|
|
Internacional
A
Argentina volta
a ter esperança
Lotado
de turistas, o país cresce
pela primeira vez em cinco anos.
Mas está longe de vencer a crise

Lucila Soares, de Buenos Aires
Reuters
 |
|
Néstor Kirchner,
vitorioso: 80% de aprovação
|
Famosos
por sua megalomania, os argentinos passaram os dez anos do governo
Carlos Menem orgulhando-se de estar no Primeiro Mundo, com uma moeda
tão forte quanto o dólar. Davam como prova disso o
fato de Buenos Aires ter virado uma das capitais mais caras do planeta.
Há dois anos, despencaram do alto de seu próprio ego,
mergulhando numa crise que resultou, no mês passado, na redução
compulsória de 75% na dívida pública
um dos maiores calotes da história financeira mundial. Agora,
depois de chegar ao fundo do poço, o país crescerá
pela primeira vez em cinco anos. Animados com os sinais de recuperação,
os argentinos guindaram o presidente Néstor Kirchner, eleito
há cinco meses, ao posto de mandatário mais popular
da América Latina, com 80% de aprovação, segundo
pesquisa divulgada na semana passada. É esse o clima que
espera o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Buenos Aires,
onde desembarcará na próxima quinta-feira.
Em relação às duas viagens anteriores
a primeira como presidente eleito, a segunda para a posse de Kirchner
, Lula perceberá uma mudança substancial de
ânimo. E, assim como todos os que chegam a Buenos Aires nesta
primavera, terá a impressão de que há motivo
de otimismo. A cidade está cheia de turistas de todo o mundo
só no primeiro semestre foram mais de 1,5 milhão,
com crescimento de 22% em relação a 2002. Shoppings,
bares e restaurantes estão lotados, e as grandes redes internacionais
de hotelaria apostam alto no segmento de cinco estrelas. O motor
da retomada do turismo é a desvalorização do
peso, em janeiro do ano passado, que devolveu o país ao mundo
dos preços razoáveis. Para os brasileiros, que haviam
sumido de Buenos Aires, a capital tem bons atrativos. Há
pacotes a partir de 250 dólares e come-se bem, com bom vinho,
pelo equivalente a 30 reais por pessoa.
Seria negar os números afirmar que a recuperação
é apenas aparente. A Argentina cresceu 5% no primeiro semestre,
a produção industrial aumentou 11,8%, a balança
comercial passou de um déficit crônico para um superávit
de 1,2 bilhão de dólares em agosto, e o dólar,
que chegou a valer 4 pesos, estabilizou-se na faixa dos 2,80 pesos.
Não é pouco. É insuficiente, no entanto, para
compensar o longo período de estagnação que
fez o produto interno bruto argentino encolher 20%. Nesse quadro,
o Brasil torna-se um parceiro fundamental.
A visita de Lula é importante para ambos os países,
que enfrentam juntos a queda-de-braço pela redução
dos subsídios dos países ricos. Mas ainda mais para
a Argentina, cuja credibilidade internacional está reduzida
a pó. Lula mostrará que reina a paz entre o Planalto
e a Casa Rosada, depois do mal-estar provocado pelo silêncio
brasileiro durante a tensa negociação dos argentinos
com o Fundo Monetário Internacional, em setembro. Também
está prevista a assinatura de um financiamento do Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social a investimentos em infra-estrutura
na Argentina ajuda bem-vinda num país sem crédito,
onde a estagnação é visível a olho nu.
A frota de automóveis que circulam pelas ruas é, em
sua maior parte, velha e barulhenta. Os ônibus lembram as
lotações escolares da década de 60. E, tal
como acontece com a casa de uma família que empobreceu, a
bela capital inspirada em Paris exibe sinais de decadência,
com muitas fachadas descascadas e calçadas esburacadas. As
marcas da pobreza são discretas em relação
ao que os brasileiros se acostumaram a ver em nossas grandes cidades,
mas chama a atenção o número de pedintes.
"Há
um segmento de cerca de 20% da população que se beneficiou
com a desvalorização e contribui para reativar o consumo.
Mas uma recuperação real requer investimento produtivo,
e isso demora", diz Félix Peña, um dos mais respeitados
economistas do país. Ocorre que investimento produtivo é
algo que tem passado ao largo da Argentina há pelo menos
três décadas, nas quais o país sofreu uma impressionante
desindustrialização. O golpe de misericórdia
veio no governo Menem, com o plano que equiparou o peso ao dólar
e tornou muito mais barato importar do que produzir. O resultado
é um desemprego na casa dos 20% e uma deterioração
econômica que faz mais da metade da população
viver abaixo da linha de pobreza. Não por acaso, no campo
econômico o índice de aprovação de Kirchner
despenca para 36%.
"Passamos
de uma sociedade de produção para uma sociedade de
consumo", lamenta Miguel Ángel Langelotti, dono de uma pequena
indústria de derivados de cálcio e também da
verve típica de Buenos Aires, cidade na qual o desempregado
que pede dinheiro no ônibus explica sua situação
com uma longa análise da conjuntura internacional. Langelotti
e sua mulher, Ana, vivem em um belo apartamento no sofisticado bairro
da Recoleta, mas fazem malabarismos para manter o padrão
de vida. Ana, dona de um salão de cabeleireiro, diz que suas
clientes reduziram drasticamente a despesa com tintura, sinal inequívoco
de que algo vai mal no país das falsas loiras. Do outro lado
da cidade, em San Telmo, Eduardo e Graziela Milano encarnam a história
recente da economia argentina ao contar como foi a compra da casa,
atropelada pela hiperinflação de 1989, e a reforma,
no ano passado, quase inviabilizada pela desvalorização
do peso e pelo bloqueio das contas-correntes. Tomaram aversão
a banco eles e a torcida do Boca Juniors. Estima-se que os
argentinos tenham cerca de 30 bilhões de dólares guardados
sob o colchão e que outros 150 bilhões estejam depositados
no exterior, num comportamento que lança sombra sobre o futuro
do país. Enquanto esse dinheiro não voltar aos bancos,
a Argentina não sairá do atoleiro, porque não
haverá crédito. Sem crédito, não se
produz, não se criam empregos, o país não cresce,
a pobreza aumenta.
Por enquanto, o governo Kirchner está longe de romper essa
lógica perversa. O calote na dívida pública
realimentou a desconfiança inclusive dos investidores
nacionais, que detêm cerca de 40% dos títulos do governo.
O discurso hostil a empresários e bancos também não
ajuda. O que o governo argentino tem a seu favor é um fato
comum a quase todos os países que foram à bancarrota:
quando se está no fundo do poço, há um espaço
para crescer que independe, temporariamente, de dinheiro novo. Conta
a favor da Argentina também o clima de esperança no
atual governo, depois do período caótico em que passaram
pela Casa Rosada cinco presidentes em doze dias. "O país
pode recuperar-se por mais dois anos, o que aqui se tornou longo
prazo", diz Rosendo Fraga, diretor do prestigiado Centro de Estudos
Nova Maioria. Nesse tempo, Kirchner ganharia fôlego para um
projeto nacional que atraia novos investimentos. Pode ser que funcione.
|