|
|
Justiça
O Brasil afogado em processos
Na tentativa de conter a pressão
por mudanças,
o Judiciário mais
uma vez reage às críticas

Alexandre Secco
Montagem sobre fotos de Ana Araújo/Heloisa
Bortz
 |
| Jobim,
Bastos e Corrêa: a reforma do Judiciário vai acabar saindo |
O
Executivo e o Legislativo foram virados de cabeça para baixo
nos últimos anos. Um presidente da República acabou
removido do cargo após longa investigação,
inúmeros governadores e prefeitos precisaram se explicar
em CPIs, e as urnas têm ajudado a afastar os políticos
lambões. Agora mesmo há uma megainvestigação
em curso na Receita Federal que já custou o emprego do principal
auxiliar do secretário Jorge Rachid e provocou uma faxina
na superintendência do Rio de Janeiro. No Legislativo, registrou-se
um processo de depuração semelhante que culminou com
a cassação de senadores e deputados. E a todo instante
se noticia o início de uma nova investigação
contra este ou aquele parlamentar. Além da ação
tópica sobre os figurões, essas providências
produziram um benefício ainda maior: a discussão sobre
a maneira de funcionar dos próprios sistemas Executivo e
Legislativo. Com isso, essas instituições estão
aumentando sua eficiência, aprendendo com os erros passados
e corrigindo-os.
Já no Judiciário, os magistrados muitas vezes parecem
viver num mundo paralelo, com regras próprias, onde a única
lei em comum com os outros poderes é a da gravidade. E ai
de quem se sentir no direito de apontar os defeitos dessa máquina
emperrada. Na semana passada, quem experimentou a fúria dos
magistrados brasileiros foi a paquistanesa Asma Jahangir, relatora
da ONU para execuções sumárias. Ela teceu comentários
críticos sobre o Judiciário e acabou sob o tiroteio
dos canhões desse poder ao sugerir que as Nações
Unidas montassem uma equipe de observação da Justiça
brasileira. O primeiro a atacá-la foi o presidente do Supremo
Tribunal Federal, Maurício Corrêa (veja
quadro).
Apesar de exagerada, a reação dos magistrados a toda
e qualquer crítica não deve ser vista como uma coisa
fora do comum. Essas reclamações corporativas fazem
parte dos processos de mudança. E cresce no Brasil a consciência
de que é preciso modernizar e agilizar o Poder Judiciário.
Até os juízes já perceberam essa onda. "Não
há muito o que fazer contra a reforma, que é iminente.
Nossa vez vai chegar, cedo ou tarde", disse a VEJA um ministro do
Supremo Tribunal Federal. Quando o governo federal decidiu anos
atrás iniciar as privatizações, os estatizantes
reagiram de maneira iracunda. Parecia que as estatais seriam eternizadas,
mas a reação acabou engolida e o contribuinte venceu
a guerra. No início do debate sobre o fim dos privilégios
nas aposentadorias e pensões no poder público, a corporação
dos servidores se enfureceu, adiou as votações, mas
perdeu a batalha. O contribuinte mais uma vez saiu-se vencedor.
O governo Lula montou uma equipe no Ministério da Justiça
encarregada de propor uma reforma no Judiciário. Entre os
juízes, a iniciativa é tratada como intromissão.
O projeto coordenado pelo ministro Márcio Thomaz Bastos prevê
um ataque aos problemas em duas frentes. Primeiro, o governo quer
tentar estimular a adoção de práticas gerenciais
mais eficientes nos tribunais. Nos Estados Unidos, os juízes
contam com a ajuda de profissionais especialistas em administrar
o andamento dos processos. No Brasil, o trabalho é feito
pelos próprios juízes, que, na sua maioria, não
dispõem de informações suficientes a respeito
da quantidade e do tipo de ações que aguardam julgamento.
O governo encomendou uma pesquisa para tentar traçar um perfil
da Justiça e criou um concurso para premiar as melhores idéias
administrativas. Na primeira etapa, as reformas não dependem
da aprovação ou da mudança de leis. Num segundo
momento, o governo fala em mudar a legislação.
Há um projeto de reforma do Judiciário tramitando
no Congresso há doze anos. Como a discussão não
avançou em quase nada desde então e a demanda judicial
aumentou muito no período, a situação nos tribunais
se degradou. A quantidade de ações na Justiça
comum dobrou nesses doze anos. Nos tribunais superiores, o total
de processos quadruplicou. O resultado é que os juízes
vivem afogados em trabalho, e muitos processos já consomem
mais de dez anos até ser julgados. Segundo o ministro Nelson
Jobim, do Supremo Tribunal Federal, essa trabalheira toda seria
dispensável se algumas leis em vigor fossem modificadas.
Ele cita como exemplo o caso do STF, que acaba julgando várias
vezes um mesmo tipo de causa. De acordo com as contas, o Tribunal
recebeu no ano passado apenas 600 questões diferentes. As
demais 171.400 ações que bateram a suas portas envolviam
repetições de pedidos que já haviam sido concedidos
ou negados nas tais 600 ações. Ou seja, não
precisariam ter sido julgadas novamente.
À
sobrecarga de trabalho soma-se um sistema processual ineficiente,
que permite recursos excessivos e que se dedica mais a discussões
de aspectos formais que a discussões sobre o mérito.
Alguns advogados se divertem dizendo que é mais importante
não perder um prazo do que defender a inocência do
cliente. No Brasil, a probabilidade de um assassino ser condenado
e cumprir a pena até o fim é de apenas 1%. Para efeito
de comparação, a taxa é de 40% nos Estados
Unidos. O funcionamento do Judiciário interfere em praticamente
todos os aspectos da vida das pessoas e das empresas. Quando um
banco de investimento ou uma empresa decide investir num país,
é comum colocar na balança os pontos positivos e negativos
do lugar. No caso brasileiro, o Poder Judiciário está
sempre no topo das mazelas nacionais, ao lado da péssima
distribuição de renda, da criminalidade e da corrupção.
Poucas vezes se viu um presidente com posições tão
duras sobre a Justiça quanto Lula. Em um pronunciamento no
começo do ano, ele já havia se referido ao Judiciário
como uma "caixa preta". Em conversa com assessores, o presidente
admitiu que poderia ter sido mais elegante na escolha da expressão,
mas gostou do efeito que sua frase provocou. Discursos presidenciais
pedindo agilidade à Justiça são uma tremenda
novidade. Levantamento realizado pelo Superior Tribunal de Justiça
mostra que os governos são parte interessada em cerca de
80% das ações que tramitam nos tribunais superiores,
em grande número delas como réu. Ou seja, a Justiça
lenta ajuda o Tesouro Nacional. Como o governo nunca se mexeu para
mudar a legislação que impede a administração
pública de fazer acordos, suas ações atravancam
a Justiça. O governo ganha tempo e não precisa pagar
o que deve. Mudar essa regra poderia ser um bom começo para
deixar a Justiça respirar.
|
O
verdadeiro escândalo
A
observadora da Organização das Nações
Unidas
registrou irregularidades e crimes no Brasil
AP
 |
| Asma,
com Lula, em Brasília: os juízes ficaram
alvoroçados |
Em
sua visita de três semanas ao Brasil, a paquistanesa
Asma Jahangir, relatora da ONU para execuções
sumárias, deu várias declarações
públicas. Em São Paulo, escandalizou-se
com uma unidade da Febem que hospeda 500 adolescentes
onde cabem 62 e nenhum juiz brasileiro comentou
a denúncia. No Rio de Janeiro, após visitar
favelas e emocionar-se com depoimentos de mulheres cujos
filhos foram assassinados, ela contou ter visto "um
quadro miserável, triste, em que não há
justiça" e nenhum juiz disse palavra.
Em seu giro, que incluiu visita a nove cidades, ela
ouviu o depoimento de duas testemunhas de crimes que
reclamaram da falta de proteção policial,
e ambas foram assassinadas dias depois e não
se viu, de novo, reação alguma das autoridades
do Judiciário. Em Brasília, após
ser recebida pelo presidente Luiz Inácio Lula
da Silva e contar suas impressões da viagem,
Asma Jahangir disse que pretende sugerir à ONU
o envio de um relator ao Brasil para vasculhar os meandros
do Poder Judiciário bem, aí sim,
o mundo da toga veio abaixo, escandalizado com a "ingerência".
O ministro Maurício Corrêa, presidente
da mais alta corte brasileira, o Supremo Tribunal Federal,
chegou a dizer que a relatora da ONU era "atrevida"
e não tinha "legitimidade" para falar da Justiça
brasileira. O presidente do Tribunal Superior do Trabalho
(TST), ministro Francisco Fausto, fez uma comparação
irônica do Brasil com o Iraque, caso as Nações
Unidas mandem um relator para radiografar o Judiciário
nacional. "Isso nos põe no mesmo plano do Iraque.
Nós somos o quê? Uma república submetida
a um controle internacional?". Em seguida, o ministro
Francisco Fausto, sem dar uma única palavra a
respeito dos maus-tratos a delinqüentes juvenis,
da execução de testemunhas, da chacina
nas favelas, sublinhou sua indignação
com a observadora da ONU com a seguinte preciosidade:
"Parece que nada mais escandaliza o Brasil, todo mundo
aceita tudo com naturalidade". É...
Asma Jahangir, 51 anos, casada, três filhos, começou
seu trabalho em defesa dos direitos humanos ainda em
casa, quando seu pai, militante de oposição,
foi mantido em prisão domiciliar pela repressão
paquistanesa e ela reagiu o quanto pôde.
Formada em direito, montou o primeiro escritório
de advocacia para defender as mulheres do Paquistão,
rotineiramente submetidas à violência doméstica,
e despertou a ira da parcela mais conservadora da sociedade
de seu país, incluindo, é claro, insistentes
acusações de falta de patriotismo. Em
sua batalha, ela e seus filhos já sofreram duas
tentativas de atentado em Islamabad. Hoje, Asma mora
em Genebra, na Suíça. Em sua carreira,
talvez tenha algo a ensinar a magistrados em geral.
Recusou-se a tornar-se a primeira juíza mulher
do Paquistão, para não ter de seguir as
leis atrasadas de seu país como a permissão
de violência contra a mulher, a autorização
para o trabalho infantil e a pena de morte. Ela tem
apenas 1,52 metro de altura mas, como se vê,
tem peso de sobra para sustentar o que afirma.
|
|
|