O MST se
perdeu
O ministro diz que o Movimento dos
Sem Terra vai ficar sem público para
continuar tumultuando a
reforma agrária
Marcos
Emílio Gomes
Ana Araujo
 |
"O
Exército não vai permitir a invasão da fazenda do presidente
da República. Não existe essa hipótese" |
O
ministro Raul Jungmann, do Desenvolvimento Agrário, tem
aparecido bastante na televisão nas últimas semanas
para falar do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e do desvio
de recursos da reforma agrária. Jungmann, um ex-comunista
de 48 anos que estreou como ministro em 1996, anda batendo forte
no MST, depois de fazer o mesmo em sua própria organização.
No Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
(Incra), fez uma poda nos ramos corruptos das 29 superintendências.
Para completar, Jungmann tem mostrado serviço em matéria
de dar terra a quem dela precisa para trabalhar. Multiplicou por
dez a média anual de famílias assentadas, com a
distribuição de 17 milhões de hectares de
terra. Em toda a história anterior da reforma agrária
foram distribuídos 22 milhões de hectares.
Jungmann nunca completou um curso superior, mas estudou muito
um dos assuntos mais complexos do Brasil e se tornou um páreo
duro para todas as frentes envolvidas na reforma agrária.
Não critica só o MST. Denuncia também advogados
especializados em obter indenizações milionárias
para fazendeiros desapropriados. E não foge de brigas com
setores da Igreja ou grileiros. Na semana passada, o ministro
recebeu VEJA para a seguinte entrevista.
Veja O senhor pretende quebrar o MST?
Jungmann
De
maneira nenhuma. Pessoalmente acho importante a existência
de mediadores que organizem os movimentos sociais. O MST é
que abandonou essa função em nome de outra atividade.
Foi o MST que se perdeu, em parte por causa de sua própria
estrutura e em parte por não ter sabido adaptar-se às
mudanças que vêm ocorrendo tanto no mundo quanto
na questão agrária no Brasil. Se a gente contribuiu
com isso, foi apenas tomando medidas para diminuir o número
de conflitos no campo e dar mais eficiência à reforma
agrária.
Veja Como isso aconteceu?
Jungmann
&t face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Passamos
a interromper, por exemplo, processos de desapropriação
em áreas invadidas, que só são reiniciados
dois anos depois da desocupação. Fizemos uma aposta
contra os conflitos. Tínhamos receio de que funcionasse
ao contrário, levando o PT e a Igreja a uma radicalização
em defesa do MST, mas isso não aconteceu. De repente, o
MST ficou sem moeda. Por mais socialista que seja, o movimento
tem de atender a seu mercado, tem de responder à demanda
dos sem-terra, e eles não podem esperar dois anos. Ficaram
desmotivados para as invasões, que diminuíram muito
depois disso, assim como as mortes no campo. E o MST não
foi capaz de criar novas alternativas. Passou a repetir seu repertório
de conteúdo político.
Veja Mas esse repertório não é
suficiente para causar problemas? Ameaçaram invadir, por
exemplo, a fazenda do presidente da República.
Jungmann
É claro que causa problemas, mas é pior para o próprio
MST. Ao radicalizar, ele acaba se isolando. No caso da fazenda
do presidente, o MST deu um exemplo de ação política
burra. Não podia ter chegado a esse ponto e não
vai invadir essa fazenda nunca. O Exército não vai
permitir. Não existe essa hipótese. Uma pesquisa
feita em outubro mostra que 57% da população não
apóia o movimento, 67% acha que sua ação
é mais política do que social, 70% diz que os líderes
conduzem as reivindicações de maneira errada e 87%
defende que o governo faça uma auditoria nas contas do
movimento. Isso mostra para onde o MST está caminhando.
Veja O governo está aproveitando as denúncias
de corrupção dentro do MST para um confronto definitivo?
Jungmann
Não
estamos aproveitando nada. Não fui eu quem respondeu a
essa pesquisa.
Veja Mas há muito tempo se sabia que o MST
cobrava taxas de assentados para se manter. Que novidade há
nisso?
Jungmann
Isso é verdade, mas ninguém estava olhando direito
para o modo como essas taxas eram cobradas nem dando muita atenção
ao verdadeiro objetivo delas. Agora, está sendo exposta
a cobrança compulsória, contra a qual muitos dos
assentados reclamam. Fica evidente que a aplicação
desses recursos não é feita para a reforma agrária,
e sim para a ampliação de uma burocracia dirigente
que pretende fazer uma revolução. O próprio
João Pedro Stedile, líder do movimento, declara
isso. Mas esse dinheiro é parte do que a sociedade está
investindo na reforma agrária. E a população
está dizendo não, está mostrando que não
quer financiar um partido clandestino.
Veja O MST tem de ser tratado como um partido?
Jungmann
Essa é outra coisa que vai ficando evidente: o MST não
tem registro jurídico, tem um estatuto de partido, faz
cursos de formação de revolucionários, investe
na ampliação dos conflitos sociais e não
quer apresentar sua verdadeira cara. Quanto mais as invasões
ganham caráter político, mais aparece o intestino
do movimento e até a falta de democracia interna. O MST
faz um congresso com 10 000 pessoas e não elege sua direção
nesse encontro. Ninguém sabe como é essa eleição.
Ora, quando concorda com a realização de uma auditoria
nas contas do MST, o cidadão está apenas querendo
saber como eles estão usando um dinheiro que saiu, na verdade,
do bolso do contribuinte brasileiro.
Veja Seu ministério tem outros inimigos?
Jungmann
Tem
muitos. Os donos de terras que estocaram propriedade rural esperando
ser desapropriados e regiamente indenizados jogam contra a reforma
agrária porque seu golpe não funciona mais. A fraude,
o preço inflado, isso acabou com a troca dos superintendentes
regionais do Incra por funcionários concursados e pela
ação da procuradoria do órgão. Também
estão contra o Ministério da Reforma Agrária
os escritórios de advocacia que se enchiam de dinheiro
com indenizações despropositadas. Esses escritórios,
como o do advogado paulista Fabio Luchesi, financiam parlamentares
para detonar a reforma que estamos fazendo.
Veja Quem são esses parlamentares?
Jungmann
Não vou dar os nomes. Como o advogado é de São
Paulo, é só ver na bancada paulista quem são
alguns dos parlamentares chamados de ruralistas para descobrir.
Até a direção da Ordem dos Advogados do Brasil
está insatisfeita com o ministério. A OAB foi à
Justiça contra uma medida do governo que limita os honorários
dos advogados em causas de desapropriação de terras
para reforma agrária. Já houve casos de honorários
de 51 milhões de reais. Hoje o máximo é de
150 000 reais. Outro público que tem interesses contrariados
é o pessoal que tem títulos da dívida agrária,
os TDAs. A Companhia Siderúrgica de Tubarão, por
exemplo, tem títulos que entraram em sua contabilidade
por 600 milhões de reais e hoje valem uns 40 milhões.
Por fim, há a pressão de grileiros que tiveram certificados
de propriedade cassados pelo Incra. Eles não podem usar
essa terra para obter financiamentos, nem vender, nem subdividir.
Veja E os casos de violência, de confronto,
não representam um perigo para a reforma agrária?
Jungmann
Eles preocupam, sim, e ainda há mortes. Mas a tendência
é de redução de confrontos. Houve 365 invasões
de terra entre janeiro e setembro do ano passado. E 197 neste
ano, no mesmo período. Se diminuem as invasões,
diminuem os riscos. Há também o fato de que os latifundiários
de áreas improdutivas estão perdendo a solidariedade
dos proprietários rurais mais sérios. Recentemente,
numa discussão sobre o imposto territorial rural, um líder
do setor me disse que não era tolerável o aumento
para as propriedades produtivas. Aí perguntei sobre as
improdutivas, e ele respondeu: "Que se danem!" Ou seja, os fazendeiros
de verdade não se sentem mais ameaçados por comunistas
escondidos atrás da reforma agrária.
Veja O ministério tem 6.000
funcionários e gasta uma fortuna com reforma agrária,
a partir de um orçamento de 6 bilhões de reais.
Não é dinheiro demais para solução
de menos?
Jungmann
Não acho que seja caro. Tenho convicção de
que é necessário gastar esse dinheiro. Mas a sociedade
evidentemente tem alternativa entre investir na reforma agrária,
para dar condições de subsistência a 10 milhões
de pessoas carentes, ou gastar os impostos construindo presídios
em torno das grandes cidades. Há 50.000
famílias acampadas no Brasil, reivindicando terra. Essas
pessoas vivem no limite da pobreza. Há ainda mais 200 000
famílias que têm a terra mas vivem em condição
de miséria. Não possuem títulos de propriedade,
qualquer capacidade de investimento, assistência técnica,
nada.
Veja Para atendê-los, não seria melhor
distribuir logo o dinheiro, em vez de financiar propriedades que
não têm condições de competir no mercado
agrícola?
Jungmann
De jeito nenhum. Primeiro, porque não se trata de caridade.
A questão é dar ao cidadão o direito de sobreviver
de seu próprio trabalho, ainda que numa economia de subsistência.
E ele certamente prefere isso. Depois, nenhum dos recursos que
aplicamos tem a característica de donativo. Há subsídios.
Donativos, não. São empréstimos. Num dos
programas que estamos implantando, o agricultor pega emprestado
500 reais e pode chegar a pagar 303 no final do financiamento,
mas precisa pagar. E tem de manter o filho na escola para ganhar
abatimento na dívida. Nos assentamentos, a família
cujos filhos freqüentam regularmente o 1º grau pode
ter 50% de desconto na dívida. Essa é uma maneira
para que esse filho tenha condição mínima
de competir por emprego urbano, se preferir. Para esta geração
mais velha, não há essa alternativa.
Veja Isso não torna a reforma agrária
uma necessidade permanente? Esses filhos não vão
reivindicar terra no futuro, criando uma espécie de bola
de neve de subsídios?
Jungmann
As previsões indicam exatamente o contrário. A tendência
é diminuir a demanda por terra. Aliás, apostar nesse
crescimento permanente e infinito dos sem-terra foi outro erro
do MST, que ainda vai ficar sem público. E há muitos
enganos na visão da classe média urbana sobre a
situação no campo brasileiro. As pequenas propriedades
não são inviáveis economicamente. Muito pelo
contrário. Os países europeus investem mais de 30
bilhões de dólares por ano na produção
agrícola e boa parte disso é para dar viabilidade
aos projetos de pequenos agricultores. No Brasil, 400 000 pequenos
proprietários têm condição absolutamente
competitiva. Representam 31% da soja cultivada no Brasil, têm
a maior produção de milho e de feijão, são
fortes produtores de aves e ovos. São responsáveis
por 13 milhões de empregos e por 38% do valor bruto da
produção agrícola no Brasil. Estão
no topo da pirâmide cuja base são os sem-terra. O
governo vê esse quadro como uma escada. Uma parte dessa
gente pode subi-la, ainda que isso contrarie a vontade do MST.
No passado, sim, havia uma visão paternalista que nos deixou
problemas enormes.
Veja Que tipo de problema?
Jungmann
Enquanto
se assentavam 7 000 famílias por ano, não se dava
nunca o título da terra, porque havia 144 exigências
técnicas e burocráticas que elas deviam cumprir.
Por isso, também, nunca se sentiam seguras para fazer investimento
e, pior, podiam até perder o lote quando morria o beneficiário
principal. Passamos a instalar até 100 000 famílias
por ano e, mesmo que quiséssemos, seria impossível
manter essa perversidade. Agora, estamos titulando assentamentos
do passado até pelo correio. Não se pode é
facilitar a venda, porque seria inconstitucional, mas não
há razão para não regularizar a propriedade.
Outra dificuldade que herdamos é uma grande quantidade
de assentamentos que precisam de infra-estrutura.
Veja Mas o senhor mesmo não tem assentado
famílias em lugares onde a infra-estrutura é falha?
Jungmann
Isso é verdade. Mas é preciso entender por que aconteceu.
Pegue-se o caso de famílias que saíram de um garimpo,
encontraram uma área, começaram um cultivo de subsistência
e entraram em confronto com um grileiro. O Incra entrou para resolver
a questão. Mas essa gente não queria sair de lá,
já estava enraizada, mesmo sem infra-estrutura adequada
e às vezes até sem consumidores próximos
para comprar sua produção. Como as áreas
de conflito eram prioridade, tratava-se de assentar primeiro e
cuidar do resto depois. É claro que isso tende a diminuir
cada vez mais.
Veja Não há gente que, por causa do
isolamento, acaba vendendo o lote que recebeu?
Jungmann
Pode ser, mas não é a única razão
e esse nem é um problema tão grave quanto parece.
É verdade que há casos de assentamentos até
com 50% de evasão, casos de famílias que vendem
ou abandonam a terra. Mas é um engano supor que o lote
fica vazio. Um estudo da professora Regina Bruno, da Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro, mostra que quem compra um lote
desses é geralmente uma família mais bem aparelhada
para o trabalho na terra do que a primeira. Na verdade, a troca
acaba sendo positiva, mesmo sendo ilegal. Acho que a obrigação
de quem está envolvido com a reforma agrária é
entender esse tipo de situação, fugir da burocracia.