Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Música
O gênio do pop

Brian Wilson, o músico que todo roqueiro adora citar como influência, anuncia um show no Brasil


Sérgio Martins


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Para ouvir: músicas do cantor

Qualquer frase que reúna os conceitos "genialidade" e "música pop" tende a ser um exagero, se não for simplesmente uma bobagem. Pode-se abrir uma exceção, contudo, se a frase disser respeito ao cantor e compositor americano Brian Wilson. À frente dos Beach Boys, uma das maiores bandas dos anos 60, Wilson acrescentou ao rock elementos que ninguém imaginava que ele poderia conter. O principal disco do grupo, Pet Sounds, de 1966, tem letras e melodias memoráveis além de ser uma proeza técnica, pela riqueza dos arranjos vocais e instrumentais e pelos surpreendentes efeitos sonoros (produzidos numa era pré-eletrônica). Na época, o trabalho caiu como uma bomba sobre a concorrência. Os Rolling Stones publicaram um anúncio num jornal conclamando seus fãs a comprar o disco e os Beatles mais tarde confessaram que uma de suas obras-primas, Revolver, foi esforço para responder ao brilhantismo de Pet Sounds. Ainda hoje, roqueiros medíocres dizem que Brian Wilson é uma "influência" quando querem parecer bacanas. Por isso é um acontecimento e tanto a vinda ao Brasil que o músico programou para novembro, durante o TIM Festival. Wilson, de 62 anos, deve apresentar um show que vem sendo elogiado na Europa e nos Estados Unidos, com músicas de Pet Sounds e do disco Smile, que ele iniciou em 1966 e só terminou neste ano. A oportunidade é ainda mais rara quando se leva em conta que Wilson sofre de esquizofrenia e oscila entre períodos de doença e normalidade. "Preciso tomar remédios para abafar as vozes que ecoam na minha cabeça e dizem que vão me matar", revelou ele em entrevista a VEJA.

Filho mais velho de uma família de classe média baixa da Califórnia, Brian foi a vítima predileta de um pai tirânico, Murray Wilson. Uma das diversões de Murray era arrancar o olho de vidro que possuía e aterrorizar o filho com seu rosto desfigurado. Ele também seria o responsável pela surdez parcial de Brian – teria atingido a cabeça do menino com um objeto de madeira, fazendo com que perdesse a audição no ouvido direito. Os traumas de infância e as experimentações com drogas, assim que a carreira musical começou a decolar, se uniram para detonar o primeiro surto esquizofrênico de Wilson, em meados dos anos 60. No auge do sucesso dos Beach Boys, ele teve uma crise nervosa dentro de um avião e passou anos sem conseguir se apresentar ao vivo. As crises se repetiriam a partir daí. Uma delas levou Brian Wilson a ficar dois anos sem sair da cama, ouvindo sempre as mesmas músicas e engordando até os 160 quilos. A instabilidade emocional do músico também está por trás da história de Smile, o disco que demorou 38 anos para ser completado. Assim como os Beatles se sentiram superados ao ouvir Pet Sounds, Wilson se sentiu derrotado quando os colegas lançaram Sgt. Pepper's, em 1967. Ele, que estava no meio da composição de Smile, entrou em depressão e suspendeu o projeto. "Foi uma luta dolorosa retomar aquele material, mas acho que consegui completá-lo da maneira como sempre ambicionei", diz Wilson a respeito do disco que mostrará no Brasil, praticamente em primeira mão.  

 
 
 
 
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