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Perfil A
ascensão de um craque globalizado Ronaldinho
Gaúcho é um caso clássico de sucesso de uma era em que
celebridades de chuteiras fazem fortunas para si, para seus clubes e patrocinadores
 João
Gabriel de Lima
AP
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Ronaldinho
Gaúcho, craque do Barcelona e da seleção brasileira, disputa
com o ucraniano Andrey Shevchenko e o francês Thierry Henry o Oscar da bola:
o troféu de o melhor jogador do ano atribuído pela Fifa. Vivendo
grande expectativa, ele aposta em uma superstição. "Os outros jogadores
brasileiros que ganharam o prêmio, Ronaldo, Rivaldo e Romário, também
passaram pelo Barcelona. Acho que essa camisa dá sorte", diz o craque.
Se for confirmado como vencedor o resultado sai no próximo dia 20
, Ronaldinho terá um motivo a mais para celebrar o ano de 2004, no
qual deu um salto em sua carreira. Ele deixou de ser um craque comum para se tornar
aquilo que os especialistas em marketing esportivo chamam de "estrela midiática"
jogador cuja imagem estelar magnificada pelos meios de comunicação
(daí a expressão midiática) se torna uma máquina de
gerar negócios no mundo milionário do futebol. O ícone da
categoria é o inglês David Beckham, que muda a cor do cabelo constantemente
e é casado com outro símbolo sexual, a ex-spice girl Victoria. Essa
conjunção de fatores permite a Beckham triplicar seu salário
com contratos publicitários. O outro Ronaldo, o Fenômeno, também
faz parte da constelação, e não apenas por seus casamentos
(e o divórcio) momentosos.
Aos 24 anos,
Ronaldinho Gaúcho segue o mesmo caminho. O Barcelona está exultante
com o brasileiro. O faturamento do clube catalão cresceu 40% desde que
ele chegou, o cachê que o time recebe por amistosos triplicou (veja
quadro) e os ganhos diretos explodiram sete de cada dez camisetas
que são vendidas a torcedores levam o 10 de Ronaldinho às costas.
"Nós o contratamos para que se tornasse o ícone de uma nova fase
do clube, e ele tem correspondido à nossa expectativa", diz o espanhol
Sandro Rosell, vice-presidente do Barcelona. Nesta segunda-feira, 13, Ronaldinho
participa do lançamento de um modelo de chuteira da Nike, a Tiempo, da
qual será o garoto-propaganda mundial. A fábrica americana de material
esportivo é uma das quatro empresas com as quais Ronaldinho Gaúcho
mantém contrato de publicidade atualmente. Tudo somado, estima-se que ele
dobre o seu salário, em torno de 23 milhões de reais por ano.
Lemyr
Martins
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IRMÃO-MENTOR Aos 12 anos de idade, Ronaldinho
Gaúcho fez sua primeira viagem à Europa com o irmão Assis (à dir.), que
jogava na Suíça. Assis é seu conselheiro até hoje |
Sem
ser pop como Beckham nem casadoiro como Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho investe
em outra imagem: a do moço de família. "Ele aparece o tempo todo
ao lado da mãe e dos irmãos, propagando assim os valores familiares
que encantam nossos consumidores", avalia Paula Costa, gerente de marketing do
sabão em pó Omo. O atleta está em cartaz numa campanha do
produto, na qual atua ao lado da mãe. O Ronaldinho da propaganda corresponde
em parte à realidade. Sua carreira é administrada pela família.
Os irmãos mais velhos Assis, de 33 anos, ex-jogador, e Deisi, de
29 são sócios do craque na empresa Foot Brothers. Ele vive
numa confortável casa em Barcelona ao lado de Deisi, do amigo de infância
Tiago Oliveira, seu secretário particular (e o principal adversário
no passatempo preferido do jogador, o videogame), e do primo Valdimar Garcia,
que é também o personal trainer do atleta.
A fama de namorador, que já o acompanhou, anda meio esquecida. Ronaldinho
Gaúcho foi manchete de tablóide inglês quando a beldade britânica
Lisa Collins, que ele conheceu numa boate parisiense, deu uma entrevista dizendo
que o fôlego do craque brasileiro não se restringia às quatro
linhas do gramado. "Tenho essa fama por causa da minha cara de sapeca, mas na
verdade sou caseiro e tranqüilo", diz o craque. Segundo os amigos, ele é
modesto. Diz a verdade, no entanto, quando fala que não namora. Ronaldinho
prefere "ficar". E fica que é uma beleza já ficou com inglesas,
italianas, francesas e espanholas, embora ainda prefira as brasileiras. Quando
fica, raramente leva as companheiras de noitada para casa, para não provocar
comentários na família. "Ele já me apresentou algumas namoradas,
mas nenhuma para casar. Acho bom que seja assim, para que possa se concentrar
inteiramente na carreira", diz Miguelina, a mãe do craque, que mora em
Porto Alegre, mas o visita constantemente na Catalunha.
AP
 | O
JOGADOR-FAMÍLIA Pesquisas de marketing atestam
que Ronaldinho tem boa imagem, entre outras coisas, por valorizar a família. Ele
comparece freqüentemente a eventos em companhia da mãe, Miguelina (à esq.)
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Mais do que uma parábola
da ascensão social pelo talento, como 99% das trajetórias dos craques
brasileiros, a carreira de Ronaldinho é uma história de decisões
acertadas nas engrenagens do futebol globalizado. Na guerra por um lugar ao sol,
ele teve uma ajuda inestimável: a do irmão Assis, que foi jogador
profissional nos anos 90. Foi pelas mãos dele que Ronaldinho fez sua primeira
viagem à Europa, quando tinha 12 anos de idade. Lá, ele teve contato
com os métodos de treinamento do clube suíço Sion, em que
Assis atuava. Aos 16 anos, ainda reserva no Grêmio mas já com o prestígio
de campeão mundial na categoria sub-17, Ronaldinho assinou um contrato
de exclusividade com a Nike. Receberia apenas material esportivo mas Assis
achava que era um contato importante, e Ronaldinho decidiu topar. Com 21 anos,
transferiu-se para o Paris Saint-Germain, depois de uma rumorosa briga jurídica
com seu clube de origem, o Grêmio. A idéia era ter um período
de adaptação numa equipe menor da Europa. Campeão do mundo
em 2002, achou que era hora de jogar num dos "Big Five" como os especialistas
se referem aos cinco clubes cuja imagem é forte no mundo inteiro (Juventus,
Milan, Barcelona, Real Madrid e Manchester United). Seus jogadores, por conseqüência,
ganham visibilidade mundial e contratos milionários. O vínculo precoce
com a empresa de material esportivo facilitou a aproximação com
o Barcelona. Sandro Rosell, vice-presidente do clube, havia trabalhado durante
anos como executivo da Nike, e nesse período se tornou amigo pessoal do
jogador. Em julho de 2003, 30.000 pessoas foram ao
lendário estádio Camp Nou para a apresentação de Ronaldinho,
o dobro dos torcedores que, vinte anos antes, haviam recepcionado o maior jogador
que já vestiu a camisa azul e grená: o argentino Diego Armando Maradona.
Os Big Five vivem uma fase de luta encarniçada
para obter novos torcedores na Ásia, eldorado de grandes consumidores de
material esportivo e produtos licenciados. Para angariar adeptos no continente,
o Barcelona resolveu fazer sua pré-temporada de 2004 por lá
e se surpreendeu com a popularidade de Ronaldinho no Oriente. "É incrível
como, desde a Copa, eu recebo cartas de chineses e japoneses. E eles são
fãs organizados, que mandam o envelope preenchido para a resposta e o dinheiro
do selo", conta o jogador. Atualmente, segundo a avaliação de Sandro
Rosell, Ronaldinho Gaúcho é o jogador mais popular em território
asiático depois do inglês Beckham e é visto pelo mundo
empresarial como garoto-propaganda estratégico no continente. O sorriso
largo e o fantástico carisma tornam Ronaldinho imune às manifestações
de racismo que vêm tomando de assalto os gramados espanhóis e atingem
em cheio seu companheiro de time, o camaronês Samuel Eto'o. "É algo
tão despropositado que nós, jogadores, não sabemos como reagir.
Precisamos encontrar uma maneira", diz o craque.
Obviamente, carisma e carreira planejada não adiantariam nada se ele não
fosse um jogador excepcional. O argentino Maradona o nomeou seu "sucessor" e disse
que nunca havia visto uma combinação tão perfeita de técnica
e velocidade. No estilo, Ronaldinho Gaúcho é herdeiro de outra lenda
dos gramados, o brasileiro Didi, bicampeão mundial, em 1958 e 1962. O craque
do Botafogo era o mestre dos passes precisos e das cobranças de falta em
que a bola fazia uma trajetória que, na descrição inspirada
dos seus contemporâneos, lembrava uma "folha seca" despencando vacilante
de uma árvore. Esses são os pontos fortes de Ronaldinho, como ele
mostrou no jogo mais decisivo de sua carreira, a partida em que o Brasil derrotou
a Inglaterra pela Copa de 2002. Em um dos lances, o brasileiro serpenteou entre
os zagueiros britânicos e deu o passe perfeito para Rivaldo marcar. Em outro,
fez com que uma bola chutada no estilo folha-seca aterrissasse com o peso de um
tronco no ângulo do atônito goleiro David Seaman. Shevchenko e Henry,
rivais de Ronaldinho na briga pelo título de o melhor do ano e para
muitos analistas com mais chance do que o brasileiro , são jogadores
de outra linhagem. São goleadores objetivos, artilheiros, ambos campeões
nacionais nos países onde atuam. No futebol atual, no entanto, ninguém
dá ao espectador maior garantia de assistir a um espetáculo do que
Ronaldinho e é o espetáculo que faz o esporte globalizado
ser um negócio de milhões de dólares. Nessa contabilidade,
dribles desconcertantes e passes surpreendentes podem valer mais do que gols.

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