Edição 1824 . 15 de outubro de 2003

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Celebridade
E com vocês, o governator

Política como espetáculo é pouco: nada
se compara à eleição de Schwarzenegger,
o novo governador da Califórnia


Vilma Gryzinski


Fotos AP
O SONHO AMERICANO
Arnold, o Grande: menino pobre na Áustria, fisioculturista ridículo, ator de sucesso, casamento no clã Kennedy e, agora, político

Se este filme for um fiasco, já se sabe de quem é a culpa: dos espectadores, quer dizer, eleitores. Se tiver um final feliz, a glória, como sempre, será do mocinho. Ou moção, considerando-se o tamanho dos bíceps e de todo o resto da titânica musculatura de Arnold Schwarzenegger, o mais novo e surpreendente astro da política americana. Tudo o que já se falou – e o que aconteceu também – sobre a política como espetáculo e as fronteiras difusas entre realidade e ficção nesta era de reality shows empalidece diante da vitória do ator na eleição para governador da Califórnia, o mais rico Estado americano, a quinta maior economia do mundo. A vitória de Schwarzenegger (ou Arnold, como dizem os americanos, em prol da economia de espaço e de pronúncia) não tem precedentes ou comparações, nem em Ronald Reagan, o outro ator de cinema que passou pelo mesmo cargo antes de chegar à Presidência, nem em Jesse Ventura, a outra montanha de músculos que desembarcou neofitamente num governo estadual americano. Arnold é um fenômeno único, o primeiro de sua estatura, sem trocadilhos, e fama a estrear na política de maneira tão estrondosa. Pode ser visto como uma palhaçada, um achincalhe, uma peça que os eleitores mais ricos do país mais rico da história da humanidade pregaram em si mesmos. Ou apenas como mais uma excentricidade procedente de um Estado já naturalmente cheio de esquisitices, onde é até natural a simbiose entre o que acontece dentro e fora das telas de cinema.


Fotos Reuters
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RETRATO DO IMPÉRIO
Do Iraque (à esq.) ao Afeganistão: 27 filmes, 100 milhões de dólares e admiração universal

O julgamento da história ainda vai levar um certo tempo. Afinal, a vitória do ator ainda não foi plenamente assimilada, e todo mundo continua a se perguntar como um sujeito nascido no interior da Áustria, que chegou aos Estados Unidos em 1967 com 20 dólares no bolso e um título de mister Universo na bagagem, conseguiu ser eleito governador da Califórnia. As explicações se desdobram em no mínimo três facetas:

1. A primeira e mais evidente é a de Arnold, o super-herói. As fantasias salvacionistas do eleitorado no passado já se voltaram para líderes fortes, como militares com serviços comprovados no campo de batalha. O general Dwight Eisenhower, comandante supremo das forças aliadas na II Guerra Mundial, foi eleito presidente duas vezes. Arnold até agora só mostrou serviço nas telas, em que desde Conan, o Bárbaro até a série Exterminador do Futuro projetou uma imagem fabulosamente poderosa. "Por mais assustador que pareça, para muitos eleitores da Califórnia isso é razão suficiente para lhe dar as rédeas do governo", suspirou o colunista Bob Herbert, do jornal The New York Times. Muitos californianos, irritados por ser tratados como os novos bárbaros, ainda fazem birra e dizem que também contou pontos o corpo monumental de seu novo governador, especialmente apreciado num lugar que faz a intimidade das starlets brasileiras com as cirurgias plásticas parecer coisa de principiante.

2. Arnold, o antipolítico, foi o segundo fator de peso na vitória. O ator faturou pontos com a aversão universal aos políticos de carreira, particularmente arraigada na Califórnia, onde o governador defenestrado, Gray Davis, foi um fracasso de doer. O papel de outsider, o sujeito que não tem nada a ver com os maus hábitos da categoria, lhe cai à perfeição. Até com uma vassoura, à la Jânio Quadros, ele apareceu no fim da campanha, prometendo varrer os processos viciados. O antipolítico eficaz tem de ter uma história de sucesso em outras esferas, como o atual chefe de governo da Itália, o magnata da mídia Silvio Berlusconi. Ou, naturalmente, um ator com um currículo de 27 filmes, que faturaram no total 1,6 bilhão de dólares, e fortuna pessoal de 100 milhões, conhecido e admirado nos mais remotos rincões do planeta, onde chegou a personificar a própria vertente mais truculenta do império – inclusive em lugares onde os americanos em geral não são nada populares.


Fotos Reuters
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PÁLIDOS PRECEDENTES
Reagan, que agora parece modelo de estadista, e Jesse Ventura (batendo), que foi da luta livre ao governo de Minnesota: realidade e ficção

3. Arnold, a encarnação do sonho americano. "Cheguei aqui com absolutamente nada e a Califórnia me deu absolutamente tudo", louvou o governador eleito, celebrando a saga do menino austríaco que até os 14 anos morou numa casa sem banheiro com água corrente e fez fortuna no Estado dos imigrantes por excelência. Mesmo entre o vasto eleitorado latino, que não costuma votar em republicanos nem em anglo-saxões, como dizem, Arnold teve 30% dos votos.

A vitória do mais famoso fortão das telas foi tão impressionante que, visto à sua luz, o ex-presidente Ronald Reagan passou a ser considerado um exemplo de normalidade por gente que até então nunca se deixaria flagrar elogiando um dos grandes ícones da direita. "Reagan contracenou com um chimpanzé, mas foi um competente governador da Califórnia, tinha experiência política como presidente do sindicato dos atores e também um conjunto de robustas convicções", concedeu o jornal inglês The Independent, que qualificou a vitória de Schwarzenegger como "profundamente deprimente para aqueles que acreditam nos ideais democráticos". Até Jesse Ventura, o caricatural grandalhão da luta livre, tem um currículo mais alentado que o de Arnold: foi prefeito de uma cidade média antes de chegar a governador de Minnesota (onde se deu mal e caiu fora). O exterminador do futuro também passou boa parte da campanha tentando exterminar o passado de baixarias com mulheres, elogios enviesados a Hitler e até uma coleção secreta e, dizem, interessantíssima de fotos em pêlo tiradas pelo falecido Robert Mapplethorpe, um obcecado por corpos masculinos e variações sexuais de fazer enrubescer o mais liberal dos californianos.

Um décimo disso bastaria para detonar as aspirações de qualquer candidato normal. Em Arnold Schwarzenegger nada colou. Como alguns dos personagens que interpretou no cinema, ele entrou e saiu da campanha praticamente invulnerável. No fim, até o eleitorado feminino o apoiou em massa, apesar das quinze mulheres que apareceram contando como ele as apertou, apalpou, passou a mão ou tentou tirar peças de roupa, num padrão de comportamento que lembra menos um galã viril e conquistador e mais algum personagem babão de Nelson Rodrigues. Para neutralizar a saraivada de histórias sórdidas, Arnold contou com a força fundamental da mulher, Maria Shriver. Na mais pura tradição das mulheres da família Kennedy – ela é filha de Eunice, irmã do presidente assassinado –, Maria, uma conhecida jornalista de televisão, fechou com o marido até o fim. A favor dele pesaram também a campanha bem-humorada e a obstinação legendária, exemplificada nas 1 400 repetições diárias de exercícios feitos na época de fisioculturista para engrossar as panturrilhas, já grandes como troncos de coqueiro adulto. Até as idéias – sim, idéias! –, que não se encaixam no modelo esperado do brucutu de direita, o favoreceram. O governator, como será inevitavelmente chamado, é a favor do aborto, dos direitos iguais para homossexuais, da ação afirmativa para minorias e de alguma legislação de controle ambiental. Sua campanha bateu numa tecla só: enfrentar o pantagruélico déficit fiscal de 38 bilhões de dólares sem aumentar impostos nem cortar gastos com a educação, que na Califórnia consomem 40% do orçamento. Se conseguir esse milagre, poderá levar adiante seu plano expansionista: primeiro a Califórnia, depois os Estados Unidos (é sério: um senador vai propor emenda constitucional permitindo a eleição de estrangeiros naturalizados). Quem sabe até o mundo inteiro. Se não conseguir, ficará no capítulo das grandes excentricidades californianas – e servirá para confirmar a máxima segundo a qual a democracia não existe para eleger os melhores, mas para impedir que os piores se perpetuem no poder.

 
 
 
 
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