|
|
Brasil Ópera
em Milão, buracos em São Paulo Marta
Suplicy faz farra na Europa antes de entregar a José Serra uma prefeitura
falida  Cynara
Menezes
Um jornalista italiano presente à festa
de reabertura do Teatro Alla Scala de Milão, o templo da ópera mundial,
registrou: "Sembra la matrigna di Cenerentola" ("Parece a madrasta de Cinderela").
O alvo do comentário foi a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy,
que compareceu à cerimônia vergada sob uma impressionante quantidade
de jóias, como em geral fazem as damas do Terceiro Mundo quando convidadas
a espetáculos de gala no Primeiro. O jornalista italiano excedeu-se na
crueldade da observação, mas é fato que existe uma Gata Borralheira
na vida de Marta a cidade de São Paulo, com a qual ela parece estar
de mal desde que perdeu a eleição. Eleita para acabar com os desmandos
e tapar os buracos da administração Celso Pitta, a petista deve
deixar a prefeitura da capital paulista com rombos idênticos ou ainda maiores.
Nas ruas e nos cofres. Calcula-se que, em 31 de dezembro, quando Marta deixar
o governo, as contas da prefeitura deverão exibir um saldo negativo superior
a 1 bilhão de reais, resultado sobretudo da farra das obras pré-eleitorais.
Sebastião
Moreira/AE
 | | Marta
recusa as "galochas da humildade" do Pânico na TV |
O
caixa anda tão magro que a prefeitura de São Paulo deixou de pagar
há quatro meses os salários dos professores de arte e os dos vigilantes
de um dos carros-chefes da administração petista, os centros de
educação unificada (CEUs). Também não deixou pronta
a licitação para a compra dos uniformes e kits escolares que, segundo
Marta apregoava na campanha eleitoral, Serra não iria mais distribuir caso
fosse eleito. Como não haverá tempo hábil para fazer licitação
antes do início das aulas, os uniformes deverão mesmo faltar. Os
parques e jardins que ela prometeu embelezar, como o Ibirapuera, são outra
fonte de dívidas: 25 milhões de reais em atrasos no pagamento de
serviços como limpeza, conservação e poda. A administração
de Marta deu ordem para que não se assine cobrança de nenhuma espécie
desde outubro, serviços e obras não são medidos, ou
seja, não recebem da prefeitura a comprovação de que foram
feitos para que se efetue o pagamento. Os representantes das empreiteiras de pequeno
e médio portes, por exemplo, não conseguiram até agora entregar
as notificações em que cobram por obras já realizadas. "Muitas
obras foram feitas a toque de caixa a pedido da administração sabendo
que não havia dinheiro para pagar", diz um empreiteiro. "Eles agiram como
se fossem ganhar a eleição, deixando os problemas para resolver
depois."
Nos dois primeiros anos, a administração
petista manteve-se austera. Depois da saída do então secretário
de Finanças, João Sayad, em maio de 2003, a coisa descambou. O valor
gasto em obras praticamente triplicou e as despesas com pessoal aumentaram de
forma exponencial. Com o crescimento das despesas, Marta decidiu fazer como Pitta:
acumulou precatórios judiciais atrasados. Pagava menos do que destinava
no orçamento, embora tenha previsto para Serra 350 milhões de reais
de gastos com precatórios no ano que vem. No mesmo dia em que a prefeita
participava da "comemoração eletrizante" em Milão (o adjetivo
é dela, queridinhos), o Tesouro Nacional começou a seqüestrar
o dinheiro depositado nas contas do município, porque São Paulo
deixou de pagar 58 milhões de reais à União. Foi a primeira
vez que isso aconteceu. O Tesouro bloqueou o repasse de 1,7 milhão de reais
da parcela mensal que a cidade recebe do governo federal e deve seqüestrar
nesta semana também o repasse feito pelo governo estadual. Eletrizante.
O gabinete de Marta vem sonegando informações
mínimas ao prefeito eleito e sua equipe de transição. Serra
só saberá do tamanho exato do estrago quando assumir o cargo, em
janeiro. "Não existe transição. Todas as informações
são filtradas antes de chegar a nós. Ela está fazendo uma
'operação gaveta': quando a gente abrir, vai ser uma surpresa daquelas",
afirma um integrante da equipe de Serra. A Secretaria de Finanças do município
diz que fechará o ano com superávit. Para alcançar esse feito,
só há duas formas: receber, sob um pretexto qualquer, ajuda financeira
do governo federal ou cancelar de uma vez, formalmente, o pagamento de obras já
executadas, obrigando os fornecedores a recorrer à Justiça para
receber o que lhes é devido. Exatamente como Pitta fez. Ele também
deixou a prefeitura com superávit. Mas só no papel. |