Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Brasil
Ópera em Milão,
buracos em São Paulo

Marta Suplicy faz farra na Europa antes de
entregar a José Serra uma prefeitura falida


Cynara Menezes

Um jornalista italiano presente à festa de reabertura do Teatro Alla Scala de Milão, o templo da ópera mundial, registrou: "Sembra la matrigna di Cenerentola" ("Parece a madrasta de Cinderela"). O alvo do comentário foi a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, que compareceu à cerimônia vergada sob uma impressionante quantidade de jóias, como em geral fazem as damas do Terceiro Mundo quando convidadas a espetáculos de gala no Primeiro. O jornalista italiano excedeu-se na crueldade da observação, mas é fato que existe uma Gata Borralheira na vida de Marta – a cidade de São Paulo, com a qual ela parece estar de mal desde que perdeu a eleição. Eleita para acabar com os desmandos e tapar os buracos da administração Celso Pitta, a petista deve deixar a prefeitura da capital paulista com rombos idênticos ou ainda maiores. Nas ruas e nos cofres. Calcula-se que, em 31 de dezembro, quando Marta deixar o governo, as contas da prefeitura deverão exibir um saldo negativo superior a 1 bilhão de reais, resultado sobretudo da farra das obras pré-eleitorais.

Sebastião Moreira/AE
Marta recusa as "galochas da humildade" do Pânico na TV


O caixa anda tão magro que a prefeitura de São Paulo deixou de pagar há quatro meses os salários dos professores de arte e os dos vigilantes de um dos carros-chefes da administração petista, os centros de educação unificada (CEUs). Também não deixou pronta a licitação para a compra dos uniformes e kits escolares que, segundo Marta apregoava na campanha eleitoral, Serra não iria mais distribuir caso fosse eleito. Como não haverá tempo hábil para fazer licitação antes do início das aulas, os uniformes deverão mesmo faltar. Os parques e jardins que ela prometeu embelezar, como o Ibirapuera, são outra fonte de dívidas: 25 milhões de reais em atrasos no pagamento de serviços como limpeza, conservação e poda. A administração de Marta deu ordem para que não se assine cobrança de nenhuma espécie – desde outubro, serviços e obras não são medidos, ou seja, não recebem da prefeitura a comprovação de que foram feitos para que se efetue o pagamento. Os representantes das empreiteiras de pequeno e médio portes, por exemplo, não conseguiram até agora entregar as notificações em que cobram por obras já realizadas. "Muitas obras foram feitas a toque de caixa a pedido da administração sabendo que não havia dinheiro para pagar", diz um empreiteiro. "Eles agiram como se fossem ganhar a eleição, deixando os problemas para resolver depois."

Nos dois primeiros anos, a administração petista manteve-se austera. Depois da saída do então secretário de Finanças, João Sayad, em maio de 2003, a coisa descambou. O valor gasto em obras praticamente triplicou e as despesas com pessoal aumentaram de forma exponencial. Com o crescimento das despesas, Marta decidiu fazer como Pitta: acumulou precatórios judiciais atrasados. Pagava menos do que destinava no orçamento, embora tenha previsto para Serra 350 milhões de reais de gastos com precatórios no ano que vem. No mesmo dia em que a prefeita participava da "comemoração eletrizante" em Milão (o adjetivo é dela, queridinhos), o Tesouro Nacional começou a seqüestrar o dinheiro depositado nas contas do município, porque São Paulo deixou de pagar 58 milhões de reais à União. Foi a primeira vez que isso aconteceu. O Tesouro bloqueou o repasse de 1,7 milhão de reais da parcela mensal que a cidade recebe do governo federal e deve seqüestrar nesta semana também o repasse feito pelo governo estadual. Eletrizante.

O gabinete de Marta vem sonegando informações mínimas ao prefeito eleito e sua equipe de transição. Serra só saberá do tamanho exato do estrago quando assumir o cargo, em janeiro. "Não existe transição. Todas as informações são filtradas antes de chegar a nós. Ela está fazendo uma 'operação gaveta': quando a gente abrir, vai ser uma surpresa daquelas", afirma um integrante da equipe de Serra. A Secretaria de Finanças do município diz que fechará o ano com superávit. Para alcançar esse feito, só há duas formas: receber, sob um pretexto qualquer, ajuda financeira do governo federal ou cancelar de uma vez, formalmente, o pagamento de obras já executadas, obrigando os fornecedores a recorrer à Justiça para receber o que lhes é devido. Exatamente como Pitta fez. Ele também deixou a prefeitura com superávit. Mas só no papel.

 

 
 
 
 
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