Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Internacional
A lei dos espiões

Reestruturação dos serviços de
inteligência dos EUA abre guerra
interna antes de sair do papel


Kathy Willens/AP
Colin Powell mostra na ONU prova das armas de Saddam: erro da CIA
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O serviço de inteligência dos Estados Unidos fracassou em dois momentos cruciais da história recente: o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 e a invasão do Iraque. No primeiro caso, não previu os atentados. No segundo, alardeou a existência de um arsenal secreto que, viu-se depois da invasão, Saddam Hussein não tinha. Como evitar que tais falhas voltem a ocorrer? Na semana passada, o Congresso americano aprovou um pacote de leis que abre caminho para a maior reforma dos serviços de inteligência dos EUA desde a criação da CIA, o serviço de espionagem, há meio século. O presidente George W. Bush prometeu sancioná-la sem emendas. A maior novidade é a nomeação de um diretor de inteligência, subordinado diretamente ao presidente e encarregado de coordenar as agências de informação – que antes trabalhavam com relativa autonomia. Chefiará um novo órgão, chamado Diretório Nacional de Inteligência (NID, na sigla em inglês). Quem perde poder é o diretor da CIA, que acumulava essa função e agora só cuidará do serviço de espionagem.

A rede de informações do governo americano é composta de quinze agências e mais de 200.000 funcionários, entre agentes secretos, analistas, burocratas e informantes. Uma investigação dos atentados de 11 de setembro concluiu que, por rivalidade entre as agências ou devido à cultura do segredo nascida na Guerra Fria, uma não conversava com a outra. Relatórios sobre a ameaça representada pelo terrorista Osama bin Laden acabaram engavetados. A reforma proposta na lei vai resolver esse problema? Dentro e fora do governo, muita gente acha que a mudança será inócua. Isso porque as principais modificações ocorreram no organograma da burocracia em Washington. "Provavelmente teria sido mais útil investir maciçamente na renovação do quadro de agentes e priorizar a coleta de informações no mundo islâmico, no qual se originam as ações terroristas", diz o cientista político Richard Schultz, especialista em segurança nacional. Em sua opinião, centralizar o poder nas mãos de um diretor não melhora a eficiência das agências, e sim estimula a rivalidade entre elas.

As várias agências estão em pé de guerra contra a nova lei. Principalmente porque ela dá ao NID o controle de suas verbas. Donald Rumsfeld, o secretário de Defesa, é um dos críticos da reforma. Atualmente, o Pentágono controla as agências de vigilância eletrônica, que consomem 80% do orçamento de 40 bilhões de dólares dos serviços de informação. Para evitar um confronto mais sério, um acordo parlamentar retirou do novo diretor do NID o poder de manejar as verbas. Os atentados de 11 de setembro deixaram evidente que o serviço de inteligência americano precisa de boa reforma. A dúvida é se essa é a reforma certa.

 
 
 
 
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