Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Ciência
Está na cara

Pesquisas desvendam os mecanismos usados
pelo cérebro para identificar rostos


Jerônimo Teixeira

 
AP
Jane Goodall: a cientista sofre de prosopagnosia, distúrbio que a impede de reconhecer faces humanas – mas não de diferenciar chimpanzés

A inglesa Jane Goodall é talvez a maior especialista viva no estudo de chimpanzés. Em suas pesquisas nas florestas da Tanzânia, ela aprendeu a diferenciar um macaco do outro. No entanto, é incapaz de distinguir rostos humanos. Jane sofre de uma condição neurológica chamada prosopagnosia: a incapacidade de reconhecer faces. Essa doença limita bastante a vida social de suas vítimas. Elas desenvolvem macetes para identificar pessoas pelo cabelo, pela voz, pelo lugar onde sentam no ambiente de trabalho – mas a interação em festas e encontros sociais, onde as pessoas se misturam, é quase impossível. Pesquisas recentes têm jogado luz sobre essa estranha condição – e sobre a habilidade só na aparência trivial de reconhecer e memorizar feições.

Os psicólogos Brad Duchaine e Ken Nakayama, da Universidade Harvard, vêm realizando uma série de pesquisas com vítimas da prosopagnosia. Eles submeteram quarenta voluntários a uma bateria de testes em computador para aferir a habilidade de reconhecer não apenas rostos, mas carros, cavalos, casas, paisagens, ferramentas. Em alguns casos, o distúrbio afetava a identificação de vários desses elementos. Muitos voluntários, contudo, apresentavam uma dificuldade exclusiva com rostos humanos. "Muitos de nossos voluntários têm limitações severas na identificação de faces, mas são perfeitamente capazes de reconhecer outros objetos", diz Duchaine. Em uma linha de pesquisa paralela, Galit Yovel e Nancy Kanwisher, dois neurocientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), confirmaram a natureza específica do reconhecimento facial. Usando ressonância magnética, eles observaram a atividade do cérebro de pessoas normais enquanto elas examinavam imagens de rostos e de casas. Descobriram que existe uma área específica dentro de uma região do cérebro chamada giro fusiforme que é responsável pela identificação de rostos. Essa área não mostra a mesma atividade quando o cérebro está processando a imagem de uma casa. Esses resultados desbancam uma teoria segundo a qual o cérebro usaria processos semelhantes para identificar rostos e outros objetos.

Apesar dos avanços na pesquisa, as causas da prosopagnosia ainda são um mistério. É quase sempre um distúrbio congênito, o que sugere uma origem genética. Também é possível que a causa esteja ligada a problemas de visão na primeira infância – embora esteja programada em nosso cérebro, a capacidade de reconhecer faces parece depender também de estímulos nessa fase. "É provável que o reconhecimento facial seja como a linguagem: uma habilidade que é ao mesmo tempo inata e adquirida", diz Yovel.

 
 
 
 
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