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Celebridade
E
com vocês, o governator
Política
como espetáculo é pouco: nada
se compara à eleição de Schwarzenegger,
o novo governador da Califórnia

Vilma
Gryzinski
Fotos AP
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O
SONHO AMERICANO
Arnold, o Grande: menino pobre na Áustria, fisioculturista
ridículo, ator de sucesso, casamento no clã Kennedy
e, agora, político |
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Se
este filme for um fiasco, já se sabe de quem é a culpa:
dos espectadores, quer dizer, eleitores. Se tiver um final feliz,
a glória, como sempre, será do mocinho. Ou moção,
considerando-se o tamanho dos bíceps e de todo o resto da
titânica musculatura de Arnold Schwarzenegger, o mais novo
e surpreendente astro da política americana. Tudo o que já
se falou e o que aconteceu também sobre a política
como espetáculo e as fronteiras difusas entre realidade e
ficção nesta era de reality shows empalidece diante
da vitória do ator na eleição para governador
da Califórnia, o mais rico Estado americano, a quinta maior
economia do mundo. A vitória de Schwarzenegger (ou Arnold,
como dizem os americanos, em prol da economia de espaço e
de pronúncia) não tem precedentes ou comparações,
nem em Ronald Reagan, o outro ator de cinema que passou pelo mesmo
cargo antes de chegar à Presidência, nem em Jesse Ventura,
a outra montanha de músculos que desembarcou neofitamente
num governo estadual americano. Arnold é um fenômeno
único, o primeiro de sua estatura, sem trocadilhos, e fama
a estrear na política de maneira tão estrondosa. Pode
ser visto como uma palhaçada, um achincalhe, uma peça
que os eleitores mais ricos do país mais rico da história
da humanidade pregaram em si mesmos. Ou apenas como mais uma excentricidade
procedente de um Estado já naturalmente cheio de esquisitices,
onde é até natural a simbiose entre o que acontece
dentro e fora das telas de cinema.
Fotos Reuters
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ters
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RETRATO
DO IMPÉRIO
Do Iraque (à esq.) ao Afeganistão: 27 filmes,
100 milhões de dólares e admiração
universal |
O julgamento
da história ainda vai levar um certo tempo. Afinal, a vitória
do ator ainda não foi plenamente assimilada, e todo mundo
continua a se perguntar como um sujeito nascido no interior da Áustria,
que chegou aos Estados Unidos em 1967 com 20 dólares no bolso
e um título de mister Universo na bagagem, conseguiu ser
eleito governador da Califórnia. As explicações
se desdobram em no mínimo três facetas:
1.
A primeira e mais evidente é a de Arnold, o super-herói.
As fantasias salvacionistas do eleitorado no passado já se
voltaram para líderes fortes, como militares com serviços
comprovados no campo de batalha. O general Dwight Eisenhower, comandante
supremo das forças aliadas na II Guerra Mundial, foi eleito
presidente duas vezes. Arnold até agora só mostrou
serviço nas telas, em que desde Conan, o Bárbaro
até a série Exterminador do Futuro projetou
uma imagem fabulosamente poderosa. "Por mais assustador que pareça,
para muitos eleitores da Califórnia isso é razão
suficiente para lhe dar as rédeas do governo", suspirou o
colunista Bob Herbert, do jornal The New York Times. Muitos
californianos, irritados por ser tratados como os novos bárbaros,
ainda fazem birra e dizem que também contou pontos o corpo
monumental de seu novo governador, especialmente apreciado num lugar
que faz a intimidade das starlets brasileiras com as cirurgias plásticas
parecer coisa de principiante.
2.
Arnold, o antipolítico, foi o segundo fator de peso na vitória.
O ator faturou pontos com a aversão universal aos políticos
de carreira, particularmente arraigada na Califórnia, onde
o governador defenestrado, Gray Davis, foi um fracasso de doer.
O papel de outsider, o sujeito que não tem nada a
ver com os maus hábitos da categoria, lhe cai à perfeição.
Até com uma vassoura, à la Jânio Quadros, ele
apareceu no fim da campanha, prometendo varrer os processos viciados.
O antipolítico eficaz tem de ter uma história de sucesso
em outras esferas, como o atual chefe de governo da Itália,
o magnata da mídia Silvio Berlusconi. Ou, naturalmente, um
ator com um currículo de 27 filmes, que faturaram no total
1,6 bilhão de dólares, e fortuna pessoal de 100 milhões,
conhecido e admirado nos mais remotos rincões do planeta,
onde chegou a personificar a própria vertente mais truculenta
do império inclusive em lugares onde os americanos
em geral não são nada populares.
Fotos Reuters
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PÁLIDOS
PRECEDENTES
Reagan, que agora parece modelo de estadista, e Jesse Ventura
(batendo), que foi da luta livre ao governo de Minnesota:
realidade e ficção |
3.
Arnold, a encarnação do sonho americano. "Cheguei
aqui com absolutamente nada e a Califórnia me deu absolutamente
tudo", louvou o governador eleito, celebrando a saga do menino austríaco
que até os 14 anos morou numa casa sem banheiro com água
corrente e fez fortuna no Estado dos imigrantes por excelência.
Mesmo entre o vasto eleitorado latino, que não costuma votar
em republicanos nem em anglo-saxões, como dizem, Arnold teve
30% dos votos.
A
vitória do mais famoso fortão das telas foi tão
impressionante que, visto à sua luz, o ex-presidente Ronald
Reagan passou a ser considerado um exemplo de normalidade por gente
que até então nunca se deixaria flagrar elogiando
um dos grandes ícones da direita. "Reagan contracenou com
um chimpanzé, mas foi um competente governador da Califórnia,
tinha experiência política como presidente do sindicato
dos atores e também um conjunto de robustas convicções",
concedeu o jornal inglês The Independent, que qualificou
a vitória de Schwarzenegger como "profundamente deprimente
para aqueles que acreditam nos ideais democráticos". Até
Jesse Ventura, o caricatural grandalhão da luta livre, tem
um currículo mais alentado que o de Arnold: foi prefeito
de uma cidade média antes de chegar a governador de Minnesota
(onde se deu mal e caiu fora). O exterminador do futuro também
passou boa parte da campanha tentando exterminar o passado de baixarias
com mulheres, elogios enviesados a Hitler e até uma coleção
secreta e, dizem, interessantíssima de fotos em pêlo
tiradas pelo falecido Robert Mapplethorpe, um obcecado por corpos
masculinos e variações sexuais de fazer enrubescer
o mais liberal dos californianos.
Um
décimo disso bastaria para detonar as aspirações
de qualquer candidato normal. Em Arnold Schwarzenegger nada colou.
Como alguns dos personagens que interpretou no cinema, ele entrou
e saiu da campanha praticamente invulnerável. No fim, até
o eleitorado feminino o apoiou em massa, apesar das quinze mulheres
que apareceram contando como ele as apertou, apalpou, passou a mão
ou tentou tirar peças de roupa, num padrão de comportamento
que lembra menos um galã viril e conquistador e mais algum
personagem babão de Nelson Rodrigues. Para neutralizar a
saraivada de histórias sórdidas, Arnold contou com
a força fundamental da mulher, Maria Shriver. Na mais pura
tradição das mulheres da família Kennedy
ela é filha de Eunice, irmã do presidente assassinado
, Maria, uma conhecida jornalista de televisão, fechou
com o marido até o fim. A favor dele pesaram também
a campanha bem-humorada e a obstinação legendária,
exemplificada nas 1 400 repetições diárias
de exercícios feitos na época de fisioculturista para
engrossar as panturrilhas, já grandes como troncos de coqueiro
adulto. Até as idéias sim, idéias! ,
que não se encaixam no modelo esperado do brucutu de direita,
o favoreceram. O governator, como será inevitavelmente
chamado, é a favor do aborto, dos direitos iguais para homossexuais,
da ação afirmativa para minorias e de alguma legislação
de controle ambiental. Sua campanha bateu numa tecla só:
enfrentar o pantagruélico déficit fiscal de 38 bilhões
de dólares sem aumentar impostos nem cortar gastos com a
educação, que na Califórnia consomem 40% do
orçamento. Se conseguir esse milagre, poderá levar
adiante seu plano expansionista: primeiro a Califórnia, depois
os Estados Unidos (é sério: um senador vai propor
emenda constitucional permitindo a eleição de estrangeiros
naturalizados). Quem sabe até o mundo inteiro. Se não
conseguir, ficará no capítulo das grandes excentricidades
californianas e servirá para confirmar a máxima
segundo a qual a democracia não existe para eleger os melhores,
mas para impedir que os piores se perpetuem no poder.
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