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Cinema
O
melhor
emprego
E
também os melhores amigos, e o
melhor humor: é bom ser George Clooney

Isabela
Boscov
Pesadelo
dos cônjuges litigantes e autor de um modelo indevassável
de acordo pré-nupcial, Miles Massey é o mais procurado
e temido dos advogados especializados em divórcios de Los
Angeles onde isso há de contar alguma coisa. E, como
seria de esperar de alguém com tal currículo, Miles
é um sujeito sem ilusões. Pelo menos uma vez, ele
gostaria de encontrar um adversário à sua altura,
ou partir para a aniquilação total do oponente
ou ambas as coisas. Eis que surge Marylin Rexroth, uma profissional
do golpe do baú. Marylin filmou o marido com a amante e está
pronta para depená-lo. Só que Miles é o advogado
do adúltero, e não de Marylin. Que sai do tribunal
sem nada além do desejo de planejar mais um golpe, ou de
dar o troco a Miles ou ambas as coisas. Entenda-se que nem
um nem outro querem vingança. Seu caso é de admiração
e atração mútuas. "Imagino que você seja
carnívora", diz Miles a Marylin durante um jantar. "E como",
sussurra ela.
Está-se
aqui num território de manejo difícil: o da comédia
sobre a guerra dos sexos, uma arte que ficou meio perdida desde
que seus grandes diretores, como Ernst Lubitsch, Preston Sturges
e Howard Hawks, saíram de cena. Mas, se há dois cineastas
informados sobre esse período o dos anos 30 e 40 ,
trata-se dos irmãos Joel e Ethan Coen, que assinam O
Amor Custa Caro (Intolerable Cruelty, Estados Unidos,
2003), em cartaz a partir de sexta-feira no país. As credenciais
dos Coen para a tarefa vão além da erudição
e da habilidade para recriar aquele clima de jogo de pôquer,
no qual leva a melhor quem sabe blefar. Para "carregar" esse gênero,
é preciso intérpretes que tenham fascínio de
astro, mas timing e mordacidade de comediante. Em O Amor Custa
Caro, as escolhas dos Coen são tão acertadas que,
no final do filme, tem-se a impressão de que eram as únicas
possíveis: Catherine Zeta-Jones, uma diva à antiga
(no bom sentido), e George Clooney, que já colaborara com
os Coen em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?
e cada vez mais se firma como o único astro na ativa que
merece comparação com os melhores da era de ouro.
Em
O Amor Custa Caro, Clooney mostra Miles Massey como personagem
paradoxal: ele é um deprimido que tem pavor à introversão,
um cínico que é capaz de se maravilhar e um devorador
inapetente. Vê-lo em ação é uma experiência
deliciosa, ainda mais porque Clooney personifica Miles sem histrionismo
e sem nunca, jamais, ceder à tentação de roubar
a cena dos colegas. São qualidades que dizem respeito não
só a talento, mas também a autoconfiança.
Durante
treze anos, entre os 20 e os 33, Clooney fez quinze pilotos de seriados
que nunca foram ao ar. Nos cinco anos seguintes, bateu ponto em
Plantão Médico, como o personagem mais popular
da série e um dos salários mais magros do elenco.
Quando passou ao cinema, foi do insosso (Um Dia Especial)
ao catastrófico (Batman & Robin). Tem-se, assim,
um período de mais ou menos dezoito anos em que o ego de
Clooney apanhou regularmente, até chegar às dimensões
modestas de hoje um requisito indispensável para fazer
bons amigos e manter distância dos sicofantas que costumam
cercar as celebridades.
Clooney,
hoje com 42 anos, é um astro inusitado. Não torra
dinheiro, não tem frescuras, não se envolve em romances
destinados a ocupar espaço nos tablóides (sua última
namorada firme foi a garçonete francesa Céline Balitran,
com quem ele rompeu em 1999) e é o mais perfeito cavalheiro
principalmente com mulheres, mas também com homens.
Heresia das heresias, acha que já tem todo o dinheiro de
que vai precisar até o fim da vida. Ele e o diretor Steven
Soderbergh, sócios na produtora Section Eight, fizeram uma
conta: para que a empresa se mantenha, só um em cada cinco
filmes que eles fazem tem de dar lucro. Até aqui, a média
tem sido mantida, com sucessos como Onze Homens e Um Segredo
ou Insônia e fracassos como Confissões de
uma Mente Perigosa ou Solaris. Nas horas vagas, que são
poucas, Clooney alterna dois figurinos: o do último grande
playboy, que organiza festas todas as noites e nunca tem ressaca,
porque não chega a ficar sóbrio, e o do sujeito comum,
que anda de moto com os velhos amigos e joga basquete com qualquer
um que se disponha por exemplo, com a população
carcerária do presídio de Angola, na Louisiana, onde
ele filmou Irresistível Paixão e bateu bola
com homicidas e assaltantes. Clooney, é verdade, ainda está
a um passo de vestir um terno tão bem quanto Cary Grant.
Mas já o superou num ponto. Numa blague célebre, Cary
Grant disse certa vez que todos os homens queriam ser Cary Grant
inclusive ele próprio. Clooney, porém, já
conseguiu algo quase tão bom quanto isso: ser George Clooney.
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