|
|
Entrevista: John Kenneth Galbraith
Ainda no ataque
Na ativa aos 96 anos, o lendário
economista americano agora atira
contra as fraudes corporativas

Carlos Graieb
|
Reuters

|
"A
moldura da vida humana tem um desenho ruim. Primeiro os
erros da juventude, depois as restrições
da velhice. Só invejo o que está no meio"
|
|
John Kenneth Galbraith é o decano dos
economistas de esquerda nos Estados Unidos. Esquerda à moda
americana, que não ataca frontalmente o capitalismo, mas
acredita que o Estado tem um papel na economia, defende gastos sociais
e critica o poder das corporações. Aos 96 anos, Galbraith
se encontra há muito tempo aposentado da Universidade Harvard,
onde ensinou por três décadas, mas não abandonou
o debate público. Num livro recém-lançado,
A Economia das Fraudes Inocentes (Companhia das Letras),
ele investe contra idéias como a da "soberania do consumidor"
e duvida do poder de influência do Fed, o banco central americano.
Nascido no Canadá, mas naturalizado americano em 1937, Galbraith
não se destacou apenas na academia. Durante a II Guerra Mundial,
ocupou um cargo central na administração de Franklin
Delano Roosevelt: nenhum preço no país podia ser aumentado
sem a sua autorização. Foi o primeiro funcionário
público no Ocidente a ser chamado de "czar da economia".
Galbraith foi próximo de outros presidentes, como John Kennedy
e Lyndon Johnson. Nesta entrevista, ele relembra o passado e comenta
o presente.
Veja O senhor
previu o estouro da bolha de ações da internet pouco
antes de ele acontecer. Algum sinal de tempestade no horizonte novamente?
Galbraith Uma previsão acertada não
é justificativa suficiente para que se faça outra
previsão. Não acredito, contudo, que tenhamos atingido
o mesmo nível de jogatina insana no mercado de ações
que ocorreu no fim dos anos 20. Um livro que escrevi sobre aquela
época e sobre a maneira como as pessoas às vezes passam
a desprezar a realidade 1929, o Colapso da Bolsa
continua em circulação e é, na verdade, o meu
título de maior sucesso.
Veja O corte
de impostos de George W. Bush em seu primeiro mandato foi uma política
acertada?
Galbraith Fui contra esse corte, e não me encontro
sozinho. Há uma medida razoável de concordância
sobre o assunto: os beneficiários dos cortes foram os americanos
ricos e politicamente influentes que não são
consumidores dos mais confiáveis, ao contrário dos
mais pobres, e que não farão necessariamente o dinheiro
economizado com impostos circular novamente pela economia. Os cortes
também devem piorar o déficit público. Em suma,
não serviram ao bem da economia, tampouco ao bem da população
em geral.
Veja A economia
americana estaria em melhores mãos se John Kerry houvesse
sido eleito?
Galbraith Um governo Kerry teria sido preferível
sob inúmeros aspectos. Mas o que dizer agora? A democracia,
quando submetida à influência do poder econômico
e das grandes empresas, tem suas limitações. Mas ainda
é, de longe, a melhor dentre as alternativas.
Veja Qual o
estado atual da economia como disciplina acadêmica?
Galbraith Como campo de conhecimento, a economia
ainda carrega a sua deformação ancestral. A saber,
a difícil imbricação entre o que é válido
na realidade e o que simplesmente serve a interesses influentes
e articulados.
Veja O economista
Milton Friedman, seu contemporâneo e adversário, disse
recentemente que tinha três conselhos para dar a qualquer
governo: gaste menos, regule menos e cobre menos impostos. O senhor
concorda com ele?
Galbraith Conheço Milton Friedman há
muitos e muitos anos. Nesse tempo, fui capaz de observá-lo
num particular, acima de todos os outros. Trata-se de sua habilidade
para sobreviver ao erro persistente em questões econômicas.
Dito isso, quero deixar registrado que ele é também
uma pessoa persistentemente agradável.
Veja John Maynard
Keynes, uma de suas principais influências como economista,
anda um pouco fora de moda atualmente. Qual o legado keynesiano
que se deveria guardar?
Galbraith Não concordo com esse comentário
sobre Keynes. A tese central que ele defendeu a de que a
economia requer a influência estabilizadora do Estado
continua intacta. Os governantes que desprezarem essa idéia
serão inexoravelmente punidos. Ainda vivemos na Era de Keynes,
tanto quanto na Era de Adam Smith.
Veja O senhor
trabalhou para alguns governos americanos. Dentre as figuras públicas
que conheceu, qual considera a maior?
Galbraith Essa é uma pergunta a que respondo
sem nenhuma hesitação. A maior figura política
do meu período de vida foi Franklin Delano Roosevelt (1882-1945),
o presidente que arrancou os Estados Unidos da Grande Depressão
e os liderou durante a II Guerra Mundial a mais necessária
e implacável das guerras. Roosevelt era um homem de inteligência
e profundo senso de responsabilidade social, mas tratava-se também
de um homem sem uma ideologia pessoal que o controlasse. Ele estava
aberto a ouvir soluções para os imensos problemas
que confrontou em sua época.
Veja Dentre
os presidentes que conheceu, Roosevelt também foi aquele
dotado do melhor cérebro para a economia?
Galbraith Considero essa pergunta um pouco mais difícil.
O presidente de quem estive mais próximo foi John Kennedy
(1917-1963), e essa proximidade me deixou inteiramente persuadido
da sua aptidão para a economia. Sobre os períodos
presidenciais de Roosevelt, diria que eles foram muito bons para
os economistas. Na época da Depressão, nenhum profissional
era mais ouvido do que o economista. Os advogados não eram
ninguém em Washington, em comparação.
Veja "O negócio
deste país são os negócios." Como o senhor
se sente a respeito dessa célebre frase do presidente Calvin
Coolidge (1872-1933)?
Galbraith Discordo dela, é claro. A vida americana
tem um sentido bem mais amplo do que "o negócio de fazer
negócios". Gosto de pensar que nossa força científica
e nossa cultura são as fontes reais de orgulho.
Veja O senhor
guarda alguma história curiosa sobre o Brasil e a América
Latina dos períodos em que trabalhou para o governo americano?
Galbraith Durante meu tempo de atuação
no governo em Washington, nunca me envolvi estreitamente com assuntos
da América Latina. Tinha simpatia pela região e interesse
cultural despertado pela vizinhança, e esses sentimentos
se preservaram ao longo dos anos. Poucas experiências de vida
foram mais prazerosas para mim do que viajar do México ao
extremo sul do continente, com inúmeras paradas pelo caminho.
Tenho a respeito do Brasil uma frase pronta, mas verdadeira: ainda
agora fecho os olhos e me vejo navegando pelo Rio Amazonas. Uma
memória divertida ficou de um tour de palestras em 1958.
O livro A Sociedade Afluente acabava de ser publicado e a
notícia chegou ao Uruguai, para onde eu me dirigia. Minha
foto foi parar na primeira página do principal jornal de
Montevidéu. Infelizmente, as palavras "economista" e "comunista"
foram confundidas pelo telefone e a manchete me descreveu como "Um
Destacado Comunista Americano". Foi quando descobri que estava me
tornando famoso com os inconvenientes daí decorrentes.
Veja O que a
idade avançada trouxe, e o que tirou do senhor?
Galbraith Não tenho dúvida nenhuma:
a moldura da vida humana tem um desenho ruim. Primeiro os erros
da juventude e, finalmente, as restrições físicas
e talvez mentais da velhice. Só invejo o que está
no meio.
Veja Pode-se
dizer que o capitalismo, como a democracia, "é o pior sistema
com a exceção de todos os outros", ou ainda existe
algum sentido em buscar alternativas radicais a ele?
Galbraith Dinheiro e capital ainda conferem certa
autoridade a quem os possui, mas o poder verdadeiro reside hoje
em dia nas grandes corporações. Por isso, tenho relutado
em usar a palavra capitalismo. E o mesmo acontece com outros economistas
e administradores ainda que por razões diferentes.
Como digo em meu livro, empreendeu-se nas últimas décadas
um esforço de troca de nomenclatura. Em vez do capitalista,
temos o executivo, personagem que conquistou melhor aceitação
pública do que seu antecessor. A um termo cheio de conotações
históricas como capitalismo, prefere-se a expressão
anódina "sistema de mercado". Freqüentemente, ela esconde
o fato de que esse sistema supostamente impessoal está sujeito
a manipulações abrangentes.
Veja O senhor
chama de fraude a idéia de que o setor público e o
privado são independentes. Por quê?
Galbraith A economia moderna, representada em
sua forma exemplar pelos Estados Unidos, é produto do surgimento
de corporações poderosas e de novos métodos
de administração empresarial, com sua casta de executivos.
O ponto forte dessa economia é a capacidade de mobilizar
recursos científicos, organizacionais, culturais e políticos
muito variados. O maior de seus efeitos negativos, particularmente
visível no presente, é a habilidade das corporações
de imiscuir-se à força nas políticas governamentais
e direcioná-las. É o que vemos ocorrer agora na malfadada
aventura americana no Iraque. Dito de outra maneira, o desserviço
da economia moderna está na sua tendência de favorecer
concentrações de poder e solapar a lógica da
distribuição da autoridade política por meios
democráticos. A intromissão do setor privado no chamado
setor público é ostensiva e crescente, e negá-la
é uma fraude nada inocente. Essa é a contribuição
ainda não devidamente "celebrada" de nossa época à
história econômica.
Veja O senhor
considera inexata a idéia de que os acionistas ou
os donos são os detentores do poder nas grandes corporações.
Por quê?
Galbraith A crença de que os acionistas
e os conselhos de administração detêm a autoridade
final nas grandes empresas de capital aberto de hoje em dia persiste,
mas é uma fuga da realidade. É um mito. O poder na
empresa pertence à administração à
burocracia empresarial, ainda que burocracia seja uma palavra fortemente
condenada. O grave é que os executivos ganharam pleno controle
sobre sua atuação e sobre sua própria
remuneração.
Veja O que há
de errado com o conceito de soberania do consumidor a idéia
de que, no capitalismo, o indivíduo escolhe com independência
os bens que vai adquirir?
Galbraith Essa é uma fraude muito propagada,
inclusive no ambiente universitário. Ela nasce da tendência
a silenciar sobre o poder de controle do marketing. O "consumidor
soberano" na verdade é tutelado sem cessar pelos altamente
qualificados mandarins da propaganda. Que ninguém se engane:
não importa o número de gráficos sobre o poder
de escolha do público que os economistas produzam, o fato
é que atribuímos ao consumidor uma autoridade maior
do que a que ele realmente possui.
Veja O senhor
critica os gastos americanos com armamentos. Os Estados Unidos poderiam
gastar menos nesse campo?
Galbraith Poderiam e deveriam. A força motriz
desses gastos encontra-se na autoridade conferida nos Estados Unidos
às Forças Armadas e suas lideranças, e também
nos interesses do complexo industrial-militar. Empresas nominalmente
privadas têm hoje um pé firmemente plantado no establishment
militar americano e influenciam de maneira decisiva no orçamento
de defesa. Essas empresas conquistaram uma fatia de poder sobre
o setor público, sobre nossa política externa e sobre
nossos acordos militares.
Veja O Fed,
o banco central americano, e seu presidente, Alan Greenspan, desfrutam
de grande respeito. Por que o senhor discorda?
Galbraith Alan Greenspan é uma figura pública
muito hábil. Quanto a isso, não há dúvida.
Ele é o beneficiário e, em certa medida, também
o arquiteto da crença de que as políticas do Fed têm
um efeito determinante sobre a economia. Exceto no campo da habitação,
isso é um exagero. Há algo de muito reconfortante
na crença de que o Fed tem essa autoridade serena e luminosa.
Olhemos a história. Quase um século de experiência
mostra que essa autoridade é frágil, quase negligenciável.
Empresas investem para lucrar, e suas decisões são
afetadas apenas marginalmente pela taxa de juros quando são.
Um período de euforia econômica se estenderá,
a despeito da modificação das taxas, assim como uma
fase de declínio também não será revertida.
Para todos os que se preocupam com moeda e crédito, a afirmação
de que o Fed tem poderes especiais supostamente denota uma inteligência
econômica do tipo mais refinado. É o oposto disso.
|