Edição 1823 . 8 de outubro de 2003

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Arquitetura
O tijolo e o sonho

Com um olho grudado nos detalhes
e a cabeça voltada para as idéias de
grande efeito, Isay Weinfeld se firma
como arquiteto da moda – mas,
por favor, não o chamem assim


Vilma Gryzinski

 
Arquivo pessoal
Simplicidade mesclada a elementos de alta voltagem visual na casa do empresário Fernando Altério: "A arquitetura tem de provocar infartos"

Se Deus está nos detalhes, como diz o mantra da arquitetura moderna, Isay Weinfeld está construindo um lugarzinho bem perto Dele. Nada é suficientemente pequeno ou insignificante para escapar aos olhos desse arquiteto de 51 anos, com um legado de beleza já solidamente plantado e cerca de duas dezenas de projetos atualmente em andamento entre São Paulo, Rio e até uma praia remota das Ilhas Virgens Americanas, no Caribe. Desde a campainha até o último vaso no jardim, passando por um tijolo "com personalidade" cuja busca pode consumir meses, ele controla cada detalhe com compulsão perfeccionista. Em contrapartida ao cuidado com o pequeno, Weinfeld pensa grande – e como. Suas obras têm sempre algum elemento dramático, arroubos de imaginação que se traduzem em componentes de alta voltagem visual. "Arquitetura tem de causar infartos" é uma de suas frases prediletas. O exagero é intencional, para sacudir os alicerces do bom comportamento arquitetônico, mas quem entra numa casa projetada por ele provavelmente em algum momento deixará escapar um "Ah!".

A surpresa pode estar no monumental – como nas portas de vidro de 7 metros de altura que confundem as fronteiras entre o dentro e o fora na casa do empresário do show business Fernando Altério, talvez o mais elegante projeto de Weinfeld. Ou pode estar no simples, quase zen, como o espelho d'água recoberto de grandes seixos brancos na entrada de outra casa do quadrilátero mais cobiçado de São Paulo. Essa combinação de refinamento apenas sussurrado com ousadia arrebatada está presente em cada uma das obras de Weinfeld, que é um dos poucos profissionais de renome a dedicar à decoração de interiores o mesmo rigor reservado ao exterior. A obra que desperta maior curiosidade atualmente é o Hotel Fasano, um conglomerado de luxo cujo projeto ele divide com o parceiro Marcio Kogan. São de Weinfeld também o projeto da loja-mãe da grife Forum em São Paulo, com a incandescente escada vermelha explodindo na brancura circundante, e o pequeno restaurante Forneria San Paolo, o mais chique ambiente onde se pode comer um hambúrguer desde a invenção do sanduíche de carne moída. Depois da casa da atriz Carolina Ferraz no Rio de Janeiro, outros artistas se entusiasmaram. O ex de Carolina Murilo Benício vai ter a sua, dividida com Giovanna Antonelli. Marília Pêra já tem. Outra Marília, a Gabriela, e Reynaldo Gianecchini estão com um dúplex novinho em folha. Ao amigo cineasta Hector Babenco ele dedicou um projeto de casa com um minibosque na entrada e um sereno jardim nos fundos. Weinfeld também está acabando um prédio de escritórios com uma instigante profusão de colunas espelhadas flutuando sobre um espelho d'água negro. Vai fazer ainda uma sede de banco e toda a adaptação e decoração da futura sede da prefeitura de São Paulo, num prédio de estilo no centro da cidade, o Banespinha.

 
Pedro Rubens
A exuberância do novo restaurante Fasano, no hotel que é a obra mais comentada do momento, em São Paulo, e a elegância da casa de praia: luxo e luz, sempre luz
Arquivo pessoal

Não admira que seja considerado o mais incensado profissional do momento, o arquiteto da moda, embora não se comporte, não se vista, não fale e não pense como tal. E, evidentemente, abomine ser chamado de arquiteto da moda. Weinfeld, de fato, não se enquadra em nenhuma das duas categorias que poderiam concorrer ao título: não é nem da turma dos "puristas", os cultores do modernismo fundamentalista, uma escola particularmente forte em São Paulo, nem do lado dos "marqueteiros", os que fazem qualquer negócio (e qualquer estilo também) para se destacar num ambiente de padrões altamente darwinistas de competição. É aos primeiros, cheios de ego e de ordens, capazes de incinerar um cliente que ouse colocar uma reles almofadinha num de seus projetos minimalistas (por causa deles, "casa de arquiteto" virou sinônimo de uma caixa de concreto cercada de vidro com duas poltronas Barcelona dentro), que Weinfeld reserva as maiores críticas. Moderno não quer dizer inóspito, e o cliente, diz ele, tem direito a um projeto que espelhe seus anseios e seu jeito de ser – e a "estragá-lo" também, se quiser. Isso não significa que se possa encomendar ao arquiteto uma villa toscana ou uma casa "igualzinha àquelas de Miami". Para ter um projeto com a assinatura dele, uma vez cumprida a primeira etapa (ter alta disponibilidade financeira), é preciso passar pela segunda e mais difícil (ter compatibilidade estética). "Sou movido a paixão. Não pego de jeito nenhum trabalho com quem não tenho afinidade", diz Weinfeld, e as histórias que correm no mercado sobre projetos importantes que rejeitou confirmam isso.

O arquiteto também procura a diversidade. Não faz uma loja depois da outra. Em restaurante, por enquanto, não está interessado. Hotel, depois do Fasano, nem pensar – foram oito anos de trabalho alucinante, em que desenhou até o cabideiro dos armários embutidos (um engenhoso sistema de auto-encaixe). O Fasano é a vitrine mais vistosa do momento, onde Weinfeld se equilibrou arriscadamente entre a sobriedade dos apartamentos e a magnificência do restaurante famoso, como se espera de um dos lugares mais caros do país. Com toda a variedade de projetos, algumas características sempre se repetem: as texturas dos muros de pedra, a calidez das madeiras, os volumes límpidos, as aberturas que capturam a mais preciosa matéria-prima da arquitetura – luz, luz e mais luz. Depois da publicação de uma reportagem sobre ele no jornal The New York Times, em fevereiro, começaram a pipocar os clientes estrangeiros. O maior desafio será o projeto da casa de praia de uma empresária de Los Angeles – o fato de que a praia seja na Ilha de Saint John, no Caribe, não atrapalha muito porque a proprietária pode chegar lá num de seus dois jatinhos. Em algumas coisas Weinfeld terá de se reeducar: por exemplo, aprender como projetar uma casa à prova de furacões. Em outras, terá de ser educador: ensinar pelo exemplo aos milionários que têm propriedades na ilha que o luxo máximo está na simplicidade. É uma lição que vem propagando desde sempre.

 
 
 
 
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