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Sociedade A
rebelião das mulheres Moradoras
do interior da Índia lincham estupradores e viram heroínas
da causa feminista  José
Eduardo Barella
AFP
 | | Protesto
em Nova Délhi: pelo fim da impunidade nos casos de abuso sexual |
As
mulheres indianas só recentemente estão acordando de sua milenar
noite de submissão social e familiar. Elas são as grandes beneficiadas
da integração da Índia à vanguarda mundial de alta
tecnologia. Os empregos bem pagos e o contato com o mundo exterior estão
fazendo pela liberação da mulher indiana muito mais do que a política.
Indira Gandhi foi eleita quatro vezes primeira-ministra, mas isso não se
refletiu em ascensão social para a maioria das mulheres. Agora
a onda libertária está se manifestando em todos os níveis
da sociedade indiana e de forma às vezes violenta. Irritadas com
o descaso da polícia e a lentidão da Justiça em punir os
abusos sexuais do chefão de uma gangue de um bairro pobre da cidade de
Nagpur, uma centena de mulheres invadiu a sessão do tribunal em que o acusado
prestava depoimento e o linchou na frente do juiz. O estuprador, com um prontuário
extenso que incluía homicídio, tinha sido preso várias vezes
mas sempre conseguia sair livre pagando uma fiança e voltava a aterrorizar
as mulheres do bairro. A polícia chegou a prender e a incriminar cinco
mulheres pelo linchamento, mas elas acabaram soltas depois que outras 400 manifestantes
cercaram a delegacia. O episódio, ocorrido em agosto, foi o marco de uma
rebelião feminina que se espalha pelo país. Nos meses seguintes,
as mulheres de Nagpur voltaram a fazer justiça com as próprias mãos
em mais duas ocasiões. Numa delas, atacaram com pedras e facas de cozinha
dois homens que tentaram extorquir e violentar uma moça. Ambos foram mortos.
No mês passado, outros três conhecidos estupradores conseguiram escapar
do linchamento, mas tiveram a casa incendiada pela turba feminina.
A rebelião em Nagpur pegou de surpresa até os
grupos feministas, que há décadas lutam sem muito sucesso pela melhoria
de sua condição na Índia. Eles comemoraram a carnificina
como um feito histórico. Purnima Advani, presidente da Comissão
Nacional das Mulheres, um órgão do governo, inocentou as agressoras
e disse que o linchamento era "compreensível" dada a incompetência
da polícia em prevenir os estupros. Passada a euforia, com a mobilização
de Nagpur, as indianas foram confrontadas com a realidade. As estatísticas
indicam um aumento alarmante dos casos de abuso sexual contra mulheres, o tipo
de violência que mais cresce no país. O fenômeno é recente.
Até pouco tempo atrás, os índices de abusos na Índia
eram baixos para os padrões internacionais. Estatísticas mostram
que uma mulher é estuprada por hora no país nos Estados Unidos,
com um quarto da população indiana, esse índice é
de dez por hora. A diferença está na marginalização
social da vítima. Na Índia, a tradição cultural trata
a mulher violentada não como vítima de um crime, mas como a própria
criminosa. Sofrer um estupro equivale a se prostituir. Essa
é a principal razão para que um número irrisório de
casos seja denunciado à Justiça. E as vítimas que decidem
ir em frente acabam se arrependendo, pois menos de 5% dos processos de estupro
terminam em condenação. O preconceito machista, manifestado pela
má vontade de juízes e promotores em julgar com rigor os abusos
sexuais contra mulheres, é apenas parte do problema. Há também
o fator corporativista, arraigado na Índia: boa parte das ocorrências
de estupro acontece dentro de repartições estatais, como delegacias
e hospitais, envolvendo funcionários públicos. Recentemente, quatro
guarda-costas do presidente Abdul Kalam foram acusados de violentar uma adolescente.
Embalados com a repercussão da rebelião em Nagpur, grupos feministas
fizeram um protesto diante do Parlamento, em Nova Délhi, no início
do mês, para exigir justiça. A diminuição
dos abusos sexuais, principalmente na zona rural, onde vivem 75% do 1 bilhão
de habitantes do país, é um grande desafio. Os problemas começam
no momento do parto. A maioria das famílias prefere filhos homens. É
costume dos casais abastados não esperar a gravidez avançar quando
está para nascer uma menina. Ao exame de ultra-som segue-se, em muitos
casos, o aborto. Nas zonas rurais, o infanticídio é quase tão
corriqueiro quanto na China. O número de mulheres em relação
ao de homens diminui ano a ano. O desequilíbrio entre os sexos já
é 6% maior do que duas décadas atrás, criando um problema
social que pode se agravar. As perspectivas das meninas que sobrevivem ao parto
não são animadoras. Para que se casem, o pai deve dar um dote generoso
à família do noivo. Mesmo assim, elas podem ser tratadas como escravas
pelos parentes do marido. Quando o dote é considerado baixo, não
é incomum elas serem castigadas com banho de ácido e outras atrocidades.
A abertura da economia para o exterior e as mobilizações recentes
representam promessas de avanço que as mulheres indianas nunca tiveram
antes. |