Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Livros
A missão de Boris

O tradutor que há sessenta anos apresenta
os clássicos da literatura russa aos brasileiros


Jerônimo Teixeira


Andre Penner
Boris Schnaiderman: infância na Ucrânia e combate na II Guerra sob a bandeira do Brasil


EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

Bons tradutores têm um papel civilizador. Eles não se limitam a achar equivalências entre duas línguas, mas põem culturas em comunicação. Professor aposentado de língua e literatura russa da Universidade de São Paulo, Boris Schnaiderman tem exercido esse papel há sessenta anos. Modesto, faz questão de dizer que não foi o primeiro a traduzir diretamente do russo para o português. Seu trabalho, porém, ajudou a elevar padrões. Quando tentou suas primeiras traduções – que hoje rejeita –, nos anos 40, eram comuns as versões de Tolstoi ou Dostoievski feitas a partir do francês. Hoje, já não se engolem facilmente textos de segunda mão. Há uma escola constituída de tradutores do russo como Paulo Bezerra e Rubens Figueiredo. Schnaiderman é o decano da turma. Verteu para o português obras de Pushkin, Tolstoi, Dostoievski, Tchekov, entre outros clássicos. Foi um dos grandes divulgadores, no Brasil, da poesia moderna russa, traduzindo o vanguardista Maiakovski em colaboração com os poetas Augusto e Haroldo de Campos. E, aos 87 anos, segue aperfeiçoando suas traduções. Está revisando sua versão de Um Jogador, de Dostoievski, a ser relançada pela editora 34.

Schnaiderman nasceu em Úman e passou a primeira infância em Odessa, na Ucrânia – mas em sua casa se falava o russo, não o ucraniano. Menino, testemunhou, sem saber exatamente o que estava vendo, a filmagem de uma cena do clássico O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein, nas escadarias de Odessa. Logo passaria por eventos mais dramáticos: sua família partiu para o exílio quando ele tinha 8 anos. "Meu pai era comerciante, então é claro que ele teve dificuldades para se adaptar ao sistema soviético", conta. Foi voluntário da Força Expedicionária Brasileira na II Guerra. Era um sujeito único entre os pracinhas: ucraniano de nascimento, russo por formação, brasileiro por adoção. A experiência deu origem a seu único romance, Guerra em Surdina (Cosac & Naify; 256 páginas; 39,50 reais), lançado em 1964 e agora republicado em versão revisada. No mesmo ano em que partia para a Itália, 1944, era lançada sua primeira tradução, um empreendimento temerário para um iniciante: Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski. "Foi uma irresponsabilidade total", admite. O jovem Schnaiderman sabia que seus dotes literários ainda não estavam à altura das obras que pretendia verter para o português – tanto que suas seis primeiras traduções foram assinadas com um pseudônimo, Boris Salomonov. Algumas delas – como Kladji-Murát, de Tolstoi – seriam refeitas e republicadas mais tarde.

Tal como a Irlanda do século XX, que produziu gênios das letras como Yeats, Joyce e Beckett, a Rússia do século XIX era um país econômica e socialmente atrasado que, contra todas as adversidades, se converteu em um gigantesco celeiro literário. Além do estatuto indisputável de clássicos, alguns autores russos são também muito populares no Brasil – especialmente Tolstoi e Dostoievski, cujo romance Crime e Castigo já apareceu na lista de mais vendidos de VEJA, feito raro para um livro do século XIX. O gigantismo dessa dupla, porém, lança uma certa sombra sobre outros compatriotas. Schnaiderman lamenta que Alexander Pushkin não tenha encontrado tanta aceitação entre os brasileiros. O tradutor também recusa a idéia de que a literatura russa tenha decaído no século XX. "Não havia mais um Tolstoi ou um Dostoievski, mas ainda tínhamos escritores do porte de um Isaac Babel", diz. É sobre essa tradição literária assombrosamente rica que o tradutor segue exercendo sua obra civilizadora: "Hoje eu trabalho moderadamente. Enquanto tiver forças, vou revisando minhas traduções antigas".

 

Quatro mestres

Boris Schnaiderman fala de
escritores russos que já traduziu

Alexander Pushkin (1799-1837)
"Pushkin é um autor extraordi-nário, tanto em poesia quanto em prosa. Foi ele que cristalizou a linguagem literária da Rússia"

Fiodor Dostoievski (1821-1881)
"Dostoievski tem uma força ímpar, é uma instituição literária, mas às vezes irrita com seu chauvinismo e seus preconceitos nacionalistas"

Leon Tolstoi (1828-1910)
"Ele tem uma acuidade para a expressão verbal extraordinária. Em Guerra e Paz, por exemplo, Tolstoi consegue mostrar como a língua russa estava deformada entre as elites afrancesadas"

Vladimir Maiakovski (1893-1930)
"Hoje, na Rússia, há uma onda contra Maiakovski, por causa do seu entusiasmo pela revolução comunista. Mas ele é inegavelmente um grande poeta, apesar de suas posições políticas equivocadas"

 
 
 
 
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