|
|
Economia e Negócios A
diplomacia que é uma viagem Enquanto o Mercosul
afunda e a Alca é evitada, os diplomatas brasileiros se ocupam
com a fantasia da Comunidade Sul-Americana de Nações  Lucila
Soares
AP
 | | Lula
em traje típico em Cuzco: retórica sobre a unidade da América
do Sul irritou até os hermanos |
Não
se faz diplomacia sem uma visão do próprio país e de seu
lugar no mundo. Essa é a marca dos grandes diplomatas como o austríaco
Klemens Metternich (1773-1859), que restaurou a posição de potência
da Áustria no século XIX. Para ficar com outro exemplo europeu,
o general Charles de Gaulle (1890-1970) também se vangloriava com razão
de estar sempre medindo sua França em relação a aliados e
adversários. Por idiossincrasia ideológica e deformação
de análise do mundo moderno, a diplomacia brasileira está se tornando
o braço mais fraco do governo Lula. Ela não enxerga que o Mercosul
se transformou num fantasma. Não vê também que, ao virar as
costas para a Alca, o acordo de livre-comércio das Américas, está
apenas facilitando o caminho para que Uruguai, Argentina, Chile e todo o bloco
sul-americano acertem alegremente o ponteiro com os Estados Unidos, abrindo espaço
para suas empresas no fabuloso mercado consumidor americano.
Na semana passada, os diplomatas meteram o presidente em outra fria. Lula foi
levado a protagonizar na cidade histórica de Cuzco, no Peru, uma melancólica
tentativa de reencarnação dos ideais de Simon Bolívar (1783-1830),
herói da independência de vários países da América
do Sul e defensor de sua unificação projeto, aliás,
que gerou uma sucessão de caudilhos nacionalistas, corruptos e brutais.
O encontro foi claramente boicotado pelos presidentes de quatro dos doze países
sul-americanos, sendo três do Mercosul. Quem foi reclamou da retórica
vazia dos brasileiros e da falta de resultados práticos. A idéia
de construir uma identidade sul-americana, justiça seja feita, não
é do governo Lula. No Brasil, ela data do governo Itamar Franco
foi uma iniciativa do então chanceler Fernando Henrique Cardoso
e contempla o atendimento de necessidades óbvias, como a construção
de estradas que facilitem o escoamento de mercadorias ou a integração
de recursos energéticos. A novidade é que a esse projeto foi agregado
um palavrório messiânico, que atribui ao Brasil o papel de redentor
da região. Poderia ser apenas retórico,
mas tem trazido conseqüências negativas para setores vitais da produção
nacional. No caso específico da ausência do presidente argentino,
Néstor Kirchner, Lula insistiu em uma atitude que, em nome do projeto político
de integração, permite uma série de abusos na área
comercial. Só neste ano, foram três as investidas do vizinho para
restringir a entrada de produtos brasileiros. Todas bem-sucedidas. Com um detalhe:
na chamada guerra das geladeiras, os argentinos barraram os produtos brasileiros
alegando defesa da indústria local e compraram de outros países,
num flagrante desrespeito às regras da Organização Mundial
do Comércio, à qual ambos os países são filiados.
E ficou por isso mesmo. Por trás desse equívoco
está a aposta da diplomacia brasileira nas parcerias com outras nações
em desenvolvimento, não para satisfazer os interesses nacionais, mas suas
próprias veleidades de fazer frente à hegemonia dos Estados Unidos.
É em nome desse objetivo que se cometem desatinos como reconhecer a China
como economia de mercado. Ao tomar essa medida, no mês passado, o governo
brasileiro reduziu drasticamente as chances de defesa de setores que sofrem com
a concorrência predatória dos produtos chineses. "É no mínimo
curioso que um país campeão de práticas desleais de comércio
mereça tamanha deferência", diz um executivo de uma grande empresa
do setor de brinquedos. A reclamação procede. Existem mecanismos
de defesa comercial, estabelecimento de cotas ou elevação temporária
de alíquotas, além de processos contra a exportação
a preços artificialmente baixos (dumping), cuja adoção fica
muito mais difícil com a China sendo tratada como se fosse economia de
mercado. O dumping, por exemplo, é uma prática passível de
punição desde que comprovada. Quando o alvo é um país
de economia fechada, isso se faz comparando o preço de exportação
de um produto com algum parâmetro internacional. Quando o alvo é
uma economia de mercado, compara-se o preço de exportação
com o cobrado do consumidor local. Como na China esse preço é extremamente
baixo por uma série de mecanismos viáveis apenas nas economias planificadas,
será muito difícil comprovar o dumping. "A política externa
está recheada de uma retórica política perigosa", diz Mario
Marconini, consultor em relações internacionais.
Querer liderar a América do Sul é uma ambição diplomática
legítima do Brasil, e diversificar as parcerias comerciais é uma
obrigação do governo. O erro é fazer isso em detrimento das
relações comerciais com os Estados Unidos e com a União Européia,
que respondem por quase metade do comércio externo brasileiro. Os potenciais
parceiros sul-americanos do Brasil sabem cuidar de seus interesses muito bem.
Enquanto emprestam fantasias andinas para o presidente Lula vestir, esses países
têm, na prática, dado clara prioridade aos acordos bilaterais com
os EUA. Diz Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação
Getúlio Vargas: "É preciso deixar de idealizar as relações
Sul-Sul, senão cairemos no pior dos mundos. Vamos apanhar da Argentina,
da Índia, da China, e perder espaço nos mercados tradicionais". |