Edição 1824 . 15 de outubro de 2003

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Consumo
Garçom, mais uma pílula

Empresa vende na internet
um comprimido que promete
acabar com a ressaca


Adriana Negreiros

 
Montagem sobre foto Photodisc

Entre outras pesquisas que consumiram tempo e recursos, os cientistas soviéticos tentaram, nos anos da Cortina de Ferro, desenvolver uma pílula que permitisse aos espiões da KGB tomar tanto álcool quanto desejassem sem se embebedar. A idéia era permitir a confraternização em torno da garrafa até que o interlocutor, sob o efeito da bebida, revelasse segredos que o agente não esqueceria nas horas seguintes. A RU-21, a pílula que resultou dessas pesquisas, foi um fracasso. Os arapongas russos saíam das noitadas tão bêbados quanto antes, e o projeto foi abandonado. Mas não para sempre. Embora não evitasse o pifão, o produto, de acordo com os pesquisadores, mostrou-se eficaz no combate aos efeitos posteriores do álcool, como a dor de cabeça, a vertigem, o enjôo e os outros sintomas que denunciam, na manhã seguinte, os exageros de uma noitada. Como outros segredos comunistas, esse também tornou-se público depois da dissolução da União Soviética. Em 1999, a Academia de Ciência da Rússia, responsável por esses estudos, revelou a fórmula de sua descoberta.


Caixa com vinte unidades da RU-21: dois comprimidos depois de cada par de drinques

Agora, a RU-21 está à venda na internet, e faz sucesso principalmente em Hollywood, entre artistas que precisam apresentar-se inteiros nos sets de filmagem depois de alguns exageros em festas e coquetéis. "Uso para proteger meu fígado e minha pele", diz a modelo americana Beverly Peele, uma entusiasta do novo produto. De acordo com a empresa que comercializa a pílula, a Spirit Sciences, o suplemento age também contra os malefícios do álcool no organismo. "As ressacas custam à economia dos Estados Unidos mais de 158 bilhões de dólares por ano em faltas ao trabalho e baixo rendimento", afirma Emil Chiaberi, diretor da companhia, que garante não ter gasto um centavo em publicidade. "Um produto como esse não precisa disso." Uma cartela com vinte pílulas custa 5 dólares e a posologia consiste em tomar dois comprimidos a cada dois drinques.

A RU-21 é vendida como um suplemento dietético e por isso não precisa de aprovação da Food and Drug Administration, o órgão americano responsável pela inspeção de alimentos e medicamentos. Quando uma pessoa ingere bebida alcoólica, seu fígado transforma as moléculas de etanol em uma substância tóxica chamada acetaldeído. É essa substância que causa os efeitos desagradáveis posteriores. A pílula, dizem seus defensores, acelera o metabolismo do álcool e transforma o acetaldeído em ácido acético, uma substância menos agressiva que não provoca ressaca. Médicos e associações de combate ao alcoolismo não gostam da novidade, vista como um novo estímulo à bebedeira. Uma das principais críticas é sobre a ausência de testes confiáveis que analisem os efeitos de longo prazo da ingestão dessa pílula. Considerando que o próprio álcool já causa danos irreversíveis por efeito cumulativo, a ponderação faz sentido.

 
 
 
 
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