Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Saúde
Tem de agüentar

Cientistas americanos começam
a averiguar as causas da ressaca.
Mas a cura ainda está muito longe


Sandra Brasil

Pedro Rubens

EXCLUSIVO ON-LINE
Trechos do livro Guia Definitivo da Ressaca

A reclamação é procedente: a ciência é capaz de mandar naves ao espaço exterior, perscrutar as mais infinitesimais partículas da matéria, decifrar o genoma humano e, quando a questão é tratar de um dos mais banais males da humanidade – a ressaca –, nada, nadinha. Ou, quando muito, uma solução ainda em potencial, e literalmente espinhosa, o extrato do fruto de um tipo de cáctus, a mais recente novidade para combater sintomas como boca seca e enjôo. Num artigo sobre o tema, o jornal The New York Times invoca até a ética médica como um dos motivos da falta de interesse em tratar a ressaca, diante da possibilidade de que uma pílula anticarraspana incentive as pessoas a beber mais. Se não existe remédio, pesquisas recentes começam a examinar melhor os mecanismos da ressaca. Nenhuma grande surpresa: um dos principais motivos do efeito deletério dos excessos do copo é a presença nas bebidas alcóolicas de substâncias tóxicas liberadas na fermentação. "Essas substâncias são venenos, e o corpo reage de acordo", explica o médico Jeffrey Wiese, que participou de uma pesquisa promovida pela Universidade da Califórnia em São Francisco. Ou seja: o sistema imunológico, acionado, responde ativando os sintomas conhecidos de quem já tomou uma dose (ou várias) a mais. Há estudos voltados justamente para conter a reação imunológica e, dessa forma, atenuar os efeitos do excesso de bebida no corpo.

Ressaca, na verdade, não é uma, são várias. "O excesso de álcool ataca o sistema nervoso central e dá sono e, depois, irritação; corrompe mecanismos químicos cerebrais, provocando dor de cabeça; irrita as mucosas do aparelho digestivo, causando náuseas, vômito e diarréia; e inibe a ação do hormônio antidiurético, levando a sede e boca seca", lista o médico Ronaldo Laranjeira, professor de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo e especialista em dependência química. "É difícil chegar a um remédio só que combata tudo isso." No Brasil, o Engov, veteraníssimo comprimido de mais de trinta anos que contém antiemético (combate enjôo), analgésico e antiácido, ainda é o último recurso de multidões de vítimas da síndrome do dia seguinte. Outras receitas são comer alimentos gordurosos antes ("para que o organismo absorva o álcool mais devagar") e ricos em amidos depois ("para enxugar o álcool") – ambas contidas no recém-lançado Guia Definitivo da Ressaca, obra assinada pelo jornalista britânico Richard Drunkard (bêbado, em inglês), que vem a ser pseudônimo da brasileiríssima Renata Bottini, moradora de Campinas. Bebedores eméritos têm, cada um, sua fórmula. O escritor Mario Prata, 58 anos, que trocou o uísque pelo vinho ("Não dizem que dois copos fazem bem à saúde? Imagine uma garrafa!"), enfrenta ressacas com litros e mais litros de água e refrigerante. Já o mais famoso consumidor de cerveja do país, Zeca Pagodinho, 45 anos, apela para a fórmula condenada pela medicina como quase suicida: "O melhor mesmo é tomar outra". *

 
 
 
 
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