Edição 1824 . 15 de outubro de 2003

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Livros
Um ingresso para o inferno

Em Pela Bandeira do Paraíso, Jon Krakauer
expõe a natureza do fundamentalismo a
partir de um crime cometido por mórmons


Antonio Gonçalves Filho


AP
Dan Lafferty, que matou a cunhada e a sobrinha a facadas: sem arrependimento
Trechos do livro


O americano Jon Krakauer é um aluno aplicado do escritor Truman Capote. Em outras palavras, formou-se na boa tradição do jornalismo literário americano e adora missões impossíveis. Há sete anos, escalou o Everest, acompanhando a expedição do neozelandês Rob Hall. Escapou com vida para narrar a aventura desastrosa, no best-seller No Ar Rarefeito. Mal recuperado da morte de seus companheiros, começou a trabalhar em outro projeto ambicioso: contar a vida de fundamentalistas da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mais conhecida como Igreja Mórmon. Pela Bandeira do Paraíso – Uma História de Fé e Violência (tradução de S. Duarte; Companhia das Letras; 384 páginas; 39,50 reais) é um livro bem mais polêmico, e ainda mais arrebatador, que o da tragédia do Himalaia. Como em A Sangue Frio de Capote, Krakauer reconstitui até os mínimos detalhes um episódio policial que abalou os Estados Unidos. Em 1984, os irmãos Dan e Ron Lafferty, ambos fundamentalistas mórmons, assassinaram a facadas sua cunhada e a filha de 15 meses desta, sob alegação de que Deus lhes havia ordenado diretamente as mortes.

Pela Bandeira do Paraíso faz desse crime um alerta sobre os perigos da intolerância e do fanatismo religioso. Krakauer entrevistou Dan Lafferty na prisão (seu irmão Ron foi executado) e não notou o menor sinal de arrependimento. Mais: ele avalia que Lafferty está "em seu juízo perfeito", no que os psiquiatras contratados pelos tribunais concordam. Se No Ar Rarefeito denunciava a ganância dos promotores de expedições à montanha mais alta do planeta, Pela Bandeira do Paraíso avança num sentido muito maior. O que Krakauer quer mostrar é que os fundamentalistas mórmons são tão perigosos quanto os terroristas islâmicos que explodiram as torres gêmeas do World Trade Center. O problema, defende seu livro, não está na coloração que o fundamentalismo toma, e sim no fundamentalismo em si – ou seja, na certeza de que se está de posse de uma verdade transmitida por Deus, que se sobrepõe a qualquer outra verdade e também às leis dos homens.


Fotos AP
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Mitchell e sua mulher, Wanda Barzee: seqüestro, estupro e escravização de uma menina de 14 anos

Apesar de ter apenas 11 milhões de adeptos, uma gota perto do oceano islâmico ou cristão, os mórmons nos Estados Unidos são mais numerosos que os judeus e mais influentes que os presbiterianos e episcopais. Os mórmons fundamentalistas e os menos exaltados compartilham preconceitos – por exemplo, o horror à miscigenação (casamento inter-racial seria coisa do demônio) e à homossexualidade (passível de acarretar "morte imediata", segundo a lei divina na qual acreditam). Mas, felizmente, é minoritário o grupo de fanáticos do qual saíram os irmãos Lafferty ou Brian David Mitchell, que seqüestrou a menina Elizabeth Smart, de 14 anos, a estuprou e, com o apoio de sua mulher, a manteve como sua esposa durante nove meses. No geral, os mórmons abandonaram práticas como a poligamia e querem distância dos extremistas, que representam um embaraço para sua imagem de comunidade estável. Por isso, o livro de Krakauer foi um choque para eles. Os fundamentalistas, pelo contrário, até gostaram de Pela Bandeira do Paraíso. Na visão dessa gente, o autor foi fiel na descrição de suas posições religiosas e políticas. Isso explica, em parte, por que Krakauer não virou alvo de ameaças, como o escritor anglo-indiano Salman Rushdie, condenado pelos aiatolás islâmicos ao publicar Os Versos Satânicos.


Fotos AP
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Krakauer: aluno aplicado do Truman Capote de A Sangue Frio

Krakauer, que cresceu entre os mórmons do Estado do Oregon, viajou centenas de quilômetros no Oeste americano e atravessou o cafundó mexicano para conhecer comunidades de fundamentalistas mórmons perdidas no tempo. Nelas, testemunhou casos de incesto e violência sexual contra menores – como o de uma menina que se casou aos 14 anos e se tornou, de um dia para outro, mãe de criação dos 31 filhos do marido. Os fundamentalistas defendem tais desvios como uma parte crucial da doutrina mórmon. Na visão deles, seus irmãos mais convencionais é que corromperam os ensinamentos de Joseph Smith, o fundador da religião. Em 1830, o americano Smith disse ter desenterrado placas de ouro com revelações divinas, escritas numa língua exótica e decifrada com a ajuda de óculos munidos de lentes sobrenaturais. As revelações assegurariam ser ele o profeta escolhido para conduzir seu povo ao paraíso. Segundo Smith, a poligamia também estava prevista nas tais placas. O patriarca publicou, sob outro nome, um livro, intitulado O Pacificador, no qual defendia o casamento "plural" ou "celestial". Pressionado pela opinião pública, Smith renunciou à poligamia e ao livro, dobrando-se à Constituição americana. Mas, de acordo com Krakauer, ele nunca deixou de ser um absolutista inflexível. Joseph Smith foi morto a tiros numa cadeia do Estado de Illinois, em 1844, fato que não prejudicou a extraordinária capacidade de sua igreja de atrair adeptos. E desde então, nas mãos de extremistas, ela tem-se tornado pretexto para aberrações como a pedofilia, ou chacinas como a cometida pelos irmãos Lafferty.

 
 
 
 
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