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Brasil
A ágil caneta do
presidente Nunca ninguém editou tantas
medidas provisórias como Lula  Alexandre
Oltramari
Ailton
Freitas/Ag. O Globo
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plenário do Senado: MP para o fubá e para blindar o presidente do
Banco Central |
Lula acaba de
bater um incômodo recorde: nunca um presidente da República, desde
a Constituição de 1988, fez uso tão intensivo de medidas
provisórias, as MPs papeluchos que, basta o presidente assinar e
mandar ao Congresso Nacional, passam a ter força de lei como se o chefe
do Executivo fosse, sozinho, a personificação de 594 deputados e
senadores. Inspirados na legislação da Itália da II Guerra
Mundial, os constituintes brasileiros de 1988 queriam que as MPs dessem ao presidente
da República a necessária agilidade para tratar de temas relevantes
e urgentes. As medidas, subvertido seu propósito original, passaram a ser
usadas para praticamente qualquer coisa. Fernando Collor editou MP para comprar
um automóvel para uso do vice-presidente Itamar Franco. Fernando Henrique
Cardoso chegou a assinar MP para comprar latas de goiabada. Lula, em 23 meses
de gestão, já cravou uma média de 5,4 MPs por mês,
marca inédita desde o governo do presidente José Sarney (veja
quadro).
Antes,
as MPs eram assinadas pelo presidente, o único com tal prerrogativa, e
podiam ser reeditadas indefinidamente. A MP que criou o Plano Real, por exemplo,
foi reeditada 73 vezes, até ser aprovada pelo Congresso, seis anos depois
de sua primeira edição. Em 2001, a farra acabou. Desde então,
uma MP precisa ser apreciada pelo Congresso em até 45 dias. Caso contrário,
não se pode votar mais nada. Com isso, resolveu-se o problema das MPs reeditadas
anos a fio sem aprovação legislativa, mas criou-se outro: a pauta
do Congresso vive trancada por MPs ali desembarcadas há mais de 45 dias
e, não conseguindo fazer outra coisa além de votar montanhas
de MPs, o Legislativo vira apêndice do Executivo. No governo Lula, tudo
é MP. É MP para ajudar o Senegal a combater a praga do gafanhoto.
É MP para amparar as vítimas de um incêndio no Paraguai. É
MP para dar status de ministro ao presidente do Banco Central. Na noite de quinta-feira
passada, a Câmara aprovou uma nova MP. De que tratava? Reduzia o imposto
sobre o fubá... O uso abusivo de medidas
provisórias, que acaba solapando a função legislativa do
Congresso, é um dilema mais ou menos antigo mas, em Brasília,
parece que ninguém tem muito interesse em resolvê-lo. O presidente
da República, seja ele quem for, resiste a renunciar a um instrumento tão
ágil, cômodo e poderoso. Os deputados e senadores, por sua vez, adoram
reclamar do excesso de MPs. Mas a comissão parlamentar que deveria analisar
a relevância e a urgência de uma MP antes de aceitar sua tramitação
no Congresso reuniu-se uma única vez nos últimos dezesseis anos.
"Com a restrição do uso de MPs, os parlamentares terão de
aprovar mais leis e com muito mais rapidez. Será que eles querem isso?",
questiona o cientista político Fernando Abrucio, da Fundação
Getulio Vargas. Pelo visto, não. |