|
|
Televisão
Laços de família
Marido contra
mulher, mãe contra filha,
irmão contra irmão: parente é serpente
em Senhora do Destino

Ricardo Valladares
Divulgação
 |
| Leandro (ao fundo)
se desespera ao ver a mulher nos braços do irmão:
cada família infeliz à sua maneira |
"Todas as
famílias felizes se parecem, cada família infeliz
é infeliz à sua própria maneira", escreveu
Leon Tolstoi no romance Anna Karenina. É claro que
o noveleiro Aguinaldo Silva não tem nada de escritor russo,
e muito menos de Tolstoi, mas até poderia ter pedido à
Rede Globo para usar essa frase como slogan de Senhora do Destino,
no lugar de "Toda família tem uma grande história
para contar". Há dois meses e meio no ar, o atual folhetim
das 8 já deixou bem claro que seu forte é explorar
conflitos entre marido e mulher, pai e filha, irmão e irmão.
Para que cada família da novela possa realmente ser infeliz
ao seu modo, o cardápio de dramas é variadíssimo:
inclui pais alcoólatras e aproveitadores, mães cruéis
e até o perigo do incesto.
A personagem
com maior número de problemas para administrar é de
longe Maria do Carmo, a tal "senhora do destino". Não se
tratasse de uma perua convencida, a quem a atriz Suzana Vieira empresta
um irritante sotaque nordestino, seria até possível
apiedar-se dela. Do Carmo teve a filha bebê raptada décadas
atrás. Foi abandonada pelo marido na juventude e precisa
engolir o seu retorno quando ele descobre que ela enriqueceu. Além
disso, tem uma penca de filhos esquisitões. Um é mau-caráter
(o político Reginaldo, vivido por Du Moscovis), o outro é
boa-vida (o Plínio, interpretado pelo jovem fauno Dado Dolabela),
e um terceiro tem tudo para enlouquecer: afinal de contas, Leandro
(Leonardo Vieira) primeiro viu a mulher arrastar a asa para seu
irmão Viriato (Marcelo Antony) e agora começa a se
envolver com Isabel (Carolina Dieckman), que ele não sabe
que é sua irmã perdida.
Apesar
de bem servida, a família de Do Carmo não tem o monopólio
dos dramas em Senhora do Destino. O autor da novela distribuiu
aflições generosamente pelos outros núcleos.
Nazaré (Renata Sorrah) e Claudia (Leandra Leal) são
mãe e enteada que se odeiam, e um conflito épico deverá
emergir quando a conservadora Flaviana (Yoná Magalhães)
descobrir que sua neta Jenifer (Bárbara Borges) é
lésbica. Na ala dos pobres, Rita (Adriana Lessa) tem um marido
bandido e alcoólatra e uma filha adolescente que engravidou.
Aguinaldo Silva diz que sua preocupação básica
não é ser edificante ao abordar o tema da gravidez
juvenil. "Eu não consigo me ver recebendo medalha de honra
por um trabalho de ficcionista", afirma ele, numa alfinetada em
colegas como Glória Pérez e Manoel Carlos, que costumam
promover causas sociais em suas tramas. Até mesmo os personagens
cômicos terão seu quinhão de conflitos. Nesta
semana, a passista Regininha (Maria Maya, que só sabe dançar
samba da cintura para cima) vai sofrer a ira de seu pai taciturno.
Ao tentar punir a menina, que anda saidinha demais, Sebastião
(Nelson Xavier) vai acidentalmente arrancar a roupa dela em público.
Maria Maya, aliás, é filha do diretor Wolf Maya, que
deveria comandar a gravação dessa cena. Aí
está uma família feliz ou não é?
|