Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Economia e Negócios
A diplomacia que é uma viagem

Enquanto o Mercosul afunda e a Alca
é evitada, os diplomatas brasileiros se
ocupam com a fantasia da Comunidade
Sul-Americana de Nações


Lucila Soares

AP
Lula em traje típico em Cuzco: retórica sobre a unidade da América do Sul irritou até os hermanos

Não se faz diplomacia sem uma visão do próprio país e de seu lugar no mundo. Essa é a marca dos grandes diplomatas como o austríaco Klemens Metternich (1773-1859), que restaurou a posição de potência da Áustria no século XIX. Para ficar com outro exemplo europeu, o general Charles de Gaulle (1890-1970) também se vangloriava com razão de estar sempre medindo sua França em relação a aliados e adversários. Por idiossincrasia ideológica e deformação de análise do mundo moderno, a diplomacia brasileira está se tornando o braço mais fraco do governo Lula. Ela não enxerga que o Mercosul se transformou num fantasma. Não vê também que, ao virar as costas para a Alca, o acordo de livre-comércio das Américas, está apenas facilitando o caminho para que Uruguai, Argentina, Chile e todo o bloco sul-americano acertem alegremente o ponteiro com os Estados Unidos, abrindo espaço para suas empresas no fabuloso mercado consumidor americano.

Na semana passada, os diplomatas meteram o presidente em outra fria. Lula foi levado a protagonizar na cidade histórica de Cuzco, no Peru, uma melancólica tentativa de reencarnação dos ideais de Simon Bolívar (1783-1830), herói da independência de vários países da América do Sul e defensor de sua unificação – projeto, aliás, que gerou uma sucessão de caudilhos nacionalistas, corruptos e brutais. O encontro foi claramente boicotado pelos presidentes de quatro dos doze países sul-americanos, sendo três do Mercosul. Quem foi reclamou da retórica vazia dos brasileiros e da falta de resultados práticos. A idéia de construir uma identidade sul-americana, justiça seja feita, não é do governo Lula. No Brasil, ela data do governo Itamar Franco – foi uma iniciativa do então chanceler Fernando Henrique Cardoso – e contempla o atendimento de necessidades óbvias, como a construção de estradas que facilitem o escoamento de mercadorias ou a integração de recursos energéticos. A novidade é que a esse projeto foi agregado um palavrório messiânico, que atribui ao Brasil o papel de redentor da região.

Poderia ser apenas retórico, mas tem trazido conseqüências negativas para setores vitais da produção nacional. No caso específico da ausência do presidente argentino, Néstor Kirchner, Lula insistiu em uma atitude que, em nome do projeto político de integração, permite uma série de abusos na área comercial. Só neste ano, foram três as investidas do vizinho para restringir a entrada de produtos brasileiros. Todas bem-sucedidas. Com um detalhe: na chamada guerra das geladeiras, os argentinos barraram os produtos brasileiros alegando defesa da indústria local e compraram de outros países, num flagrante desrespeito às regras da Organização Mundial do Comércio, à qual ambos os países são filiados. E ficou por isso mesmo.

Por trás desse equívoco está a aposta da diplomacia brasileira nas parcerias com outras nações em desenvolvimento, não para satisfazer os interesses nacionais, mas suas próprias veleidades de fazer frente à hegemonia dos Estados Unidos. É em nome desse objetivo que se cometem desatinos como reconhecer a China como economia de mercado. Ao tomar essa medida, no mês passado, o governo brasileiro reduziu drasticamente as chances de defesa de setores que sofrem com a concorrência predatória dos produtos chineses. "É no mínimo curioso que um país campeão de práticas desleais de comércio mereça tamanha deferência", diz um executivo de uma grande empresa do setor de brinquedos. A reclamação procede. Existem mecanismos de defesa comercial, estabelecimento de cotas ou elevação temporária de alíquotas, além de processos contra a exportação a preços artificialmente baixos (dumping), cuja adoção fica muito mais difícil com a China sendo tratada como se fosse economia de mercado. O dumping, por exemplo, é uma prática passível de punição desde que comprovada. Quando o alvo é um país de economia fechada, isso se faz comparando o preço de exportação de um produto com algum parâmetro internacional. Quando o alvo é uma economia de mercado, compara-se o preço de exportação com o cobrado do consumidor local. Como na China esse preço é extremamente baixo por uma série de mecanismos viáveis apenas nas economias planificadas, será muito difícil comprovar o dumping. "A política externa está recheada de uma retórica política perigosa", diz Mario Marconini, consultor em relações internacionais.

Querer liderar a América do Sul é uma ambição diplomática legítima do Brasil, e diversificar as parcerias comerciais é uma obrigação do governo. O erro é fazer isso em detrimento das relações comerciais com os Estados Unidos e com a União Européia, que respondem por quase metade do comércio externo brasileiro. Os potenciais parceiros sul-americanos do Brasil sabem cuidar de seus interesses muito bem. Enquanto emprestam fantasias andinas para o presidente Lula vestir, esses países têm, na prática, dado clara prioridade aos acordos bilaterais com os EUA. Diz Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas: "É preciso deixar de idealizar as relações Sul-Sul, senão cairemos no pior dos mundos. Vamos apanhar da Argentina, da Índia, da China, e perder espaço nos mercados tradicionais".

 

 

 
 
 
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