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André
Petry Do castigo ao amparo
"Por
preconceito, por machismo ou por crendice, as brasileiras as pobres,
é claro, as que não têm dinheiro para abortar numa
boa clínica clandestina estão morrendo. Primeiro, a lei
as condena ao crime. Depois, à morte" O
Brasil ainda está longe de entrar para a galeria dos países civilizados,
modernos e emancipados do jugo religioso, onde o aborto não é crime
nem dá prisão a ninguém. Mas, mesmo atolado no atraso, o
país acaba de ver uma tênue luz no fim do túnel: a ministra
Nilcéa Freire, que cuida de políticas voltadas para as mulheres,
anunciou que o governo vai instalar uma comissão encarregada de reavaliar
a lei brasileira sobre o assunto, que permite o aborto apenas quando a vida da
mulher está em risco ou a gravidez resulta de estupro. A ministra já
fez questão de avisar talvez para, desde já, ir tentando
desarmar um pouquinho a imperecível fúria da Igreja Católica
que a idéia nem é chegar à descriminalização
do aborto. É só mudar o eixo da lei atual. Hoje, a lei está
focada na punição à mulher que aborta. Seu negócio
é castigar, justiçar, censurar. A idéia é fazer com
que a lei, em vez de só punir, passe a garantir assistência à
mulher que aborta, não importa o motivo. A intenção é
dar proteção, amparo, conforto, apoio. É uma bela proposta.
Aos 52 anos, a ministra Nilcéa Freire conhece
o assunto na pele: além de mulher, é médica e mãe
de dois filhos, um de 27 e outro de 25 anos. A ministra demorou a dizer a que
veio, mas, quando finalmente o fez, foi em noite de gala. Parabéns. Sua
proposta reflete as recomendações feitas por sucessivas conferências
da ONU sobre a mulher. Chuta-se que entre 50.000 e
100.000 mulheres morrem por ano devido a complicações
decorrentes de abortos inseguros, feitos em condições precárias
e por gente desqualificada quadro comum nos países em que o aborto
é ilegal, como no Brasil. A OMS informa que a média mundial de mortalidade
materna provocada por abortos inseguros é de 13%. Na católica América
do Sul, é o dobro. Calcula-se que, todos os anos, 240 000 brasileiras submetidas
ao aborto inseguro são hospitalizadas por causa de complicações
posteriores. Por preconceito, por machismo ou por crendice, as brasileiras
as pobres, é claro, as que não têm dinheiro para abortar numa
boa clínica clandestina estão morrendo, abandonadas à
própria sorte. É o próprio cenário do horror. Primeiro,
a lei as condena ao crime. Depois, à morte.
Quem pode ser contra uma mudança radical nesse cenário? Quem pode
ser contra a idéia de dar amparo à mulher que, tendo acabado de
passar pela dolorosa experiência do aborto, ainda sofre com problemas de
saúde? Quem pode ser cruel a ponto de deixar que essa mulher morra, relegada
à desproteção, porque fez um aborto não previsto em
lei? Os que militam contra o aborto, com destaque para a Igreja Católica,
em vez de responder a essas perguntas, vão apresentar aquela outra, igualmente
legítima: onde fica o direito à vida, o direito de nascer de uma
criança indefesa, criminosamente arrancada do útero materno? Ainda
que seja impróprio tratar um feto como se fosse uma criança, ainda
que uma conferência episcopal no México tenha chegado ao extremo
de usar o termo "cidadão" como sinônimo de "embrião", ainda
que não se esteja discutindo a legalização do aborto, mas
apenas o amparo à mulher que o faz, a resposta é cristalina: o direito
de nascer do embrião, cuja existência resulta de um ato humano e
não de uma intervenção divina, fica submetido aos direitos
humanos da mulher, entre os quais estão incluídos seus direitos
sexuais e reprodutivos. |