Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Ideologia
Capitalistas de esquerda

Como não dá para mudar tudo isso que
está aí, resta aos esquerdistas brasileiros
seguir o mesmo caminho dos europeus:
revolucionar-se a si próprios


Mario Sabino


Che Guevara, como capitalista: às vezes é preciso endurecer, mas com ternura. No caso, endurecer o receituário liberal

O que é ser de esquerda? O que já foi uma indagação política hoje é muito mais uma questão existencial para os brasileiros que se incluem nessa categoria. Com o desmoronamento da União Soviética, em 1991, tornou-se comum – na verdade, quase um lugar-comum – dizer que os conceitos de direita e esquerda haviam sido aposentados. Afinal de contas, o embate entre capitalismo e socialismo, que assombrava o mundo desde o início do século XX, chegara a seu termo, com a vitória definitiva do primeiro e a conseqüente morte do segundo ("o fim da história", na expressão consagrada pelo professor americano Francis Fukuyama). Uma década e meia depois do colapso soviético, o socialismo continua no escaninho de projetos inviáveis da humanidade, mas o espírito de esquerda permanece vivo – e, por oposição, também o de direita, ao menos para os esquerdistas. Para tentar responder à pergunta sobre o que isso significa, é preciso retroceder à noção original, marxista, segundo a qual alguém de esquerda deveria necessariamente ser:

adepto da idéia de que o motor da história é a luta de classes;

pela destruição do capitalismo e conseqüente extinção da propriedade privada;

pela implantação do socialismo e estatização da propriedade e dos meios produtivos;

contra a democracia representativa ou "burguesa";

pela ditadura do proletariado com o estabelecimento de um partido único.

Esse figurino esgarçado veste alguns poucos e venerandos zumbis, desta e de outras latitudes, que ainda enxergam nele o Velo de Ouro. Mas o que conta são as personalidades e grandes partidos autodeclarados de esquerda dos países democráticos – e, em tal universo, ninguém mais leva a sério os preceitos marxistas. O primeiro movimento nesse sentido partiu da Itália, onde o Partido Comunista se afastou da nave-mãe soviética na década de 70, formulou nos anos 80 a hipótese de que, entre o capitalismo e o socialismo à la russa, poderia haver uma "terceira via", trocou de nome duas vezes na década de 90 e atualmente é uma agremiação que aceita a economia de mercado, apesar dos vagos e nostálgicos acenos retóricos ao socialismo (seu slogan, "Um outro mundo é possível", convenhamos, soa a algo como "Elvis está vivo"). A metamorfose dos vermelhos italianos permitiu que o partido mantivesse a sua força, sem que ocorresse uma grande transferência de eleitores para outros grupos também à esquerda no espectro político – problema enfrentado por comunistas espanhóis e franceses, que demoraram demais em renunciar ao filossovietismo e, por essa razão principalmente, perderam muitos seguidores. "Dos comunistas europeus, os italianos foram os que fizeram a renovação mais precoce e profunda e, assim, foram os únicos que conseguiram se manter no jogo", diz o sociólogo Caetano Araújo, da Universidade de Brasília, estudioso dos partidos comunistas.

Carlos Casaes/AE
O MST e suas foices: zumbis que tendem a desaparecer na marcha inexorável da história

De maneira geral, os comunistas europeus bandearam-se para a social-democracia. Na definição do Dicionário de Política, organizado pelo italiano Norberto Bobbio, um dos maiores intelectuais da esquerda, morto neste ano, a social-democracia designa na prática "os movimentos socialistas que pretendem mover-se rigorosa e exclusivamente no âmbito das instituições liberal-democráticas, aceitando, dentro de certos limites, a função positiva do mercado e mesmo a propriedade privada. Renunciam assim a estabelecer, quando quer que seja, 'um novo céu e uma nova terra'". A definição do livro de Bobbio pode ser resumida pela frase famosa do ex-primeiro-ministro sueco Olof Palme, assassinado em um misterioso crime político: "O capitalismo é um carneiro que não pode ser morto, mas deve ser mantido bem tosquiado".

Em nome do princípio de realidade e do pragmatismo, a esquerda européia, matriz da brasileira, renunciou a um "novo céu e uma nova terra", para voltar à frase do evangelista João, em seu Apocalipse, ecoada no livro organizado por Bobbio. Nem o capitalismo será destruído pelas trombetas dos anjos vingadores do proletariado nem o socialismo será erigido em cima das ruínas da economia de mercado. A história desmontou a teoria. Os fundamentos marxistas datam da metade do século XIX e apostavam no acirramento do que seria uma contradição do sistema: o enriquecimento dos capitalistas nas nações industrializadas levaria irremediavelmente à miséria, opressão e escravização crescentes dos trabalhadores. E o único caminho para sair dessa situação seria o revolucionário. Não foi o que ocorreu. Em que pesem todos os desequilíbrios (e eles são grandes, não há dúvida), o capitalismo mostrou-se o único sistema capaz de produzir riqueza para as massas e também liberdade – visto que a democracia é pressuposto básico para a livre-iniciativa e a livre circulação de idéias, capitais e produtos, sem as quais não há economia de mercado. Alguém poderia, aqui, dizer que o regime chinês seria a negação disso tudo. Trata-se de um equívoco. O que ocorre hoje na China – a expansão de relações capitalistas sob a direção de um Estado comunista – deverá conduzir ao estabelecimento de uma democracia representativa nos moldes ocidentais, porque existirá um momento em que essa contradição, para usar o jargão comunista, se acirrará de tal forma que não haverá como manter a ditadura.


Sergio Berezovsky
A tanga de Gabeira: esquerda avançada também não discute juros e comércio exterior

O marxismo não só é anacrônico, como desonesto. Dos três volumes que compõem a obra magna de Karl Marx, O Capital, o filósofo só escreveu o primeiro. Os outros dois foram organizados e completados por Friedrich Engels, com base nas anotações deixadas pelo camarada a quem sustentava financeiramente. Como Marx jamais foi visitar uma fábrica (preferia o conforto da Biblioteca do Museu Britânico, em Londres), a sua única fonte sobre o proletariado de carne e osso foi o livro Condição do Operariado na Inglaterra, de Engels. Ao se debruçarem sobre esse livro, dois estudiosos ingleses, W.O. Henderson e W.H. Challoner, descobriram que Engels descartara informações que prejudicavam seus pontos de vista, como as que mostravam a progressiva melhoria das condições de vida da maioria dos trabalhadores, para concentrar-se em setores isolados nos quais predominaria a exploração abjeta – omitindo ao leitor, no entanto, que seus dados eram de quarenta anos antes e muito havia mudado desde então, graças à intervenção do governo inglês.

Marx e Engels estão devidamente enterrados, as ilusões foram perdidas, mas a pergunta permanece: o que é ser de esquerda? E, mais ainda, o que resta à esquerda brasileira? VEJA ouviu algumas personalidades cujas raízes estão fincadas nesse terreno. São depoimentos que, em sua esmagadora maioria, indicam que caberia aos esquerdistas brasileiros ser "capitalistas de esquerda" à maneira européia. Esquerda avançada, enfim, não é apenas aquela que usa tanga na praia e defende o direito de casamento de homossexuais. É, principalmente, a que não quer mais mudar o modelo, não discute juros, câmbio ou comércio exterior, mas se interessa em contribuir com sua energia organizativa para garantir a correta aplicação do gasto social. Sua luta é por maior mobilidade dentro do sistema, transparência do Estado, preservação ecológica sem obstaculizar o progresso e contra os privilégios (o que leva a pensar que também pode haver "socialistas de direita", mas essa é uma outra história). Tudo isso sem que se perca a perspectiva de que, quando é preciso apertar o cinto, não há como não fazê-lo, porque a economia globalizada assim o exige – e essa é a lição que o PT se viu obrigado a aprender. Porque chegou ao governo, a esquerda brasileira está tendo de passar por uma evolução acelerada. A marcha, companheiros, é inexorável, embora ainda haja perturbações oriundas do mundo dos zumbis, como as proporcionadas pelo MST. Durante o governo do presidente François Mitterrand, o socialista que deu um choque de capitalismo na França, um jornalista perguntou ao então ministro das Finanças, Jacques Delors, qual era a diferença entre esquerda e direita. "A diferença em relação à direita é que nós da esquerda fazemos o mesmo com dor no coração", disse Delors. Se o ministro Antonio Palocci quiser usar a frase, sinta-se à vontade.

Com reportagem de André Rizek,
Cynara Menezes e Monica Weinberg

 








Fotos Carlos Humberto/AJB, Mario Rodrigues, Ana Araujo, divulgação, Germano Luders, Claudio Capucho/Folha Imagem, Alexandre Tokitaka, Joseti Capusso, Flavio Florido/Folha Imagem, José Paulo Lacerda/AE
 
 
 
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