Edição 1824 . 15 de outubro de 2003

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Internacional
A Argentina volta
a ter esperança

Lotado de turistas, o país cresce
pela primeira vez em cinco anos.
Mas está longe de vencer a crise


Lucila Soares, de Buenos Aires

 
Reuters

Néstor Kirchner, vitorioso: 80% de aprovação

Famosos por sua megalomania, os argentinos passaram os dez anos do governo Carlos Menem orgulhando-se de estar no Primeiro Mundo, com uma moeda tão forte quanto o dólar. Davam como prova disso o fato de Buenos Aires ter virado uma das capitais mais caras do planeta. Há dois anos, despencaram do alto de seu próprio ego, mergulhando numa crise que resultou, no mês passado, na redução compulsória de 75% na dívida pública – um dos maiores calotes da história financeira mundial. Agora, depois de chegar ao fundo do poço, o país crescerá pela primeira vez em cinco anos. Animados com os sinais de recuperação, os argentinos guindaram o presidente Néstor Kirchner, eleito há cinco meses, ao posto de mandatário mais popular da América Latina, com 80% de aprovação, segundo pesquisa divulgada na semana passada. É esse o clima que espera o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Buenos Aires, onde desembarcará na próxima quinta-feira.

Em relação às duas viagens anteriores – a primeira como presidente eleito, a segunda para a posse de Kirchner –, Lula perceberá uma mudança substancial de ânimo. E, assim como todos os que chegam a Buenos Aires nesta primavera, terá a impressão de que há motivo de otimismo. A cidade está cheia de turistas de todo o mundo – só no primeiro semestre foram mais de 1,5 milhão, com crescimento de 22% em relação a 2002. Shoppings, bares e restaurantes estão lotados, e as grandes redes internacionais de hotelaria apostam alto no segmento de cinco estrelas. O motor da retomada do turismo é a desvalorização do peso, em janeiro do ano passado, que devolveu o país ao mundo dos preços razoáveis. Para os brasileiros, que haviam sumido de Buenos Aires, a capital tem bons atrativos. Há pacotes a partir de 250 dólares e come-se bem, com bom vinho, pelo equivalente a 30 reais por pessoa.

Seria negar os números afirmar que a recuperação é apenas aparente. A Argentina cresceu 5% no primeiro semestre, a produção industrial aumentou 11,8%, a balança comercial passou de um déficit crônico para um superávit de 1,2 bilhão de dólares em agosto, e o dólar, que chegou a valer 4 pesos, estabilizou-se na faixa dos 2,80 pesos. Não é pouco. É insuficiente, no entanto, para compensar o longo período de estagnação que fez o produto interno bruto argentino encolher 20%. Nesse quadro, o Brasil torna-se um parceiro fundamental.

A visita de Lula é importante para ambos os países, que enfrentam juntos a queda-de-braço pela redução dos subsídios dos países ricos. Mas ainda mais para a Argentina, cuja credibilidade internacional está reduzida a pó. Lula mostrará que reina a paz entre o Planalto e a Casa Rosada, depois do mal-estar provocado pelo silêncio brasileiro durante a tensa negociação dos argentinos com o Fundo Monetário Internacional, em setembro. Também está prevista a assinatura de um financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social a investimentos em infra-estrutura na Argentina – ajuda bem-vinda num país sem crédito, onde a estagnação é visível a olho nu. A frota de automóveis que circulam pelas ruas é, em sua maior parte, velha e barulhenta. Os ônibus lembram as lotações escolares da década de 60. E, tal como acontece com a casa de uma família que empobreceu, a bela capital inspirada em Paris exibe sinais de decadência, com muitas fachadas descascadas e calçadas esburacadas. As marcas da pobreza são discretas em relação ao que os brasileiros se acostumaram a ver em nossas grandes cidades, mas chama a atenção o número de pedintes.

"Há um segmento de cerca de 20% da população que se beneficiou com a desvalorização e contribui para reativar o consumo. Mas uma recuperação real requer investimento produtivo, e isso demora", diz Félix Peña, um dos mais respeitados economistas do país. Ocorre que investimento produtivo é algo que tem passado ao largo da Argentina há pelo menos três décadas, nas quais o país sofreu uma impressionante desindustrialização. O golpe de misericórdia veio no governo Menem, com o plano que equiparou o peso ao dólar e tornou muito mais barato importar do que produzir. O resultado é um desemprego na casa dos 20% e uma deterioração econômica que faz mais da metade da população viver abaixo da linha de pobreza. Não por acaso, no campo econômico o índice de aprovação de Kirchner despenca para 36%.

"Passamos de uma sociedade de produção para uma sociedade de consumo", lamenta Miguel Ángel Langelotti, dono de uma pequena indústria de derivados de cálcio e também da verve típica de Buenos Aires, cidade na qual o desempregado que pede dinheiro no ônibus explica sua situação com uma longa análise da conjuntura internacional. Langelotti e sua mulher, Ana, vivem em um belo apartamento no sofisticado bairro da Recoleta, mas fazem malabarismos para manter o padrão de vida. Ana, dona de um salão de cabeleireiro, diz que suas clientes reduziram drasticamente a despesa com tintura, sinal inequívoco de que algo vai mal no país das falsas loiras. Do outro lado da cidade, em San Telmo, Eduardo e Graziela Milano encarnam a história recente da economia argentina ao contar como foi a compra da casa, atropelada pela hiperinflação de 1989, e a reforma, no ano passado, quase inviabilizada pela desvalorização do peso e pelo bloqueio das contas-correntes. Tomaram aversão a banco – eles e a torcida do Boca Juniors. Estima-se que os argentinos tenham cerca de 30 bilhões de dólares guardados sob o colchão e que outros 150 bilhões estejam depositados no exterior, num comportamento que lança sombra sobre o futuro do país. Enquanto esse dinheiro não voltar aos bancos, a Argentina não sairá do atoleiro, porque não haverá crédito. Sem crédito, não se produz, não se criam empregos, o país não cresce, a pobreza aumenta.

Por enquanto, o governo Kirchner está longe de romper essa lógica perversa. O calote na dívida pública realimentou a desconfiança – inclusive dos investidores nacionais, que detêm cerca de 40% dos títulos do governo. O discurso hostil a empresários e bancos também não ajuda. O que o governo argentino tem a seu favor é um fato comum a quase todos os países que foram à bancarrota: quando se está no fundo do poço, há um espaço para crescer que independe, temporariamente, de dinheiro novo. Conta a favor da Argentina também o clima de esperança no atual governo, depois do período caótico em que passaram pela Casa Rosada cinco presidentes em doze dias. "O país pode recuperar-se por mais dois anos, o que aqui se tornou longo prazo", diz Rosendo Fraga, diretor do prestigiado Centro de Estudos Nova Maioria. Nesse tempo, Kirchner ganharia fôlego para um projeto nacional que atraia novos investimentos. Pode ser que funcione.

 
 
 
 
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