Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Perfil
A ascensão de um
craque globalizado

Ronaldinho Gaúcho é um caso clássico de
sucesso de uma era em que celebridades
de chuteiras fazem fortunas para si, para
seus clubes e patrocinadores


João Gabriel de Lima


AP
EXCLUSIVO ON-LINE
Galeria de fotos


Ronaldinho Gaúcho, craque do Barcelona e da seleção brasileira, disputa com o ucraniano Andrey Shevchenko e o francês Thierry Henry o Oscar da bola: o troféu de o melhor jogador do ano atribuído pela Fifa. Vivendo grande expectativa, ele aposta em uma superstição. "Os outros jogadores brasileiros que ganharam o prêmio, Ronaldo, Rivaldo e Romário, também passaram pelo Barcelona. Acho que essa camisa dá sorte", diz o craque. Se for confirmado como vencedor – o resultado sai no próximo dia 20 –, Ronaldinho terá um motivo a mais para celebrar o ano de 2004, no qual deu um salto em sua carreira. Ele deixou de ser um craque comum para se tornar aquilo que os especialistas em marketing esportivo chamam de "estrela midiática" – jogador cuja imagem estelar magnificada pelos meios de comunicação (daí a expressão midiática) se torna uma máquina de gerar negócios no mundo milionário do futebol. O ícone da categoria é o inglês David Beckham, que muda a cor do cabelo constantemente e é casado com outro símbolo sexual, a ex-spice girl Victoria. Essa conjunção de fatores permite a Beckham triplicar seu salário com contratos publicitários. O outro Ronaldo, o Fenômeno, também faz parte da constelação, e não apenas por seus casamentos (e o divórcio) momentosos.

Aos 24 anos, Ronaldinho Gaúcho segue o mesmo caminho. O Barcelona está exultante com o brasileiro. O faturamento do clube catalão cresceu 40% desde que ele chegou, o cachê que o time recebe por amistosos triplicou (veja quadro) e os ganhos diretos explodiram – sete de cada dez camisetas que são vendidas a torcedores levam o 10 de Ronaldinho às costas. "Nós o contratamos para que se tornasse o ícone de uma nova fase do clube, e ele tem correspondido à nossa expectativa", diz o espanhol Sandro Rosell, vice-presidente do Barcelona. Nesta segunda-feira, 13, Ronaldinho participa do lançamento de um modelo de chuteira da Nike, a Tiempo, da qual será o garoto-propaganda mundial. A fábrica americana de material esportivo é uma das quatro empresas com as quais Ronaldinho Gaúcho mantém contrato de publicidade atualmente. Tudo somado, estima-se que ele dobre o seu salário, em torno de 23 milhões de reais por ano.

Lemyr Martins
O IRMÃO-MENTOR
Aos 12 anos de idade, Ronaldinho Gaúcho fez sua primeira viagem à Europa com o irmão Assis (à dir.), que jogava na Suíça. Assis é seu conselheiro até hoje

Sem ser pop como Beckham nem casadoiro como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho investe em outra imagem: a do moço de família. "Ele aparece o tempo todo ao lado da mãe e dos irmãos, propagando assim os valores familiares que encantam nossos consumidores", avalia Paula Costa, gerente de marketing do sabão em pó Omo. O atleta está em cartaz numa campanha do produto, na qual atua ao lado da mãe. O Ronaldinho da propaganda corresponde em parte à realidade. Sua carreira é administrada pela família. Os irmãos mais velhos – Assis, de 33 anos, ex-jogador, e Deisi, de 29 – são sócios do craque na empresa Foot Brothers. Ele vive numa confortável casa em Barcelona ao lado de Deisi, do amigo de infância Tiago Oliveira, seu secretário particular (e o principal adversário no passatempo preferido do jogador, o videogame), e do primo Valdimar Garcia, que é também o personal trainer do atleta.

A fama de namorador, que já o acompanhou, anda meio esquecida. Ronaldinho Gaúcho foi manchete de tablóide inglês quando a beldade britânica Lisa Collins, que ele conheceu numa boate parisiense, deu uma entrevista dizendo que o fôlego do craque brasileiro não se restringia às quatro linhas do gramado. "Tenho essa fama por causa da minha cara de sapeca, mas na verdade sou caseiro e tranqüilo", diz o craque. Segundo os amigos, ele é modesto. Diz a verdade, no entanto, quando fala que não namora. Ronaldinho prefere "ficar". E fica que é uma beleza – já ficou com inglesas, italianas, francesas e espanholas, embora ainda prefira as brasileiras. Quando fica, raramente leva as companheiras de noitada para casa, para não provocar comentários na família. "Ele já me apresentou algumas namoradas, mas nenhuma para casar. Acho bom que seja assim, para que possa se concentrar inteiramente na carreira", diz Miguelina, a mãe do craque, que mora em Porto Alegre, mas o visita constantemente na Catalunha.


AP
O JOGADOR-FAMÍLIA
Pesquisas de marketing atestam que Ronaldinho tem boa imagem, entre outras coisas, por valorizar a família. Ele comparece freqüentemente a eventos em companhia da mãe, Miguelina (à esq.)


Mais do que uma parábola da ascensão social pelo talento, como 99% das trajetórias dos craques brasileiros, a carreira de Ronaldinho é uma história de decisões acertadas nas engrenagens do futebol globalizado. Na guerra por um lugar ao sol, ele teve uma ajuda inestimável: a do irmão Assis, que foi jogador profissional nos anos 90. Foi pelas mãos dele que Ronaldinho fez sua primeira viagem à Europa, quando tinha 12 anos de idade. Lá, ele teve contato com os métodos de treinamento do clube suíço Sion, em que Assis atuava. Aos 16 anos, ainda reserva no Grêmio mas já com o prestígio de campeão mundial na categoria sub-17, Ronaldinho assinou um contrato de exclusividade com a Nike. Receberia apenas material esportivo – mas Assis achava que era um contato importante, e Ronaldinho decidiu topar. Com 21 anos, transferiu-se para o Paris Saint-Germain, depois de uma rumorosa briga jurídica com seu clube de origem, o Grêmio. A idéia era ter um período de adaptação numa equipe menor da Europa. Campeão do mundo em 2002, achou que era hora de jogar num dos "Big Five" – como os especialistas se referem aos cinco clubes cuja imagem é forte no mundo inteiro (Juventus, Milan, Barcelona, Real Madrid e Manchester United). Seus jogadores, por conseqüência, ganham visibilidade mundial e contratos milionários. O vínculo precoce com a empresa de material esportivo facilitou a aproximação com o Barcelona. Sandro Rosell, vice-presidente do clube, havia trabalhado durante anos como executivo da Nike, e nesse período se tornou amigo pessoal do jogador. Em julho de 2003, 30.000 pessoas foram ao lendário estádio Camp Nou para a apresentação de Ronaldinho, o dobro dos torcedores que, vinte anos antes, haviam recepcionado o maior jogador que já vestiu a camisa azul e grená: o argentino Diego Armando Maradona.

Os Big Five vivem uma fase de luta encarniçada para obter novos torcedores na Ásia, eldorado de grandes consumidores de material esportivo e produtos licenciados. Para angariar adeptos no continente, o Barcelona resolveu fazer sua pré-temporada de 2004 por lá – e se surpreendeu com a popularidade de Ronaldinho no Oriente. "É incrível como, desde a Copa, eu recebo cartas de chineses e japoneses. E eles são fãs organizados, que mandam o envelope preenchido para a resposta e o dinheiro do selo", conta o jogador. Atualmente, segundo a avaliação de Sandro Rosell, Ronaldinho Gaúcho é o jogador mais popular em território asiático depois do inglês Beckham – e é visto pelo mundo empresarial como garoto-propaganda estratégico no continente. O sorriso largo e o fantástico carisma tornam Ronaldinho imune às manifestações de racismo que vêm tomando de assalto os gramados espanhóis e atingem em cheio seu companheiro de time, o camaronês Samuel Eto'o. "É algo tão despropositado que nós, jogadores, não sabemos como reagir. Precisamos encontrar uma maneira", diz o craque.

Obviamente, carisma e carreira planejada não adiantariam nada se ele não fosse um jogador excepcional. O argentino Maradona o nomeou seu "sucessor" e disse que nunca havia visto uma combinação tão perfeita de técnica e velocidade. No estilo, Ronaldinho Gaúcho é herdeiro de outra lenda dos gramados, o brasileiro Didi, bicampeão mundial, em 1958 e 1962. O craque do Botafogo era o mestre dos passes precisos e das cobranças de falta em que a bola fazia uma trajetória que, na descrição inspirada dos seus contemporâneos, lembrava uma "folha seca" despencando vacilante de uma árvore. Esses são os pontos fortes de Ronaldinho, como ele mostrou no jogo mais decisivo de sua carreira, a partida em que o Brasil derrotou a Inglaterra pela Copa de 2002. Em um dos lances, o brasileiro serpenteou entre os zagueiros britânicos e deu o passe perfeito para Rivaldo marcar. Em outro, fez com que uma bola chutada no estilo folha-seca aterrissasse com o peso de um tronco no ângulo do atônito goleiro David Seaman. Shevchenko e Henry, rivais de Ronaldinho na briga pelo título de o melhor do ano – e para muitos analistas com mais chance do que o brasileiro –, são jogadores de outra linhagem. São goleadores objetivos, artilheiros, ambos campeões nacionais nos países onde atuam. No futebol atual, no entanto, ninguém dá ao espectador maior garantia de assistir a um espetáculo do que Ronaldinho – e é o espetáculo que faz o esporte globalizado ser um negócio de milhões de dólares. Nessa contabilidade, dribles desconcertantes e passes surpreendentes podem valer mais do que gols.

 

 
 
 
 
topovoltar