Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Moda
Feras para vestir

Exposição conta a história dos usos
(e abusos) das peles e plumas nas
roupas feitas para aparecer


Tania Menai, de Nova York


Divulgação/MOMA
Ava em pele de onça, em foto de 1952: uma galeria para os felinos

É uma exposição de moda em que não se vêem babados, lacinhos, tecidos vaporosos ou outros atributos convencionais da feminilidade. Aqui, é o lado fera da mulher – e do homem também – que explode, numa sinfonia de penas, peles e couros, explorando como animais e humanos interagem desde sempre em matéria de vestimenta, com os primeiros a serviço dos segundos, claro. O título da exposição aberta na semana passada no Instituto de Moda do Metropolitan Museum de Nova York é auto-explicativo: Wild: Fashion Untamed (Selvagem: A Moda Indomada). Mas como qualquer exibição, especialmente de moda, uma novata no mundo dos museus, precisa ser legitimada por uma porção de idéias complicadas, as roupas de oncinha e outras estampas do gênero são apresentadas como representações de assuntos controversos como racismo, sexismo e, claro, ambientalismo. O que interessa mesmo é que o conjunto tem um enorme impacto e serve para ressaltar como o mundo selvagem ainda evoca emoções poderosas, mesmo, ou sobretudo, na mais urbana das metrópoles.


Alcyr N. da Silva
ilva
O cocar de Miele, com body de couro vermelho, e o look totalmente animal do revolucionário Gernreich, na década de 60: mundo selvagem

Dividida por temas – peles, felinos, plumas e couro –, a exposição tem entre os 100 trajes exibidos algumas preciosidades históricas, como o casaco de plumas de cisne criado em 1957 para Marlene Dietrich. Do manto da diva salta-se para o irreverente vestido em forma de cisne desenhado por Marjan Djodjov e envergado pela cantora Björk na cerimônia do Oscar em 2001. Os brasileiros Alexandre Herchcovitch, com poderosas peças de látex, e Carlos Miele também estão presentes. "Escolhi as roupas que melhor representam o tema, que têm ligação socioeconômica com a vida urbana e, claro, que traduzem um design interessante", disse a VEJA o britânico Andrew Bolton, curador da exposição. "Herchcovitch, um artista de vanguarda, utilizou a borracha para criar vestidos negros que colocam a mulher em uma posição de femme fatale, dominadora. Já Miele usou penas de uma forma delicada, abordando a sexualidade feminina de outra forma."

A seção dedicada às plumas, como o enorme cocar de Miele, é a maior e mais vistosa da exposição. A ala dos felinos traz desde peles em sua encarnação bem próxima dos animais de que são tiradas até vestidos do italiano Roberto Cavalli, o papa do gênero e um dos patrocinadores da mostra. Nessa ala também se encontra a maravilhosa foto da atriz Ava Gardner em 1952, de maiô de oncinha, posando em um cenário de oncinha, bem próxima a um conjunto de 1964, de Yves Saint Laurent, de cetim estampado de oncinha. Na ala dos couros, aparecem referências ao "look total", criado no século XVIII para os homens e reeditado para as mulheres nos anos 60 pelo revolucionário Rudi Gernreich, com estampas de dálmatas, vacas, girafas e zebras. Os casacos e acessórios de pele vêm em seguida, passando pelas estolas, que entraram para a história da moda no fim do século XVI, e depois pelos regalos, os protetores de mão obrigatórios para senhoras elegantes nos dois séculos seguintes. Precavendo-se contra inevitáveis protestos, a exposição abre espaço para peles sintéticas e para as campanhas de proteção dos animais das organizações Peta e Lynx. Muito meritórias, mas deslocadas diante da celebração ao sacrifício de animais em nome da vaidade, como no fenomenal casaco longo, todo em pele de raposa branca, que o ex-rapper e hoje empresário Sean "P. Diddy" Combs emprestou à exposição.

 
 
 
 
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