Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Laços de família

Marido contra mulher, mãe contra filha,
irmão contra irmão: parente é serpente
em Senhora do Destino


Ricardo Valladares

 
Divulgação
Leandro (ao fundo) se desespera ao ver a mulher nos braços do irmão: cada família infeliz à sua maneira

"Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua própria maneira", escreveu Leon Tolstoi no romance Anna Karenina. É claro que o noveleiro Aguinaldo Silva não tem nada de escritor russo, e muito menos de Tolstoi, mas até poderia ter pedido à Rede Globo para usar essa frase como slogan de Senhora do Destino, no lugar de "Toda família tem uma grande história para contar". Há dois meses e meio no ar, o atual folhetim das 8 já deixou bem claro que seu forte é explorar conflitos entre marido e mulher, pai e filha, irmão e irmão. Para que cada família da novela possa realmente ser infeliz ao seu modo, o cardápio de dramas é variadíssimo: inclui pais alcoólatras e aproveitadores, mães cruéis e até o perigo do incesto.

A personagem com maior número de problemas para administrar é de longe Maria do Carmo, a tal "senhora do destino". Não se tratasse de uma perua convencida, a quem a atriz Suzana Vieira empresta um irritante sotaque nordestino, seria até possível apiedar-se dela. Do Carmo teve a filha bebê raptada décadas atrás. Foi abandonada pelo marido na juventude e precisa engolir o seu retorno quando ele descobre que ela enriqueceu. Além disso, tem uma penca de filhos esquisitões. Um é mau-caráter (o político Reginaldo, vivido por Du Moscovis), o outro é boa-vida (o Plínio, interpretado pelo jovem fauno Dado Dolabela), e um terceiro tem tudo para enlouquecer: afinal de contas, Leandro (Leonardo Vieira) primeiro viu a mulher arrastar a asa para seu irmão Viriato (Marcelo Antony) e agora começa a se envolver com Isabel (Carolina Dieckman), que ele não sabe que é sua irmã perdida.

Apesar de bem servida, a família de Do Carmo não tem o monopólio dos dramas em Senhora do Destino. O autor da novela distribuiu aflições generosamente pelos outros núcleos. Nazaré (Renata Sorrah) e Claudia (Leandra Leal) são mãe e enteada que se odeiam, e um conflito épico deverá emergir quando a conservadora Flaviana (Yoná Magalhães) descobrir que sua neta Jenifer (Bárbara Borges) é lésbica. Na ala dos pobres, Rita (Adriana Lessa) tem um marido bandido e alcoólatra e uma filha adolescente que engravidou. Aguinaldo Silva diz que sua preocupação básica não é ser edificante ao abordar o tema da gravidez juvenil. "Eu não consigo me ver recebendo medalha de honra por um trabalho de ficcionista", afirma ele, numa alfinetada em colegas como Glória Pérez e Manoel Carlos, que costumam promover causas sociais em suas tramas. Até mesmo os personagens cômicos terão seu quinhão de conflitos. Nesta semana, a passista Regininha (Maria Maya, que só sabe dançar samba da cintura para cima) vai sofrer a ira de seu pai taciturno. Ao tentar punir a menina, que anda saidinha demais, Sebastião (Nelson Xavier) vai acidentalmente arrancar a roupa dela em público. Maria Maya, aliás, é filha do diretor Wolf Maya, que deveria comandar a gravação dessa cena. Aí está uma família feliz – ou não é?  

 
 
 
 
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