|
|
Cidades
O Paraguai delas
Com gastos de 10 000 dólares por
dia, as cabo-verdianas esquentam
o comércio no Ceará

Daniela Pinheiro, de Fortaleza
Barbara Wagner/Ag. Lumiar
 |
| As rabidantes: quinquilharias para vender
no camelódromo |
Acontece todas as sextas-feiras: cerca de 150
mulheres, carregadas com pelo menos quinze malas cada uma, lotam
a área do embarque produzindo uma cena de espantar. Rodeadas
por bagagens de todos os tamanhos, elas provocam congestionamentos
nunca vistos no aeroporto internacional de Fortaleza. Tal confusão
é reflexo de um fenômeno recente protagonizado por
sacoleiras vindas de Cabo Verde. Com a abertura de uma linha aérea
direta da Ilha Sal para a capital cearense, elas passaram a cruzar
o Atlântico para comprar de tudo: calcinhas, biquínis,
bijuterias, sandálias, vestidos e até eletrodomésticos
de qualidade duvidosa para revender no maior camelódromo
do arquipélago africano, batizado de Sucupira em homenagem
à novela O Bem-Amado, já exibida por lá.
Estima-se que, apenas no último ano, as cabo-verdianas tenham
comprado 400 toneladas de mercadorias produzidas no Brasil e gastado
cerca de 5 milhões de dólares. É um valor proporcionalmente
vultoso: o total oficial das exportações brasileiras
para Cabo Verde soma 25% desse valor. Só de excesso de bagagem,
cada uma costuma desembolsar 1.000 dólares.
O poder de compra das sacoleiras impressiona. Em média, cada
uma vem para o Brasil com 10.000 dólares
para gastar em uma semana.
Formado por ilhas ao largo da costa africana,
o arquipélago de Cabo Verde importa 90% do que consome. Há
três anos, desde que a ligação aérea
com o Brasil foi implantada, as sacoleiras descobriram o Ceará.
Ficou mais perto e mais barato comprar aqui do que em qualquer outro
país do mundo. Até então, elas se abasteciam
em capitais da Europa. Agora, em três horas e meia e por 400
dólares, elas desembarcam em solo brasileiro. Mas, sem dúvida,
o grande atrativo é a cotação cambial. Com
a moeda do país, o escudo, atrelada ao euro, elas chegam
aqui com o câmbio a favor. Essas mulheres, donas de barracas
de feira, costumam gastar até 5.000
dólares em um dia de compras. "O que compro aqui vendo pelo
triplo do preço lá. É uma mina de ouro", afirma
Mira Gomes, de 45 anos, em sua 19ª visita ao Brasil.
Barbara Wagner/Ag. Lumiar
 |
| Benilda Ortet no embarque: empréstimo de 8
000 dólares |
O esquema de viagem é pesado. Elas enfrentam
uma maratona de até doze horas de compras visitando pelo
menos dez lojas por dia. A cada semana, desembarcam pelo menos 150
sacoleiras. Estão sempre em grupo, conversando no ininteligível
dialeto crioulo. Para financiar as despesas no Brasil, a maioria
recorre a uma linha de microcrédito oferecida pelo governo
cabo-verdiano. Benilda Ortet, de 28 anos, contraiu um empréstimo
de 8.000 dólares para vir ao Brasil.
"Vou pagar em um ano e meio. Compensa", diz. Na volta, a quantidade
de produtos é tão grande que, em geral, há
um excedente de 6.000 quilos de bagagem
em cada vôo, segundo os dados da companhia Transportes Aéreos
de Cabo Verde, que faz a ponte aérea entre os dois países.
A maioria das compras é feita em pequenas
confecções de fundo de quintal da periferia de Fortaleza.
As sacoleiras são conhecidas por rabidantes palavra
que o dicionário Houaiss registra como um regionalismo
de Cabo Verde que significa "revendedor". As rabidantes costumam
comprar de costureiras e artesãos que trabalham sem registro
no Ceará. Sai mais barato. Em uma fábrica de calcinhas
improvisada nos fundos de uma casa, a média de encomendas
em uma semana é de 10.000 unidades.
Não se tem nota fiscal, mas o pagamento é feito em
dólar. Na hora. Para driblarem a fiscalização
da Receita Federal, as lojinhas conseguem notas com confecções
maiores. Nenhuma sacoleira viaja sem comprovante por medo de ter
toda a mercadoria apreendida na alfândega do aeroporto. A
confecção Tana's, especializada em roupas de linho
e que tem seus registros em dia, é uma das que abastecem
com notas fiscais as fabriquetas de fundo de quintal. Ali, uma única
rabidante chegou a gastar 12.000 dólares
em uma hora. "Aqui a gente dá nota para todas as clientes
e ainda providencia para as amigas que são donas das confecções
menores e do mercado informal", afirma a proprietária Zitânia
Vieira. Por semana, a loja costuma faturar 40.000
dólares só com a turma de Cabo Verde. "Não
temos de pagar ICMS porque há um decreto que nos isenta se
os produtos forem exportados. Então podemos dar notas à
vontade", completa.
O fenômeno das rabidantes também
produziu a profissão de "corretor de moda", o sujeito que
leva as cabo-verdianas para a maratona de compras e embolsa 10%
de tudo o que elas gastam. "Faturo 12.000
reais por mês", diz um dos mais conhecidos deles, o cearense
Claudio Freitas, ex-taxista. Com quase 25% da população
cabo-verdiana desempregada, o comércio informal se transformou
no principal motor da economia local. Diz a economista italiana
Marzia Grassi, que escreveu uma tese de mestrado sobre as rabidantes:
"Essa é a outra face da globalização. Não
é a das multinacionais e tem pouco peso na economia mundial,
mas sem as sacoleiras Cabo Verde pararia. Existe um comércio
informal forte, empregos são gerados e há uma circulação
tremenda de dinheiro vivo".
|
A ILHA SAL
Divulgação
 |
| Cabo Verde: proximidade com o
Brasil |
A Ilha Sal é a porta de entrada de Cabo Verde.
Ali, concentram-se o único aeroporto internacional
da região e também um importante complexo
portuário. Apesar de a maior parte da população
viver na capital, Praia, a Ilha Sal ficou conhecida
por ser ponto de escala de centenas de vôos que
partem da América Latina rumo à Europa
e vice-versa. O aeroporto se tornou o motor da economia
local. Cerca de 50% dos moradores trabalham nos serviços
do aeroporto, a maioria deles jovens sem curso superior.
Em Cabo Verde, a população de 450 000
habitantes é extremamente nova. A idade média
é de 23 anos. Outra peculiaridade é o
imenso contingente migratório. Há mais
cabo-verdianos morando em outro país do que na
própria terra natal. Calcula-se que existam cerca
de 600 000 "expatriados", a maioria morando nos Estados
Unidos. Cabo Verde é o único lugar do
mundo onde o principal dirigente do país é
formado no Brasil. O primeiro-ministro José Maria
Neves é graduado pela Fundação
Getúlio Vargas.
|
|
|