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Ambiente
Um
salto para a vida
A aventura da preservação
das
jubartes que chegam todos os
anos para procriar na Bahia

Ronaldo
França, de Abrolhos
Enrico Marcovaldi/Instituto Baleia Jubarte/divulgação
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| Jubarte
no mar de Abrolhos: baleia é famosa pelo canto e pelas acrobacias
aéreas |
Apoiada
sobre a proa do barco de 15 metros de comprimento, navegando a 70
quilômetros de distância da costa, a bióloga
Márcia Engel, 36 anos, se prepara para atirar uma flecha.
O alvo, perseguido com cautelosa obstinação, é
uma baleia jubarte adulta. Ela dispara. A baleia sente a ferroada
e levanta a cauda para bater duas vezes na água com força
descomunal a mesma que usa para nadar e mover o corpo de
até 40 toneladas. Quer afastar a ameaça. O golpe é
desferido a 2 metros de Márcia, que permanece impassível.
A baleia se afasta. A bióloga volta para a cabine, como se
nada tivesse acontecido. Começa então a busca por
um novo animal. A perseguição e a ferroada aconteceram
há duas semanas, no mar do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos,
na costa da Bahia. Foi mais um dia na vida dos pesquisadores do
Instituto Baleia Jubarte, ONG que se dedica à preservação
das baleias que habitam a costa brasileira entre julho e novembro.
A flecha usada tem na ponta um tubo que retira um pequeno pedaço
de pele e gordura para análises laboratoriais.
As baleias jubarte estão espalhadas pelos quatro cantos do
planeta. As que freqüentam a costa brasileira chegam todos
os anos, da Antártica, para acasalar e ter seus filhotes
no litoral da Bahia e do Espírito Santo. Estima-se que nadem
6 000 quilômetros, durante um mês. Nesse trecho da costa
brasileira, a plataforma continental se estica mar adentro e propicia
condições ideais para sua procriação.
A temperatura amena da água e a ausência de seu principal
predador natural, a orca, são os mais relevantes fatores
apontados pelos cientistas. Em setembro, começa o período
em que o número de partos se multiplica. A estimativa é
que 250 filhotes terão nascido até o final da temporada,
que se encerra no próximo mês. O mar de Abrolhos vira
um berçário. É ali também que ocorre
um espetáculo único no mundo. As baleias colocam a
cauda para fora da água e permanecem até um dia inteiro
repetindo essa cena, com intervalos regulares para a respiração.
Por que fazem isso ainda é um mistério. Outra façanha,
essa uma característica típica da espécie,
são os saltos monumentais, cujo estrondo do choque do corpo
com a água pode ser ouvido de longe. O mar de Abrolhos então
vira um palco. E é comum que se avistem vários grupos
ao mesmo tempo.
Fotos Oscar Cabral
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| Márcia
Engel (à dir.), na proa do barco: biópsias nas baleias
que, em Abrolhos, dão um espetáculo único com a cauda |
Ainda
que sejam muitas, estudá-las é um desafio constante
para os pesquisadores. Aproximar-se de uma baleia não é
tarefa fácil. Não só pelo tamanho dos animais,
mas pelas próprias condições do mar. Hoje diretora-geral
do Instituto Baleia Jubarte, Márcia Engel acumula em sua,
digamos, "folha funcional" um naufrágio noturno num mar com
ondas de 5 metros, um tornado em alto mar e um golpe da cauda no
casco da embarcação que, segundo conta, "parecia ter
partido o barco ao meio". Nascido dentro do Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama),
o projeto ganhou vida própria em 1996, com a criação
da ONG para se juntar ao esforço mundial de restabelecer
a população de jubartes. Elas já foram 200
000 há três séculos. Mas a caça as reduziu
a 15 000 nos anos 60, o que conferiu à espécie a classificação
de "vulnerável à extinção". A boa notícia
é que, graças ao trabalho dos pesquisadores ao redor
do mundo, hoje já se estima em 35 000 o número de
jubartes nos oceanos. No Brasil elas são 2 500, segundo o
censo anual que o Instituto Baleia Jubarte realiza, quase o dobro
do que havia em 1998. E a população continua crescendo
a uma média de 11,5% ao ano no mundo.
Um dos maiores desafios de sua preservação no Brasil
a caça foi proibida mundialmente em 1966 é
a interação com os barcos de turismo. Essa é
uma das principais linhas de estudo dos pesquisadores. Diariamente,
uma equipe do Instituto Baleia Jubarte se posta no alto da principal
ilha de Abrolhos para observar o comportamento dos animais quando
os barcos se aproximam. É um trabalho penoso, em condições
precárias, que começa às 5 da manhã
e só termina quando o sol se põe. Enquanto isso, o
barco de pesquisa está no mar identificando cada espécime
(o desenho da cauda é como uma impressão digital do
animal), fotografando e coletando biópsias. Tudo é
anotado rigorosamente seguindo parâmetros internacionais de
pesquisa. As amostras de tecido têm servido para traçar
algumas das principais diretrizes na conservação desses
mamíferos no país. São preciosa fonte de descobertas.
Foi graças a elas que se constatou que, entre as baleias
que vêm ao Brasil anualmente, 55% são do sexo masculino.
Viu-se também que as jubartes brasileiras vêm, provavelmente,
do mar de Weddell ou de algum lugar próximo às ilhas
da Geórgia do Sul, na Antártica. Isso para falar nos
achados mais recentes. Para os leigos, podem parecer banalidades.
Para os cientistas, são descobertas preciosas, conquistadas
graças a uma mistura ímpar de obstinação,
rigor científico e ousadia.
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