Edição 1824 . 15 de outubro de 2003

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Ambiente
Um salto para a vida

A aventura da preservação das
jubartes que chegam todos os
anos para procriar na Bahia


Ronaldo França, de Abrolhos

 
Enrico Marcovaldi/Instituto Baleia Jubarte/divulgação
Jubarte no mar de Abrolhos: baleia é famosa pelo canto e pelas acrobacias aéreas

Apoiada sobre a proa do barco de 15 metros de comprimento, navegando a 70 quilômetros de distância da costa, a bióloga Márcia Engel, 36 anos, se prepara para atirar uma flecha. O alvo, perseguido com cautelosa obstinação, é uma baleia jubarte adulta. Ela dispara. A baleia sente a ferroada e levanta a cauda para bater duas vezes na água com força descomunal – a mesma que usa para nadar e mover o corpo de até 40 toneladas. Quer afastar a ameaça. O golpe é desferido a 2 metros de Márcia, que permanece impassível. A baleia se afasta. A bióloga volta para a cabine, como se nada tivesse acontecido. Começa então a busca por um novo animal. A perseguição e a ferroada aconteceram há duas semanas, no mar do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, na costa da Bahia. Foi mais um dia na vida dos pesquisadores do Instituto Baleia Jubarte, ONG que se dedica à preservação das baleias que habitam a costa brasileira entre julho e novembro. A flecha usada tem na ponta um tubo que retira um pequeno pedaço de pele e gordura para análises laboratoriais.

As baleias jubarte estão espalhadas pelos quatro cantos do planeta. As que freqüentam a costa brasileira chegam todos os anos, da Antártica, para acasalar e ter seus filhotes no litoral da Bahia e do Espírito Santo. Estima-se que nadem 6 000 quilômetros, durante um mês. Nesse trecho da costa brasileira, a plataforma continental se estica mar adentro e propicia condições ideais para sua procriação. A temperatura amena da água e a ausência de seu principal predador natural, a orca, são os mais relevantes fatores apontados pelos cientistas. Em setembro, começa o período em que o número de partos se multiplica. A estimativa é que 250 filhotes terão nascido até o final da temporada, que se encerra no próximo mês. O mar de Abrolhos vira um berçário. É ali também que ocorre um espetáculo único no mundo. As baleias colocam a cauda para fora da água e permanecem até um dia inteiro repetindo essa cena, com intervalos regulares para a respiração. Por que fazem isso ainda é um mistério. Outra façanha, essa uma característica típica da espécie, são os saltos monumentais, cujo estrondo do choque do corpo com a água pode ser ouvido de longe. O mar de Abrolhos então vira um palco. E é comum que se avistem vários grupos ao mesmo tempo.

 
Fotos Oscar Cabral
Márcia Engel (à dir.), na proa do barco: biópsias nas baleias que, em Abrolhos, dão um espetáculo único com a cauda

Ainda que sejam muitas, estudá-las é um desafio constante para os pesquisadores. Aproximar-se de uma baleia não é tarefa fácil. Não só pelo tamanho dos animais, mas pelas próprias condições do mar. Hoje diretora-geral do Instituto Baleia Jubarte, Márcia Engel acumula em sua, digamos, "folha funcional" um naufrágio noturno num mar com ondas de 5 metros, um tornado em alto mar e um golpe da cauda no casco da embarcação que, segundo conta, "parecia ter partido o barco ao meio". Nascido dentro do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o projeto ganhou vida própria em 1996, com a criação da ONG para se juntar ao esforço mundial de restabelecer a população de jubartes. Elas já foram 200 000 há três séculos. Mas a caça as reduziu a 15 000 nos anos 60, o que conferiu à espécie a classificação de "vulnerável à extinção". A boa notícia é que, graças ao trabalho dos pesquisadores ao redor do mundo, hoje já se estima em 35 000 o número de jubartes nos oceanos. No Brasil elas são 2 500, segundo o censo anual que o Instituto Baleia Jubarte realiza, quase o dobro do que havia em 1998. E a população continua crescendo a uma média de 11,5% ao ano no mundo.

Um dos maiores desafios de sua preservação no Brasil – a caça foi proibida mundialmente em 1966 – é a interação com os barcos de turismo. Essa é uma das principais linhas de estudo dos pesquisadores. Diariamente, uma equipe do Instituto Baleia Jubarte se posta no alto da principal ilha de Abrolhos para observar o comportamento dos animais quando os barcos se aproximam. É um trabalho penoso, em condições precárias, que começa às 5 da manhã e só termina quando o sol se põe. Enquanto isso, o barco de pesquisa está no mar identificando cada espécime (o desenho da cauda é como uma impressão digital do animal), fotografando e coletando biópsias. Tudo é anotado rigorosamente seguindo parâmetros internacionais de pesquisa. As amostras de tecido têm servido para traçar algumas das principais diretrizes na conservação desses mamíferos no país. São preciosa fonte de descobertas. Foi graças a elas que se constatou que, entre as baleias que vêm ao Brasil anualmente, 55% são do sexo masculino. Viu-se também que as jubartes brasileiras vêm, provavelmente, do mar de Weddell ou de algum lugar próximo às ilhas da Geórgia do Sul, na Antártica. Isso para falar nos achados mais recentes. Para os leigos, podem parecer banalidades. Para os cientistas, são descobertas preciosas, conquistadas graças a uma mistura ímpar de obstinação, rigor científico e ousadia.

 

 

 
 
 
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