Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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O Paraguai delas

Com gastos de 10 000 dólares por
dia, as cabo-verdianas esquentam
o comércio no Ceará


Daniela Pinheiro, de Fortaleza


Barbara Wagner/Ag. Lumiar
As rabidantes: quinquilharias para vender no camelódromo

Acontece todas as sextas-feiras: cerca de 150 mulheres, carregadas com pelo menos quinze malas cada uma, lotam a área do embarque produzindo uma cena de espantar. Rodeadas por bagagens de todos os tamanhos, elas provocam congestionamentos nunca vistos no aeroporto internacional de Fortaleza. Tal confusão é reflexo de um fenômeno recente protagonizado por sacoleiras vindas de Cabo Verde. Com a abertura de uma linha aérea direta da Ilha Sal para a capital cearense, elas passaram a cruzar o Atlântico para comprar de tudo: calcinhas, biquínis, bijuterias, sandálias, vestidos e até eletrodomésticos de qualidade duvidosa para revender no maior camelódromo do arquipélago africano, batizado de Sucupira em homenagem à novela O Bem-Amado, já exibida por lá. Estima-se que, apenas no último ano, as cabo-verdianas tenham comprado 400 toneladas de mercadorias produzidas no Brasil e gastado cerca de 5 milhões de dólares. É um valor proporcionalmente vultoso: o total oficial das exportações brasileiras para Cabo Verde soma 25% desse valor. Só de excesso de bagagem, cada uma costuma desembolsar 1.000 dólares. O poder de compra das sacoleiras impressiona. Em média, cada uma vem para o Brasil com 10.000 dólares para gastar em uma semana.

Formado por ilhas ao largo da costa africana, o arquipélago de Cabo Verde importa 90% do que consome. Há três anos, desde que a ligação aérea com o Brasil foi implantada, as sacoleiras descobriram o Ceará. Ficou mais perto e mais barato comprar aqui do que em qualquer outro país do mundo. Até então, elas se abasteciam em capitais da Europa. Agora, em três horas e meia e por 400 dólares, elas desembarcam em solo brasileiro. Mas, sem dúvida, o grande atrativo é a cotação cambial. Com a moeda do país, o escudo, atrelada ao euro, elas chegam aqui com o câmbio a favor. Essas mulheres, donas de barracas de feira, costumam gastar até 5.000 dólares em um dia de compras. "O que compro aqui vendo pelo triplo do preço lá. É uma mina de ouro", afirma Mira Gomes, de 45 anos, em sua 19ª visita ao Brasil.


Barbara Wagner/Ag. Lumiar
Benilda Ortet no embarque: empréstimo de 8 000 dólares

O esquema de viagem é pesado. Elas enfrentam uma maratona de até doze horas de compras visitando pelo menos dez lojas por dia. A cada semana, desembarcam pelo menos 150 sacoleiras. Estão sempre em grupo, conversando no ininteligível dialeto crioulo. Para financiar as despesas no Brasil, a maioria recorre a uma linha de microcrédito oferecida pelo governo cabo-verdiano. Benilda Ortet, de 28 anos, contraiu um empréstimo de 8.000 dólares para vir ao Brasil. "Vou pagar em um ano e meio. Compensa", diz. Na volta, a quantidade de produtos é tão grande que, em geral, há um excedente de 6.000 quilos de bagagem em cada vôo, segundo os dados da companhia Transportes Aéreos de Cabo Verde, que faz a ponte aérea entre os dois países.

A maioria das compras é feita em pequenas confecções de fundo de quintal da periferia de Fortaleza. As sacoleiras são conhecidas por rabidantes – palavra que o dicionário Houaiss registra como um regionalismo de Cabo Verde que significa "revendedor". As rabidantes costumam comprar de costureiras e artesãos que trabalham sem registro no Ceará. Sai mais barato. Em uma fábrica de calcinhas improvisada nos fundos de uma casa, a média de encomendas em uma semana é de 10.000 unidades. Não se tem nota fiscal, mas o pagamento é feito em dólar. Na hora. Para driblarem a fiscalização da Receita Federal, as lojinhas conseguem notas com confecções maiores. Nenhuma sacoleira viaja sem comprovante por medo de ter toda a mercadoria apreendida na alfândega do aeroporto. A confecção Tana's, especializada em roupas de linho e que tem seus registros em dia, é uma das que abastecem com notas fiscais as fabriquetas de fundo de quintal. Ali, uma única rabidante chegou a gastar 12.000 dólares em uma hora. "Aqui a gente dá nota para todas as clientes e ainda providencia para as amigas que são donas das confecções menores e do mercado informal", afirma a proprietária Zitânia Vieira. Por semana, a loja costuma faturar 40.000 dólares só com a turma de Cabo Verde. "Não temos de pagar ICMS porque há um decreto que nos isenta se os produtos forem exportados. Então podemos dar notas à vontade", completa.

O fenômeno das rabidantes também produziu a profissão de "corretor de moda", o sujeito que leva as cabo-verdianas para a maratona de compras e embolsa 10% de tudo o que elas gastam. "Faturo 12.000 reais por mês", diz um dos mais conhecidos deles, o cearense Claudio Freitas, ex-taxista. Com quase 25% da população cabo-verdiana desempregada, o comércio informal se transformou no principal motor da economia local. Diz a economista italiana Marzia Grassi, que escreveu uma tese de mestrado sobre as rabidantes: "Essa é a outra face da globalização. Não é a das multinacionais e tem pouco peso na economia mundial, mas sem as sacoleiras Cabo Verde pararia. Existe um comércio informal forte, empregos são gerados e há uma circulação tremenda de dinheiro vivo".

 

A ILHA SAL


Divulgação
Cabo Verde: proximidade com o Brasil


A Ilha Sal é a porta de entrada de Cabo Verde. Ali, concentram-se o único aeroporto internacional da região e também um importante complexo portuário. Apesar de a maior parte da população viver na capital, Praia, a Ilha Sal ficou conhecida por ser ponto de escala de centenas de vôos que partem da América Latina rumo à Europa e vice-versa. O aeroporto se tornou o motor da economia local. Cerca de 50% dos moradores trabalham nos serviços do aeroporto, a maioria deles jovens sem curso superior. Em Cabo Verde, a população de 450 000 habitantes é extremamente nova. A idade média é de 23 anos. Outra peculiaridade é o imenso contingente migratório. Há mais cabo-verdianos morando em outro país do que na própria terra natal. Calcula-se que existam cerca de 600 000 "expatriados", a maioria morando nos Estados Unidos. Cabo Verde é o único lugar do mundo onde o principal dirigente do país é formado no Brasil. O primeiro-ministro José Maria Neves é graduado pela Fundação Getúlio Vargas.

 

 


 
 
 
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