Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Brasil
Aposta no novo

No Nordeste, prefeitos são mais jovens que
a média e não pertencem a siglas tradicionais


Eduardo Maia/AE
Carlos Eduardo, do PSB, reeleito em Natal: quatro prefeitos obtiveram um segundo mandato


As capitais dos estados nordestinos, com a posse de seus novos prefeitos, poderão inaugurar uma etapa de renovação política raramente vista na região. Dos nove eleitos, sete têm menos de 50 anos de idade. A média etária é 46, a mais baixa de todas as cinco regiões brasileiras. Aos 36 anos, a petista Luizianne Lins, de Fortaleza, é a prefeita de capital mais jovem do país. Mas, além da mudança geracional, há uma novidade política: nenhum dos eleitos ou reeleitos é filiado aos partidos mais tradicionais do Nordeste, como o PFL ou o PMDB. Entre os nove prefeitos, três são petistas, outros três são filiados ao PDT, dois são do PSB e um é tucano. "O Nordeste passa por uma renovação política que é fruto do ocaso dos partidos tradicionais e do desgaste da prática clientelista e autoritária", analisa o cientista político Michel Zaidan, professor da Universidade Federal de Pernambuco. "Considero que é uma tendência irreversível, pois não se trata somente de uma mudança de geração, mas também de prática política. No passado, tivemos políticos jovens com práticas velhas", acrescenta Zaidan.

O exemplo mais notório é o de Fernando Collor de Mello, o jovem que, aos 29 anos, comandou a prefeitura de Maceió, mas chegou lá a bordo do autoritário método da nomeação pelo presidente da República, o general João Baptista Figueiredo. Aos 37 anos, candidatando-se pelo PMDB, Collor elegeu-se governador de Alagoas, mas sua prática política, incluindo os acordos com usineiros feitos por baixo do pano, não tinha nada de renovadora.

Mesmo o Ceará, que começou a sepultar o coronelismo local nos anos 80 com o primeiro triunfo eleitoral de Tasso Jereissati, se transformou num reduto hegemônico de seus próprios renovadores. De início, virou reduto do próprio tucano Tasso Jereissati e, pouco depois, também do hoje ex-tucano Ciro Gomes, que, à semelhança de Collor, também era jovem, também era nordestino por adoção e também começara sua carreira política em partidos da velha-guarda. Embora não haja nenhuma similaridade do ponto de vista ético entre Collor e os cearenses, em ambos os casos a renovação política que uma geração mais jovem poderia ter promovido acabou não se materializando.

Jarbas Oliveira
Luizianne Lins, do PT, eleita em Fortaleza: a mais jovem prefeita de capital do país


Agora, além da renovação e da decadência das oligarquias, os eleitores das capitais nordestinas orientaram seus votos por razões da política local, desprezando a polarização entre PT e PSDB que ocorreu em outros pontos do país, como São Paulo, e valorizaram aqueles que foram considerados bons administradores. Entre os nove prefeitos das capitais nordestinas, quatro foram reeleitos: Marcelo Déda em Aracaju, João Paulo no Recife, Carlos Eduardo em Natal e Tadeu Palácio em São Luís, o mais velho da turma com seus 57 anos. No interior dos estados nordestinos, porém, a realidade se mantém praticamente intocada. Na Bahia, por exemplo, o mesmo PFL de Antonio Carlos Magalhães que não conseguiu emplacar o prefeito de Salvador, cargo para o qual foi eleito o pedetista João Henrique, acabou ganhando as eleições em mais de 80% das prefeituras. Um dos fatores que explicam a persistência da velha política no interior está nos meios de comunicação. Diz Zaidan: "As principais emissoras de televisão e rádio do interior do Nordeste são ligadas aos principais grupos políticos e são a única fonte de informação da maioria das cidades. É difícil pensar em mudança nesse cenário".

 
 
 
 
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