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Livros
Um
ingresso para o
inferno
Em
Pela Bandeira do Paraíso, Jon Krakauer
expõe a natureza do fundamentalismo a
partir de um crime cometido por mórmons

Antonio
Gonçalves Filho
AP
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| Dan
Lafferty, que matou a cunhada e a sobrinha a facadas: sem arrependimento
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O americano Jon Krakauer é um aluno aplicado do escritor
Truman Capote. Em outras palavras, formou-se na boa tradição
do jornalismo literário americano e adora missões
impossíveis. Há sete anos, escalou o Everest, acompanhando
a expedição do neozelandês Rob Hall. Escapou
com vida para narrar a aventura desastrosa, no best-seller No
Ar Rarefeito. Mal recuperado da morte de seus companheiros,
começou a trabalhar em outro projeto ambicioso: contar a
vida de fundamentalistas da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos
Últimos Dias, mais conhecida como Igreja Mórmon. Pela
Bandeira do Paraíso Uma História de Fé
e Violência (tradução de S. Duarte;
Companhia das Letras; 384 páginas; 39,50 reais) é
um livro bem mais polêmico, e ainda mais arrebatador, que
o da tragédia do Himalaia. Como em A Sangue Frio de
Capote, Krakauer reconstitui até os mínimos detalhes
um episódio policial que abalou os Estados Unidos. Em 1984,
os irmãos Dan e Ron Lafferty, ambos fundamentalistas mórmons,
assassinaram a facadas sua cunhada e a filha de 15 meses desta,
sob alegação de que Deus lhes havia ordenado diretamente
as mortes.
Pela
Bandeira do Paraíso faz desse crime um alerta sobre os
perigos da intolerância e do fanatismo religioso. Krakauer
entrevistou Dan Lafferty na prisão (seu irmão Ron
foi executado) e não notou o menor sinal de arrependimento.
Mais: ele avalia que Lafferty está "em seu juízo perfeito",
no que os psiquiatras contratados pelos tribunais concordam. Se
No Ar Rarefeito denunciava a ganância dos promotores
de expedições à montanha mais alta do planeta,
Pela Bandeira do Paraíso avança num sentido
muito maior. O que Krakauer quer mostrar é que os fundamentalistas
mórmons são tão perigosos quanto os terroristas
islâmicos que explodiram as torres gêmeas do World Trade
Center. O problema, defende seu livro, não está na
coloração que o fundamentalismo toma, e sim no fundamentalismo
em si ou seja, na certeza de que se está de posse
de uma verdade transmitida por Deus, que se sobrepõe a qualquer
outra verdade e também às leis dos homens.
Fotos AP
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AP
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| Mitchell
e sua mulher, Wanda Barzee: seqüestro, estupro e escravização
de uma menina de 14 anos |
Apesar
de ter apenas 11 milhões de adeptos, uma gota perto do oceano
islâmico ou cristão, os mórmons nos Estados
Unidos são mais numerosos que os judeus e mais influentes
que os presbiterianos e episcopais. Os mórmons fundamentalistas
e os menos exaltados compartilham preconceitos por exemplo,
o horror à miscigenação (casamento inter-racial
seria coisa do demônio) e à homossexualidade (passível
de acarretar "morte imediata", segundo a lei divina na qual acreditam).
Mas, felizmente, é minoritário o grupo de fanáticos
do qual saíram os irmãos Lafferty ou Brian David Mitchell,
que seqüestrou a menina Elizabeth Smart, de 14 anos, a estuprou
e, com o apoio de sua mulher, a manteve como sua esposa durante
nove meses. No geral, os mórmons abandonaram práticas
como a poligamia e querem distância dos extremistas, que representam
um embaraço para sua imagem de comunidade estável.
Por isso, o livro de Krakauer foi um choque para eles. Os fundamentalistas,
pelo contrário, até gostaram de Pela Bandeira do
Paraíso. Na visão dessa gente, o autor foi fiel
na descrição de suas posições religiosas
e políticas. Isso explica, em parte, por que Krakauer não
virou alvo de ameaças, como o escritor anglo-indiano Salman
Rushdie, condenado pelos aiatolás islâmicos ao publicar
Os Versos Satânicos.
Fotos AP
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AP
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| Krakauer:
aluno aplicado do Truman Capote de A Sangue Frio |
Krakauer,
que cresceu entre os mórmons do Estado do Oregon, viajou
centenas de quilômetros no Oeste americano e atravessou o
cafundó mexicano para conhecer comunidades de fundamentalistas
mórmons perdidas no tempo. Nelas, testemunhou casos de incesto
e violência sexual contra menores como o de uma menina
que se casou aos 14 anos e se tornou, de um dia para outro, mãe
de criação dos 31 filhos do marido. Os fundamentalistas
defendem tais desvios como uma parte crucial da doutrina mórmon.
Na visão deles, seus irmãos mais convencionais é
que corromperam os ensinamentos de Joseph Smith, o fundador da religião.
Em 1830, o americano Smith disse ter desenterrado placas de ouro
com revelações divinas, escritas numa língua
exótica e decifrada com a ajuda de óculos munidos
de lentes sobrenaturais. As revelações assegurariam
ser ele o profeta escolhido para conduzir seu povo ao paraíso.
Segundo Smith, a poligamia também estava prevista nas tais
placas. O patriarca publicou, sob outro nome, um livro, intitulado
O Pacificador, no qual defendia o casamento "plural" ou "celestial".
Pressionado pela opinião pública, Smith renunciou
à poligamia e ao livro, dobrando-se à Constituição
americana. Mas, de acordo com Krakauer, ele nunca deixou de ser
um absolutista inflexível. Joseph Smith foi morto a tiros
numa cadeia do Estado de Illinois, em 1844, fato que não
prejudicou a extraordinária capacidade de sua igreja de atrair
adeptos. E desde então, nas mãos de extremistas, ela
tem-se tornado pretexto para aberrações como a pedofilia,
ou chacinas como a cometida pelos irmãos Lafferty.
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