Edição 1884 . 15 de dezembro de 2004

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Entrevista: John Kenneth Galbraith
Ainda no ataque

Na ativa aos 96 anos, o lendário
economista americano agora atira
contra as fraudes corporativas


Carlos Graieb

Reuters

"A moldura da vida humana tem um desenho ruim. Primeiro os erros da juventude, depois as restrições da velhice. Só invejo o que está no meio"

John Kenneth Galbraith é o decano dos economistas de esquerda nos Estados Unidos. Esquerda à moda americana, que não ataca frontalmente o capitalismo, mas acredita que o Estado tem um papel na economia, defende gastos sociais e critica o poder das corporações. Aos 96 anos, Galbraith se encontra há muito tempo aposentado da Universidade Harvard, onde ensinou por três décadas, mas não abandonou o debate público. Num livro recém-lançado, A Economia das Fraudes Inocentes (Companhia das Letras), ele investe contra idéias como a da "soberania do consumidor" e duvida do poder de influência do Fed, o banco central americano. Nascido no Canadá, mas naturalizado americano em 1937, Galbraith não se destacou apenas na academia. Durante a II Guerra Mundial, ocupou um cargo central na administração de Franklin Delano Roosevelt: nenhum preço no país podia ser aumentado sem a sua autorização. Foi o primeiro funcionário público no Ocidente a ser chamado de "czar da economia". Galbraith foi próximo de outros presidentes, como John Kennedy e Lyndon Johnson. Nesta entrevista, ele relembra o passado e comenta o presente.

Veja – O senhor previu o estouro da bolha de ações da internet pouco antes de ele acontecer. Algum sinal de tempestade no horizonte novamente?
Galbraith – Uma previsão acertada não é justificativa suficiente para que se faça outra previsão. Não acredito, contudo, que tenhamos atingido o mesmo nível de jogatina insana no mercado de ações que ocorreu no fim dos anos 20. Um livro que escrevi sobre aquela época e sobre a maneira como as pessoas às vezes passam a desprezar a realidade – 1929, o Colapso da Bolsa – continua em circulação e é, na verdade, o meu título de maior sucesso.

Veja – O corte de impostos de George W. Bush em seu primeiro mandato foi uma política acertada?
Galbraith – Fui contra esse corte, e não me encontro sozinho. Há uma medida razoável de concordância sobre o assunto: os beneficiários dos cortes foram os americanos ricos e politicamente influentes – que não são consumidores dos mais confiáveis, ao contrário dos mais pobres, e que não farão necessariamente o dinheiro economizado com impostos circular novamente pela economia. Os cortes também devem piorar o déficit público. Em suma, não serviram ao bem da economia, tampouco ao bem da população em geral.

Veja – A economia americana estaria em melhores mãos se John Kerry houvesse sido eleito?
Galbraith – Um governo Kerry teria sido preferível sob inúmeros aspectos. Mas o que dizer agora? A democracia, quando submetida à influência do poder econômico e das grandes empresas, tem suas limitações. Mas ainda é, de longe, a melhor dentre as alternativas.

Veja – Qual o estado atual da economia como disciplina acadêmica?
Galbraith – Como campo de conhecimento, a economia ainda carrega a sua deformação ancestral. A saber, a difícil imbricação entre o que é válido na realidade e o que simplesmente serve a interesses influentes e articulados.

Veja – O economista Milton Friedman, seu contemporâneo e adversário, disse recentemente que tinha três conselhos para dar a qualquer governo: gaste menos, regule menos e cobre menos impostos. O senhor concorda com ele?
Galbraith – Conheço Milton Friedman há muitos e muitos anos. Nesse tempo, fui capaz de observá-lo num particular, acima de todos os outros. Trata-se de sua habilidade para sobreviver ao erro persistente em questões econômicas. Dito isso, quero deixar registrado que ele é também uma pessoa persistentemente agradável.

Veja – John Maynard Keynes, uma de suas principais influências como economista, anda um pouco fora de moda atualmente. Qual o legado keynesiano que se deveria guardar?
Galbraith – Não concordo com esse comentário sobre Keynes. A tese central que ele defendeu – a de que a economia requer a influência estabilizadora do Estado – continua intacta. Os governantes que desprezarem essa idéia serão inexoravelmente punidos. Ainda vivemos na Era de Keynes, tanto quanto na Era de Adam Smith.

Veja – O senhor trabalhou para alguns governos americanos. Dentre as figuras públicas que conheceu, qual considera a maior?
Galbraith – Essa é uma pergunta a que respondo sem nenhuma hesitação. A maior figura política do meu período de vida foi Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), o presidente que arrancou os Estados Unidos da Grande Depressão e os liderou durante a II Guerra Mundial – a mais necessária e implacável das guerras. Roosevelt era um homem de inteligência e profundo senso de responsabilidade social, mas tratava-se também de um homem sem uma ideologia pessoal que o controlasse. Ele estava aberto a ouvir soluções para os imensos problemas que confrontou em sua época.

Veja – Dentre os presidentes que conheceu, Roosevelt também foi aquele dotado do melhor cérebro para a economia?
Galbraith – Considero essa pergunta um pouco mais difícil. O presidente de quem estive mais próximo foi John Kennedy (1917-1963), e essa proximidade me deixou inteiramente persuadido da sua aptidão para a economia. Sobre os períodos presidenciais de Roosevelt, diria que eles foram muito bons para os economistas. Na época da Depressão, nenhum profissional era mais ouvido do que o economista. Os advogados não eram ninguém em Washington, em comparação.

Veja – "O negócio deste país são os negócios." Como o senhor se sente a respeito dessa célebre frase do presidente Calvin Coolidge (1872-1933)?
Galbraith – Discordo dela, é claro. A vida americana tem um sentido bem mais amplo do que "o negócio de fazer negócios". Gosto de pensar que nossa força científica e nossa cultura são as fontes reais de orgulho.

Veja – O senhor guarda alguma história curiosa sobre o Brasil e a América Latina dos períodos em que trabalhou para o governo americano?
Galbraith – Durante meu tempo de atuação no governo em Washington, nunca me envolvi estreitamente com assuntos da América Latina. Tinha simpatia pela região e interesse cultural despertado pela vizinhança, e esses sentimentos se preservaram ao longo dos anos. Poucas experiências de vida foram mais prazerosas para mim do que viajar do México ao extremo sul do continente, com inúmeras paradas pelo caminho. Tenho a respeito do Brasil uma frase pronta, mas verdadeira: ainda agora fecho os olhos e me vejo navegando pelo Rio Amazonas. Uma memória divertida ficou de um tour de palestras em 1958. O livro A Sociedade Afluente acabava de ser publicado e a notícia chegou ao Uruguai, para onde eu me dirigia. Minha foto foi parar na primeira página do principal jornal de Montevidéu. Infelizmente, as palavras "economista" e "comunista" foram confundidas pelo telefone e a manchete me descreveu como "Um Destacado Comunista Americano". Foi quando descobri que estava me tornando famoso – com os inconvenientes daí decorrentes.

Veja – O que a idade avançada trouxe, e o que tirou do senhor?
Galbraith – Não tenho dúvida nenhuma: a moldura da vida humana tem um desenho ruim. Primeiro os erros da juventude e, finalmente, as restrições físicas e talvez mentais da velhice. Só invejo o que está no meio.

Veja – Pode-se dizer que o capitalismo, como a democracia, "é o pior sistema com a exceção de todos os outros", ou ainda existe algum sentido em buscar alternativas radicais a ele?
Galbraith – Dinheiro e capital ainda conferem certa autoridade a quem os possui, mas o poder verdadeiro reside hoje em dia nas grandes corporações. Por isso, tenho relutado em usar a palavra capitalismo. E o mesmo acontece com outros economistas e administradores – ainda que por razões diferentes. Como digo em meu livro, empreendeu-se nas últimas décadas um esforço de troca de nomenclatura. Em vez do capitalista, temos o executivo, personagem que conquistou melhor aceitação pública do que seu antecessor. A um termo cheio de conotações históricas como capitalismo, prefere-se a expressão anódina "sistema de mercado". Freqüentemente, ela esconde o fato de que esse sistema supostamente impessoal está sujeito a manipulações abrangentes.

Veja – O senhor chama de fraude a idéia de que o setor público e o privado são independentes. Por quê?
Galbraith – A economia moderna, representada em sua forma exemplar pelos Estados Unidos, é produto do surgimento de corporações poderosas e de novos métodos de administração empresarial, com sua casta de executivos. O ponto forte dessa economia é a capacidade de mobilizar recursos científicos, organizacionais, culturais e políticos muito variados. O maior de seus efeitos negativos, particularmente visível no presente, é a habilidade das corporações de imiscuir-se à força nas políticas governamentais e direcioná-las. É o que vemos ocorrer agora na malfadada aventura americana no Iraque. Dito de outra maneira, o desserviço da economia moderna está na sua tendência de favorecer concentrações de poder e solapar a lógica da distribuição da autoridade política por meios democráticos. A intromissão do setor privado no chamado setor público é ostensiva e crescente, e negá-la é uma fraude – nada inocente. Essa é a contribuição ainda não devidamente "celebrada" de nossa época à história econômica.

Veja – O senhor considera inexata a idéia de que os acionistas – ou os donos – são os detentores do poder nas grandes corporações. Por quê?
Galbraith – A crença de que os acionistas e os conselhos de administração detêm a autoridade final nas grandes empresas de capital aberto de hoje em dia persiste, mas é uma fuga da realidade. É um mito. O poder na empresa pertence à administração – à burocracia empresarial, ainda que burocracia seja uma palavra fortemente condenada. O grave é que os executivos ganharam pleno controle sobre sua atuação – e sobre sua própria remuneração.

Veja – O que há de errado com o conceito de soberania do consumidor – a idéia de que, no capitalismo, o indivíduo escolhe com independência os bens que vai adquirir?
Galbraith – Essa é uma fraude muito propagada, inclusive no ambiente universitário. Ela nasce da tendência a silenciar sobre o poder de controle do marketing. O "consumidor soberano" na verdade é tutelado sem cessar pelos altamente qualificados mandarins da propaganda. Que ninguém se engane: não importa o número de gráficos sobre o poder de escolha do público que os economistas produzam, o fato é que atribuímos ao consumidor uma autoridade maior do que a que ele realmente possui.

Veja – O senhor critica os gastos americanos com armamentos. Os Estados Unidos poderiam gastar menos nesse campo?
Galbraith – Poderiam e deveriam. A força motriz desses gastos encontra-se na autoridade conferida nos Estados Unidos às Forças Armadas e suas lideranças, e também nos interesses do complexo industrial-militar. Empresas nominalmente privadas têm hoje um pé firmemente plantado no establishment militar americano e influenciam de maneira decisiva no orçamento de defesa. Essas empresas conquistaram uma fatia de poder sobre o setor público, sobre nossa política externa e sobre nossos acordos militares.

Veja – O Fed, o banco central americano, e seu presidente, Alan Greenspan, desfrutam de grande respeito. Por que o senhor discorda?
Galbraith – Alan Greenspan é uma figura pública muito hábil. Quanto a isso, não há dúvida. Ele é o beneficiário e, em certa medida, também o arquiteto da crença de que as políticas do Fed têm um efeito determinante sobre a economia. Exceto no campo da habitação, isso é um exagero. Há algo de muito reconfortante na crença de que o Fed tem essa autoridade serena e luminosa. Olhemos a história. Quase um século de experiência mostra que essa autoridade é frágil, quase negligenciável. Empresas investem para lucrar, e suas decisões são afetadas apenas marginalmente pela taxa de juros – quando são. Um período de euforia econômica se estenderá, a despeito da modificação das taxas, assim como uma fase de declínio também não será revertida. Para todos os que se preocupam com moeda e crédito, a afirmação de que o Fed tem poderes especiais supostamente denota uma inteligência econômica do tipo mais refinado. É o oposto disso.

 
 
 
 
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