|
|
Imigração
A
beleza e a força dos latinos
Os hispânicos tornam-se mais
numerosos que os negros nos
Estados Unidos e firmam-se como
grande potência de mercado
e de influência cultural no país

Tania
Menai, de Nova York
O
censo dos Estados Unidos de 2002, divulgado recentemente, mostrou
em números o que os americanos já sabiam pela observação:
a comunidade latina deixou de ser um nicho para se tornar parte
integrante e inseparável da economia, da cultura e da composição
étnica do país. Em alguns Estados, como a Califórnia
e outros mais próximos da fronteira com o México,
metade dos nascimentos registrados no ano passado foi em famílias
hispânicas. Os descendentes de imigrantes e os que chegaram
nos últimos anos já somam 39 milhões de pessoas,
superando os negros e formando o maior grupo étnico dos Estados
Unidos depois dos brancos. O número de mexicanos em Nova
York triplicou nos últimos dez anos. Os mexicanos são
32% da população do Texas. Além de grande,
a comunidade latina é a que cresce no ritmo mais rápido.
No total são 13% da população americana e,
segundo as pesquisas, têm duas das celebridades mais conhecidas
e ricas do país, a atriz Jennifer Lopez e o pugilista Oscar
de La Hoya. Eles são também as personalidades com
alto poder de sedução sobre consumidores de todas
as etnias e faixas de renda.
AP
 |
| Oscar
de La Hoya encaixa seu famoso gancho de esquerda: força multicultural
|
A
Santiago Solutions Group, empresa sediada em São Francisco,
na Califórnia, é especializada em ajudar as grandes
corporações americanas a falar com as comunidades
latinas. A Santiago estima o poder de compra do mercado latino em
675 bilhões de dólares neste ano um crescimento
de 11% em relação a 2002. "Os americanos de origem
latina, mesmo os nascidos nos Estados Unidos, têm como característica
manter o orgulho da sua origem", diz Aida Levitán, presidente
da Associação das Agências de Publicidade Hispânicas
(AHAA). Aida é co-presidente da Publicis Sánchez &
Levitán, agência baseada em Miami que é dona
das contas da Nestlé, BMW, Shell e do uísque Chivas
Regal. Aida, que emigrou de Cuba aos 13 anos, diz que as corporações
americanas estão atrasadas em desenvolver as competências
necessárias para se comunicar com o público hispânico.
Elas gastam apenas 2% do orçamento publicitário anual
em propaganda dirigida ao consumidor latino. O AHAA lançou
um alerta que recomenda às empresas o gasto de pelo menos
8% de seu orçamento com publicidade direcionada a esse público.
O retorno é certo: o mercado latino é comprovadamente
muito fiel às marcas, em contraste com o americano, que muda
de companhia telefônica, de carro, de pasta dental ou de xampu
como muda de roupa.
Aida Levitán sustenta que para fazer sucesso no mercado latino
nos Estados Unidos é preciso respeitar as diferenças
entre as inúmeras comunidades do país. "Um mexicano
do Texas é muito diferente do porto-riquenho ou dominicano
de Nova York, que são diferentes do cubano de Miami", lembra
ela. É vital, no entanto, ter em mente também o que
os grupos hispânicos compartilham entre si: eles gostam de
telenovelas, têm enorme preocupação com a imagem,
adoram modismos e dão muito valor à família.
A grande maioria dos hispânicos é casada, segue a religião
católica, e os casais separam-se bem menos que os brancos
americanos. "A melhor maneira de atingir esse público é
usar a língua espanhola", diz Aida, que escolheu o campeão
olímpico de boxe Oscar de la Hoya, 30 anos, nascido em Los
Angeles, para vender o Kerns Nectars, uma bebida de fruta para crianças
e adolescentes da Nestlé. "Kerns tem alma latina, como a
minha!", afirma ele no anúncio de televisão.
Outra faceta de maturidade da cultura latina nos Estados Unidos
é seu apelo no exterior. O show de entrega do prêmio
Grammy Latino foi televisionado para 100 países. Só
nos Estados Unidos, o número de telespectadores ultrapassou
5 milhões, um aumento de mais de 1 milhão em relação
ao ano passado. Os números são coerentes com o crescimento
dos espaços de televisão, rádio e imprensa
dedicados aos latinos, que aumentam, em média, 17% por ano.
Um exemplo desse filão é o recém-lançado
Voy Group, novo empreendimento de mídia do uruguaio Fernando
Espuelas, 36 anos, ex-presidente da empresa de internet StarMedia,
que faliu depois da explosão da bolha da internet. "A nova
geração de hispanos nos EUA é um mercado quase
inexplorado a faixa etária entre 18 e 34 anos é
a que mais cresce, demográfica e financeiramente, quando
comparada à geração anterior", diz ele. A média
de idade dessa comunidade é de 24 anos, contra 33 da população
americana em geral. "Nossos produtos serão em inglês,
idioma que eles dominam perfeitamente", afirma Espuelas.
AP
 |
| Famosa
no México, a pimenta jalapeño La Morena estréia nos supermercados
americanos |
Vistos
pela ótica acadêmica, na qual a questão mercadológica
é apenas um detalhe, os latinos nos Estados Unidos formam
um grupo menos entusiasmador. A socióloga americana Nicole
Marwell, Ph.D. em estudos latinos do Centro de Estudos de Etnia
e Raça da Universidade Colúmbia, diz que o maior fator
de crescimento da população hispânica nos Estados
Unidos é ainda a imigração, que engrossa o
contingente de pobres do país. Marwell concorda que o censo
de 2002 foi vital para advertir os americanos de origem latina quanto
à nova realidade, que tanto os favorece. "Muitos jovens hispânicos
que freqüentam escolas americanas desde pequenos já
perderam a fluência no espanhol, apesar de compreender bem
a língua. A vantagem é que, por ter estudado nos Estados
Unidos, eles são capazes de competir igualmente no mercado
de trabalho e ainda têm a vantagem de falar um segundo idioma",
diz a pesquisadora de Colúmbia. Quando tanto se fala em império
americano e na supremacia militar e econômica dos Estados
Unidos, é bom lembrar que o dominador é uma democracia
racial sem igual no planeta. Apenas 13% das crianças abaixo
de 15 anos de idade nos Estados Unidos são de famílias
brancas.
|