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Economia e Negócios A
big blue vermelha Lucros em queda fazem a IBM, um
ícone do capitalismo americano, vender sua divisão de PCs
para a Lenovo, uma estatal chinesa  Carlos
Rydlewski
Reuters
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Liu Chuan Zhi, da Lenovo, e John Joyce, da IBM: americanos querem focar em serviços
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O capitalismo evolui por caminhos surpreendentes.
A IBM, que ajudou a criar os computadores pessoais há mais de vinte anos,
vendeu sua divisão de PCs para a Lenovo, uma estatal chinesa ligada às
Forças Armadas. Com a compra, a firma asiática tornou-se a terceira
maior fabricante desses aparelhos no mundo, atrás apenas da Dell e da Hewlett-Packard
(HP). O simbolismo da operação é até maior do que
os valores envolvidos. Os chineses vão gastar 1,75 bilhão de dólares.
A própria IBM gastou o dobro desse valor para adquirir, há dois
anos, parte da consultoria Price, a PwC Consulting. No caso do negócio
dos PCs, os chineses vão desembolsar 650 milhões de dólares
em dinheiro, 600 milhões de dólares em ações e assumirão
dívidas num total de 500 milhões de dólares. A Lenovo também
poderá usar por cinco anos o símbolo da Big Blue, como a IBM é
conhecida devido à cor de seu logotipo. Por tempo indeterminado, os chineses
terão direito de estampar as máquinas com a marca Think, hoje um
diferencial no mercado de notebooks. Mas, além
do dinheiro, há os simbolismos. O mais óbvio deles evidencia as
ambições do capitalismo chinês, disposto a qualquer esforço
para apropriar-se de marcas fortes e abandonar a imagem de fabricante de bugigangas
e produtos piratas. A Lenovo é presidida por Liu Chuan Zhi, um engenheiro
militar de 60 anos que sobreviveu à brutal Revolução Cultural,
no fim da década de 60. Nos anos 80, conseguiu a permissão do governo
para distribuir no país os PCs da IBM. Mais tarde, convenceu as autoridades
a criar sua própria fábrica de computadores pessoais a Legend,
que se tornou a Lenovo em 1988. O negócio permite à empresa chinesa
comprar, por um preço baixo, tecnologia mundialmente reconhecida. Além
disso, como poderá usar o logotipo da IBM por cinco anos, tem a chance
de ganhar a confiança dos consumidores americanos e europeus. Os chineses
também vão usar as fábricas, os centros de distribuição
e os profissionais de marketing e vendas da empresa americana.
As razões da IBM para vender a empresa talvez encerrem uma lição
ainda mais profunda. Montar e vender PCs há alguns anos deixou de ser uma
atividade altamente lucrativa. No caso específico da IBM, transformou-se
em um estorvo dentro de um negócio que concentra os lucros nos setores
de serviços e de software. A IBM sabe que a cereja do mercado não
está mais no computador, mas no que gira em torno dele. A área de
maior faturamento da gigante americana é a de prestação de
serviços, que, em 2003, respondeu por 48% das vendas da companhia. A comercialização
de PCs colaborou com apenas 12% do total arrecadado. A margem de lucro da divisão
que engloba os computadores pessoais da Big Blue, no entanto, é de apenas
0,7%. Em comparação, fazer softwares dá margem superior a
20%. A lucratividade na prestação de serviços é de
10%. Reuters
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Loja da Lenovo em Pequim: chineses compraram marca mundial para ganhar mercados
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O processo de pasteurização
dos PCs também fez as atrações desse mercado ruir. "Desde
o fim dos anos 90, essas máquinas vêm aos poucos perdendo o perfil
de alta tecnologia para se transformar em mercadorias", diz Rusty O'Bryan, gerente
da International Data Corporation (IDC) no Brasil, uma consultoria especializada
em tecnologia. Em 1986, a IBM lançou um computador no mercado americano
por 5.000 dólares. Em 2003, uma máquina
do mesmo padrão custava 2.000 dólares.
Só sobrevive nesse ramo quem consegue vender por preços menores,
mas isso já não depende tanto dos fabricantes, mas dos fornecedores
de componentes. É um daqueles ramos em que só a escala gigantesca
dá sobrevida ao negócio. Processos
semelhantes ocorrem com outros produtos típicos da ágil indústria
americana. Marcas que já foram líderes na venda e produção
de televisores, como Zenith e RCA, acabaram nas mãos de estrangeiros por
absoluta falta de interesse de seus fabricantes originais. Em 1956, uma televisão
em cores custava 500 dólares, o que equivalia a 25% do valor de um carro.
Exigia alta tecnologia. Hoje o preço médio dos produtos mais comuns
nas lojas equivale a 10% do que era há 48 anos. O apelo industrial deslocou-se
da linha de montagem idealizada por Henry Ford na década de 20 para a indústria
do conhecimento e da pesquisa. A IBM é um exemplo. A companhia sai do ramo
de PCs para concentrar-se nos serviços prestados a grandes corporações
e à produção de softwares.
A consultoria Gartner, especializada em tecnologia, prevê que haverá
um enxugamento no número de fabricantes de computadores pessoais. Três
dos dez maiores produtores devem desaparecer do mapa global até 2007. "Agora,
os setores que mais crescem estão baseados no conhecimento e na pesquisa",
diz o economista Eduardo Giannetti da Fonseca. "É por isso que as companhias
preferem investir em bens intangíveis, como os serviços." Por via
das dúvidas, a IBM mantém um pé na manufatura. O acordo com
a Lenovo prevê que a empresa deterá 18,9% das ações
da companhia chinesa. Com isso, consegue se posicionar, de forma estratégica,
no promissor mercado chinês.  |  |

PREÇOS E MARGENS DECLINANTES
O aumento da competição global e a evolução
tecnológica fizeram o preço dos produtos cair e derrubaram as margens
de lucro líquidas* AUTOMÓVEIS
A popularização do automóvel e a competição
entre as principais montadoras fizeram a margem de lucro líquida do setor
cair. Hoje, está em 5%. Nos anos 90, ela atingiu 15,3% ELETRÔNICOS Nos
anos 60, as fábricas de TVs americanas eram as maiores do mundo. Nos últimos
quarenta anos, a produção deixou de ser altamente rentável
e as marcas americanas foram vendidas. Hoje, menos de 10 000 TVs são feitas
em território americano. Um em cada dois aparelhos vendidos nos EUA vem
do México SIDERURGIA O
aumento da competitividade derrubou os preços nas últimas décadas.
Nos anos 80, a margem líquida da líder do setor nos EUA, a U.S.
Steel, era de 5,1%. Em 2003, a companhia teve resultado negativo de 5%, que só
não foi pior devido à demanda gigante da economia chinesa
COMPUTADORES Com o início
da popularização do produto, os fabricantes conseguiram margem líquida
de 8,5%. O porcentual caiu para 1,5% nos anos 90. Em 2004, ronda mísero
0,8% *Margem líquida é um indicador
usado na análise financeira de empresas. Indica em porcentagem quanto restou
para a empresa de cada real vendido após a dedução de todas
as despesas, inclusive o imposto de renda Fonte:
Bloomberg
Obs.: a margem
líquida foi calculada pela média do setor com empresas com valor
de mercado acima de 250 milhões de dólares | |
Com reportagem
de Chrystiane Silva |