientes e pratos à luz de técnicas científicas (veja quadro).

Para escrever seus textos, o crítico sai a campo com espírito inquisidor. Ele colhe impressões em viagens – como aquela em que sobe num barco para pescar um marlim-azul, um dos peixes mais valiosos do planeta. Também faz pessoalmente compras nos mercados e lojas especializadas – roda Nova York inteira, por exemplo, à procura de um galo velho para fazer um coq au vin, prato tradicional da culinária francesa. Steingarten põe ainda a mão na massa, fazendo e refazendo a mesma iguaria dezenas de vezes, para testar receitas e comparar técnicas de preparo. Por outro lado, ele não hesita em recorrer a especialistas. Consulta padeiros quando quer fazer uma baguete. Ou então cientistas, se o desafio é descobrir as propriedades químicas e a composição de certos alimentos. Num dos capítulos, por exemplo, ele investiga a intolerância à lactose, substância presente nos derivados de leite. Muitos americanos alegam sofrer desse mal para deixar de comer queijos – sem saber que a maioria deles não contém lactose, como verifica Steingarten.

A luta contra as fobias alimentares, aliás, é sua cruzada. Em boa parte das crônicas, ele tenta converter os que sentem arrepios diante de tudo o que lhes parece esquisito. Sustenta que isso não passa de um problema cultural, e cita como exemplo a mudança de humor dos americanos em relação às lulas: tidas até os anos 80 como monstrengos nojentos, elas hoje não faltam no cardápio de nenhum restaurante do país. O crítico centra fogo no que considera preconceitos travestidos de injunções de saúde. Ele satiriza as reservas exageradas com relação ao glutamato monossódico, base do conhecido tempero oriental Aji-no-moto, que provocaria uma certa "síndrome do restaurante chinês", marcada por crises de enxaqueca. "Um pesquisador chegou a culpar o glutamato pela depressão de sua mulher, depois de duas semanas de explosões de raiva descontrolada. Ah, se fosse possível lidar com mulheres desse tipo só tirando o glutamato de sua vida", diz. Steingarten não poupa nem a agência americana de controle de remédios e alimentos, a FDA. Ridiculariza as regras duras que regem a importação de queijos nos Estados Unidos – que proíbem a venda no país de jóias da culinária francesa como o queijo camembert. O crítico faz, é verdade, seu mea-culpa. Ele nunca conseguiu encarar sobremesas indianas e só aos poucos domina sua aversão por insetos – acepipes comuns nos países asiáticos. Num capítulo devotado à Tailândia, conta como recusou as baratas gigantes empanadas – embora tenha devorado com gosto os vermes de bambu fritos. "Comprei um saco deles e os comi como se fossem Doritos", diz. Com sua combinação de culinária, crítica cultural e às vezes até mesmo ciência, Deve Ter Sido Alguma Coisa que Eu Comi ajuda a ver refeições como algo mais que amontoados de calorias. Steingarten mostra um caminho para recuperar o prazer de comer e ensina a pensar em comida. Mesmo que a refeição consista numa prosaica – e muito calórica – porção de batatas fritas.

 

 
 
 
 
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