Edição 1824 . 15 de outubro de 2003

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Cinema
O melhor emprego

E também os melhores amigos, e o
melhor humor: é bom ser George Clooney


Isabela Boscov


Trailer, galeria de fotos e papel de parede

Pesadelo dos cônjuges litigantes e autor de um modelo indevassável de acordo pré-nupcial, Miles Massey é o mais procurado e temido dos advogados especializados em divórcios de Los Angeles – onde isso há de contar alguma coisa. E, como seria de esperar de alguém com tal currículo, Miles é um sujeito sem ilusões. Pelo menos uma vez, ele gostaria de encontrar um adversário à sua altura, ou partir para a aniquilação total do oponente – ou ambas as coisas. Eis que surge Marylin Rexroth, uma profissional do golpe do baú. Marylin filmou o marido com a amante e está pronta para depená-lo. Só que Miles é o advogado do adúltero, e não de Marylin. Que sai do tribunal sem nada além do desejo de planejar mais um golpe, ou de dar o troco a Miles – ou ambas as coisas. Entenda-se que nem um nem outro querem vingança. Seu caso é de admiração e atração mútuas. "Imagino que você seja carnívora", diz Miles a Marylin durante um jantar. "E como", sussurra ela.

Está-se aqui num território de manejo difícil: o da comédia sobre a guerra dos sexos, uma arte que ficou meio perdida desde que seus grandes diretores, como Ernst Lubitsch, Preston Sturges e Howard Hawks, saíram de cena. Mas, se há dois cineastas informados sobre esse período – o dos anos 30 e 40 –, trata-se dos irmãos Joel e Ethan Coen, que assinam O Amor Custa Caro (Intolerable Cruelty, Estados Unidos, 2003), em cartaz a partir de sexta-feira no país. As credenciais dos Coen para a tarefa vão além da erudição e da habilidade para recriar aquele clima de jogo de pôquer, no qual leva a melhor quem sabe blefar. Para "carregar" esse gênero, é preciso intérpretes que tenham fascínio de astro, mas timing e mordacidade de comediante. Em O Amor Custa Caro, as escolhas dos Coen são tão acertadas que, no final do filme, tem-se a impressão de que eram as únicas possíveis: Catherine Zeta-Jones, uma diva à antiga (no bom sentido), e George Clooney, que já colaborara com os Coen em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? e cada vez mais se firma como o único astro na ativa que merece comparação com os melhores da era de ouro.

Em O Amor Custa Caro, Clooney mostra Miles Massey como personagem paradoxal: ele é um deprimido que tem pavor à introversão, um cínico que é capaz de se maravilhar e um devorador inapetente. Vê-lo em ação é uma experiência deliciosa, ainda mais porque Clooney personifica Miles sem histrionismo e sem nunca, jamais, ceder à tentação de roubar a cena dos colegas. São qualidades que dizem respeito não só a talento, mas também a autoconfiança.

Durante treze anos, entre os 20 e os 33, Clooney fez quinze pilotos de seriados que nunca foram ao ar. Nos cinco anos seguintes, bateu ponto em Plantão Médico, como o personagem mais popular da série e um dos salários mais magros do elenco. Quando passou ao cinema, foi do insosso (Um Dia Especial) ao catastrófico (Batman & Robin). Tem-se, assim, um período de mais ou menos dezoito anos em que o ego de Clooney apanhou regularmente, até chegar às dimensões modestas de hoje – um requisito indispensável para fazer bons amigos e manter distância dos sicofantas que costumam cercar as celebridades.

Clooney, hoje com 42 anos, é um astro inusitado. Não torra dinheiro, não tem frescuras, não se envolve em romances destinados a ocupar espaço nos tablóides (sua última namorada firme foi a garçonete francesa Céline Balitran, com quem ele rompeu em 1999) e é o mais perfeito cavalheiro – principalmente com mulheres, mas também com homens. Heresia das heresias, acha que já tem todo o dinheiro de que vai precisar até o fim da vida. Ele e o diretor Steven Soderbergh, sócios na produtora Section Eight, fizeram uma conta: para que a empresa se mantenha, só um em cada cinco filmes que eles fazem tem de dar lucro. Até aqui, a média tem sido mantida, com sucessos como Onze Homens e Um Segredo ou Insônia e fracassos como Confissões de uma Mente Perigosa ou Solaris. Nas horas vagas, que são poucas, Clooney alterna dois figurinos: o do último grande playboy, que organiza festas todas as noites e nunca tem ressaca, porque não chega a ficar sóbrio, e o do sujeito comum, que anda de moto com os velhos amigos e joga basquete com qualquer um que se disponha – por exemplo, com a população carcerária do presídio de Angola, na Louisiana, onde ele filmou Irresistível Paixão e bateu bola com homicidas e assaltantes. Clooney, é verdade, ainda está a um passo de vestir um terno tão bem quanto Cary Grant. Mas já o superou num ponto. Numa blague célebre, Cary Grant disse certa vez que todos os homens queriam ser Cary Grant – inclusive ele próprio. Clooney, porém, já conseguiu algo quase tão bom quanto isso: ser George Clooney.

 
 
 
 
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