Edição 1824 . 15 de outubro de 2003

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Trabalho
Os samurais sem patrão

Sem chance de bons empregos,
uma geração de japoneses
vive no limbo social


Há menos de duas décadas, quando sua economia batia sucessivos recordes de produtividade, o Japão era considerado um exemplo a ser seguido. Boa parte do sucesso nipônico foi creditada ao modelo industrial adotado depois de 1945, que aliava eficiência, disciplina e um regime de trabalho singular. A base do sistema era a certeza de que o jovem que terminava a universidade era contratado por uma empresa, incorporava seus valores com fervor e, em troca, tinha o emprego garantido até a aposentadoria. Treze anos consecutivos de recessão decretaram o fim desse modelo. As empresas, obrigadas a enxugar custos, simplesmente pararam de contratar – condenando uma geração inteira de jovens ao desemprego. São os primeiros sem-emprego da história recente do Japão, e nenhum deles sabe muito bem como lidar com a novidade. Sem opção, muitos encararam os trabalhos temporários – coisa que seus pais e vizinhos consideram uma vergonha.

Os freeters, como são chamados no Japão os jovens de até 34 anos que vivem de bico, são um pesadelo num país onde desemprego é sinônimo de marginalidade social. A carreira profissional é o que há de mais sagrado para os japoneses. Não é à toa que o número de suicídios no Japão aumentou desde o início da recessão. É comum o demitido esconder o fato da família até arrumar outro emprego, simulando diariamente a ida ao trabalho. Nos anos 80, época da bonança, os freeters não chegavam a 500 000 – em sua maioria jovens excêntricos, que desprezavam a cultura corporativa, ou ainda indecisos quanto à carreira profissional. Hoje, eles somam 4,5 milhões e representam o lado mais sombrio da recessão japonesa. Sete de cada dez vivem na casa dos pais. Isso causa outro conflito cultural, desta vez doméstico: muitas famílias não conseguem assimilar a idéia de ter um desempregado dentro de casa.

 
AFP
Jovens se cadastram numa agência de trabalho em Tóquio: futuro incerto

Os desempregados sinalizam para uma nova tendência – a migração de ofertas de emprego da indústria para o setor de serviços, no qual a rotatividade é maior e a qualificação exigida, menor. Atraídas pela fartura de mão-de-obra baratíssima, muitas indústrias japonesas levaram suas linhas de produção para a China ou outros países miseráveis do Sudeste Asiático. Ou seja, não há perspectiva a curto prazo para que os jovens japoneses sejam absorvidos pelo mercado formal de trabalho. Quanto mais tempo eles demorarem para conseguir um emprego fixo, menores as chances de adquirir a experiência que é exigida nos melhores empregos. Um jovem que vive de bico ganha, se tiver sorte, o equivalente a 1 000 dólares por mês – um salário irrisório no país cujo custo de vida é considerado o mais elevado do mundo.

Para onde se olhe, as conseqüências são ruins. A falta de um emprego fixo está levando esses jovens a adiar planos de casamento e, portanto, de ter filhos. Para o Japão, cujo índice de crescimento populacional é próximo do zero, trata-se de um problema sério. Há ainda efeitos perversos de ordem econômica. Sem emprego formal, eles não contribuem para a Previdência Social e, por tabela, aprofundam o buraco de arrecadação causado pelo envelhecimento da população. O pior dos males é a certeza de que eles estão fora do mercado consumidor. Para sair da agonia da recessão, o Japão precisa basicamente que a população vá às compras e aqueça a economia doméstica. Isso depende sobretudo dos jovens, mais gastadores que seus pais. Os japoneses mais velhos são consumidores cautelosos, que preferem economizar para a aposentadoria.

 
AP
Movimento no distrito financeiro de Tóquio: as fábricas mudaram para a China

O governo japonês anunciou recentemente algumas providências para ajudar os desempregados. Uma delas procura ampliar a oferta de estágio para os universitários e, com isso, facilitar sua entrada no mercado de trabalho. Outra prevê financiamento e auxílio técnico para que jovens empreendedores possam dar início ao próprio negócio. Os desempregados são a prova de que a indústria japonesa perdeu o ânimo. Nesse sentido, a criação de novos negócios é o caminho natural para o país recuperar sua vocação produtiva. "Há um grande número de engenheiros altamente qualificados que poderiam ser os pioneiros de um novo estilo empreendedor no Japão", disse a VEJA o economista Tomokazu Fujitsuka, da Universidade de Miyazaki. Seria a retomada de uma fórmula vitoriosa. Logo após a II Guerra, poucos japoneses tinham emprego fixo – enquanto os aprendizes e trabalhadores temporários, os freeters daquela época, estavam em todos os setores. O espírito empreendedor e o poder de iniciativa daqueles sem-emprego são apontados como fundamentais para a transformação de um país em ruínas numa potência econômica em apenas duas gerações.

 
 
 
 
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