Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Livros
Morrendo de rir

Sete contos do raivoso Tibor
Fischer, um craque do humor
negro na literatura inglesa


Marilia Pacheco Fiorillo


EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

É uma pena que a tradução brasileira tenha optado pelo título americano do livro de Tibor Fischer, Adoro Morrer (tradução de Roberto Grey; Rocco; 244 páginas; 32 reais). O título da edição original inglesa era mais fiel ao espírito provocador da obra: Don't Read This Book If You're Stupid – literalmente, Não Leia Este Livro Se Você É Estúpido. São sete contos de humor negro cujos protagonistas, embora situados na Londres dos anos 1990, poderiam circular por qualquer outra metrópole globalizada: o cinqüentão desempregado, o empresário pontocom quebrado no estouro da bolha da internet, o pintor joão-ninguém que faz de tudo para se tornar uma celebridade (Smith, no ponto alto da coletânea, Retrato do Artista Quando Famoso Mercador da Morte).

Aparentemente um bando de fracassados, os personagens de Adoro Morrer acabam se revelando o extravagante bastião de resistência em um mundo consumido pela tirania da fama e da grana. Sua forma de resistir é a misantropia, um sonoro "não" a tudo o que os circunda. O anti-herói de O Devorador de Livros, por exemplo, desenvolveu uma técnica de ler simultaneamente um livro à esquerda e outro à direita, o que lhe poupa qualquer constrangedora convivência humana. Em Gelo Esta Noite no Coração de Jovens Visitantes, o mais sucinto e amargo dos contos, um repórter descreve a descoberta de cadáveres numa vala comum, assassinados pelo regime de Nicolae Ceausescu, na Romênia – é a prova cabal de que esquisito anda o mundo, e não quem não se encaixa nele.

Filho de um casal de jogadores de basquete húngaros, Fischer teve seu primeiro livro, Um Palmo Abaixo, rejeitado por 58 editoras. Quando foi finalmente publicado, o romance ganhou uma indicação ao Prêmio Booker, o mais prestigioso da Inglaterra, em 1993. No ano passado, Fischer comprou briga ao criticar acerbamente um livro de Martin Amis, um dos ícones literários da geração imediatamente anterior. Mexeu num vespeiro: o romancista americano John Updike diagnosticou-o como "um autor que passa a perna em si mesmo". Fischer é raivoso, sim. Mas e daí? Raiva e gargalhadas são uma das melhores combinações literárias. Em tempos bicudos, só mesmo rindo se castiga o descalabro.

 
 
 
 
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