|
|
Internacional O
ministro, a amante, o marido dela... Num escândalo
à inglesa, ela acabou tudo, mas ele quer provar que é pai dos
filhos dela  Silvia
Rogar, de Londres
AFP
 | | Blunkett
passeia com Blair: popular mesmo com processo contra a ex-amante |
Reza
o roteiro dos grandes escândalos sexuais britânicos que eles transcorram
assim: 1) homem famoso e/ou poderoso engravida amante menos favorecida; 2) ele
faz de tudo para escapar do teste de paternidade; 3) a moça bate na porta
de um tablóide, conta os detalhes do romance, ganha uma bolada e ainda
fica famosa; 4) a reputação do homem famoso vai para a sarjeta.
A prática, conhecida como kiss and tell ("beija e conta"), inverte-se
completamente no escândalo que freqüenta há quatro meses as
manchetes dos jornais ingleses, envolvendo o ministro do Interior, David Blunkett,
57 anos, e seu romance com a americana Kimberly Quinn, 43. Ela, casada, diretora
da revista conservadora The Spectator, grávida de sete meses, deu
a relação por encerrada. Ele, divorciado, integrante dos mais populares
do governo trabalhista do primeiro-ministro Tony Blair, uma raridade com verdadeiras
raízes na classe operária, além de cego de nascença
que exige ser tratado sem nenhuma condescendência, não se conformou.
Entrou na Justiça, para garantir o contato com o filho dela, William, 2
anos, que diz ser dele, bem como o bebê ainda em gestação.
Em outros tempos, Blunkett já teria perdido o emprego. Como esse não
é um escândalo igual aos outros, o ministro tem apoio explícito
de todo mundo. "No fim dos anos 60, os jornais começaram a publicar detalhes
da vida íntima das pessoas conhecidas e os britânicos adoraram. Mas
foram se acostumando. O lado bom é que agora estão ficando mais
tolerantes", comenta Robert Kaye, professor da London School of Economics e especialista
em ética política
Nessa história
de exceções, o início foi regulamentar. O ministro encantou-se
com a voz de Kimberly uma morena bonita, bem relacionada, de família
rica ao ouvi-la em 2001 no rádio, num programa sobre literatura.
Cheio de segundas intenções, concedeu justamente à Spectator,
revista de pequena tiragem, mas deliciosamente bem-feita e alinhada com a oposição,
sua primeira entrevista como ministro do Interior. Apresentado a Kimberly num
jantar com a cúpula da revista, os dois iniciaram seu romance isso,
três meses depois de ela ter se casado com o irlandês Stephen Quinn,
60 anos, milionário executivo da edição britânica da
revista Vogue. Foram ostensivas as aparições de Kimberly
ao lado do ministro (que é separado há quinze anos e tem três
filhos adultos): ela freqüentava sua casa, passou férias com ele e
o filho na Grécia e, no ano passado, sentou-se a seu lado no banquete oferecido
pela rainha Elizabeth ao presidente americano George W. Bush.
Em agosto, um tablóide publicou a notícia de que David Blunkett
estava tendo um caso com uma mulher casada. No dia seguinte, outro deu nome e
sobrenome à amante (que até então assinava Fortier e, a partir
daí, adotou o Quinn do marido). A essa altura, o romance estava praticamente
acabado ela optou por ficar com o marido, totalmente compreensivo. Blunkett
partiu para a briga, recorrendo à Justiça para provar que é
o pai dos filhos de Kimberly. "Nunca quis que minha vida privada e a paternidade
de William caíssem em domínio público e nunca teria ido aos
tribunais se houvesse outra forma de ter acesso a ele", justificou. O ministro
já obteve uma primeira vitória: a Justiça não aceitou
o pedido de Kimberly, que está hospitalizada com stress, de suspensão
do processo até abril. Quinn, o marido traído, dá a entender
com serenidade olímpica que o teste de DNA não lhe será favorável.
"Não sou obcecado por detalhes biológicos. Acho que paternidade
é estar presente", declarou ao Sunday Times.
Impermeável à denúncia de que teve um caso e dois filhos
com uma mulher casada, Blunkett pode ter problemas, isso sim, por motivo mais
burocrático: é acusado de usar as prerrogativas do cargo para agilizar
o visto de residência da babá filipina Leoncia Casalme, empregada
de Kimberly babá essa já demitida e, para manter pelo menos
algo da tradição, já cooptada pelos tablóides. Pelo
equivalente a 160.000 reais, ela apresentou "provas"
do tal favorecimento e falou horrores da ex-patroa. Corre uma investigação
independente para apurar os fatos, que deve ser divulgada na próxima semana.
Paralelamente, soube-se na semana passada da existência de outro romance,
anterior a Kimberly, do ministro sedutor com uma secretária vinte anos
mais jovem e também comprometida. Blunkett, cuja infância é
inevitavelmente comparada a um romance de Dickens (o pai morreu escaldado ao cair
numa caldeira na fábrica em que trabalhava), lê seus discursos em
braile e anda com naturalidade na companhia de "Sadie", sua cadela-guia. Defende
uma linha dura, para os padrões ingleses, de combate ao crime e desafia
o pensamento politicamente correto: já declarou, por exemplo, que os refugiados
do Paquistão e de Kosovo deveriam voltar para casa e ajudar a reconstruir
os seus países. Até agora, tirando as diatribes da Spectator
(na última edição, quatro artigos sustentam que, dispensado
pela amada, o próprio Blunkett teria procurado os jornais para contar detalhes
da relação), a popularidade do ministro só aumentou. Numa
pesquisa publicada pelo The Times, três quintos dos entrevistados
dizem que o escândalo não afeta em nada sua integridade um
fenômeno no caso do ministro que quer ser pai dos filhos da amante casada.
|