Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Economia e Negócios
A big blue vermelha

Lucros em queda fazem a IBM, um ícone
do capitalismo americano, vender sua divisão
de PCs para a Lenovo, uma estatal chinesa


Carlos Rydlewski

 
Reuters
Liu Chuan Zhi, da Lenovo, e John Joyce, da IBM: americanos querem focar em serviços

O capitalismo evolui por caminhos surpreendentes. A IBM, que ajudou a criar os computadores pessoais há mais de vinte anos, vendeu sua divisão de PCs para a Lenovo, uma estatal chinesa ligada às Forças Armadas. Com a compra, a firma asiática tornou-se a terceira maior fabricante desses aparelhos no mundo, atrás apenas da Dell e da Hewlett-Packard (HP). O simbolismo da operação é até maior do que os valores envolvidos. Os chineses vão gastar 1,75 bilhão de dólares. A própria IBM gastou o dobro desse valor para adquirir, há dois anos, parte da consultoria Price, a PwC Consulting. No caso do negócio dos PCs, os chineses vão desembolsar 650 milhões de dólares em dinheiro, 600 milhões de dólares em ações e assumirão dívidas num total de 500 milhões de dólares. A Lenovo também poderá usar por cinco anos o símbolo da Big Blue, como a IBM é conhecida devido à cor de seu logotipo. Por tempo indeterminado, os chineses terão direito de estampar as máquinas com a marca Think, hoje um diferencial no mercado de notebooks.

Mas, além do dinheiro, há os simbolismos. O mais óbvio deles evidencia as ambições do capitalismo chinês, disposto a qualquer esforço para apropriar-se de marcas fortes e abandonar a imagem de fabricante de bugigangas e produtos piratas. A Lenovo é presidida por Liu Chuan Zhi, um engenheiro militar de 60 anos que sobreviveu à brutal Revolução Cultural, no fim da década de 60. Nos anos 80, conseguiu a permissão do governo para distribuir no país os PCs da IBM. Mais tarde, convenceu as autoridades a criar sua própria fábrica de computadores pessoais – a Legend, que se tornou a Lenovo em 1988. O negócio permite à empresa chinesa comprar, por um preço baixo, tecnologia mundialmente reconhecida. Além disso, como poderá usar o logotipo da IBM por cinco anos, tem a chance de ganhar a confiança dos consumidores americanos e europeus. Os chineses também vão usar as fábricas, os centros de distribuição e os profissionais de marketing e vendas da empresa americana.

As razões da IBM para vender a empresa talvez encerrem uma lição ainda mais profunda. Montar e vender PCs há alguns anos deixou de ser uma atividade altamente lucrativa. No caso específico da IBM, transformou-se em um estorvo dentro de um negócio que concentra os lucros nos setores de serviços e de software. A IBM sabe que a cereja do mercado não está mais no computador, mas no que gira em torno dele. A área de maior faturamento da gigante americana é a de prestação de serviços, que, em 2003, respondeu por 48% das vendas da companhia. A comercialização de PCs colaborou com apenas 12% do total arrecadado. A margem de lucro da divisão que engloba os computadores pessoais da Big Blue, no entanto, é de apenas 0,7%. Em comparação, fazer softwares dá margem superior a 20%. A lucratividade na prestação de serviços é de 10%.

 
Reuters
Loja da Lenovo em Pequim: chineses compraram marca mundial para ganhar mercados

O processo de pasteurização dos PCs também fez as atrações desse mercado ruir. "Desde o fim dos anos 90, essas máquinas vêm aos poucos perdendo o perfil de alta tecnologia para se transformar em mercadorias", diz Rusty O'Bryan, gerente da International Data Corporation (IDC) no Brasil, uma consultoria especializada em tecnologia. Em 1986, a IBM lançou um computador no mercado americano por 5.000 dólares. Em 2003, uma máquina do mesmo padrão custava 2.000 dólares. Só sobrevive nesse ramo quem consegue vender por preços menores, mas isso já não depende tanto dos fabricantes, mas dos fornecedores de componentes. É um daqueles ramos em que só a escala gigantesca dá sobrevida ao negócio.

Processos semelhantes ocorrem com outros produtos típicos da ágil indústria americana. Marcas que já foram líderes na venda e produção de televisores, como Zenith e RCA, acabaram nas mãos de estrangeiros por absoluta falta de interesse de seus fabricantes originais. Em 1956, uma televisão em cores custava 500 dólares, o que equivalia a 25% do valor de um carro. Exigia alta tecnologia. Hoje o preço médio dos produtos mais comuns nas lojas equivale a 10% do que era há 48 anos. O apelo industrial deslocou-se da linha de montagem idealizada por Henry Ford na década de 20 para a indústria do conhecimento e da pesquisa. A IBM é um exemplo. A companhia sai do ramo de PCs para concentrar-se nos serviços prestados a grandes corporações e à produção de softwares.

A consultoria Gartner, especializada em tecnologia, prevê que haverá um enxugamento no número de fabricantes de computadores pessoais. Três dos dez maiores produtores devem desaparecer do mapa global até 2007. "Agora, os setores que mais crescem estão baseados no conhecimento e na pesquisa", diz o economista Eduardo Giannetti da Fonseca. "É por isso que as companhias preferem investir em bens intangíveis, como os serviços." Por via das dúvidas, a IBM mantém um pé na manufatura. O acordo com a Lenovo prevê que a empresa deterá 18,9% das ações da companhia chinesa. Com isso, consegue se posicionar, de forma estratégica, no promissor mercado chinês.

 

 

PREÇOS E MARGENS DECLINANTES

O aumento da competição global e a evolução tecnológica fizeram o preço dos produtos cair e derrubaram as margens de lucro líquidas*

AUTOMÓVEIS
A popularização do automóvel e a competição entre as principais montadoras fizeram a margem de lucro líquida do setor cair. Hoje, está em 5%. Nos anos 90, ela atingiu 15,3%

ELETRÔNICOS
Nos anos 60, as fábricas de TVs americanas eram as maiores do mundo. Nos últimos quarenta anos, a produção deixou de ser altamente rentável e as marcas americanas foram vendidas. Hoje, menos de 10 000 TVs são feitas em território americano. Um em cada dois aparelhos vendidos nos EUA vem do México

SIDERURGIA
O aumento da competitividade derrubou os preços nas últimas décadas. Nos anos 80, a margem líquida da líder do setor nos EUA, a U.S. Steel, era de 5,1%. Em 2003, a companhia teve resultado negativo de 5%, que só não foi pior devido à demanda gigante da economia chinesa

COMPUTADORES
Com o início da popularização do produto, os fabricantes conseguiram margem líquida de 8,5%. O porcentual caiu para 1,5% nos anos 90. Em 2004, ronda mísero 0,8%

*Margem líquida é um indicador usado na análise financeira de empresas. Indica em porcentagem quanto restou para a empresa de cada real vendido após a dedução de todas as despesas, inclusive o imposto de renda

Fonte: Bloomberg

Obs.: a margem líquida foi calculada pela média do setor com empresas
com valor de mercado acima de 250 milhões de dólares

Com reportagem de Chrystiane Silva

 
 
 
 
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