Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Cinema
Um rei Arthur bem diferente

Novo filme sobre o herói inglês é boa
diversão. Só não acredite que ele
mostra "a verdade por trás do mito"


Sérgio Martins

 
Fotos Touchstone Pictures & Jerry Bruckheimer Fims, Inc.
Arthur (Clive Owen) à frente de seus cavaleiros: a serviço do Império Romano


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Dois lados da história

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Rei Arthur (Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, se anuncia como "a verdadeira história" por trás do principal mito nacional dos ingleses. Em nome dessa suposta fidelidade, o diretor Antoine Fuqua (Dia de Treinamento) despe Arthur da armadura reluzente com que ele é habitualmente representado e o veste numa inusitada minissaia de centurião romano. O mago Merlin, por sua vez, perde sua aura de poder e feitiçaria para se reduzir a chefe de uma tribo bárbara. A mesma de onde sai a futura rainha Guinevere, que aqui nada tem de donzela, muito pelo contrário: é uma guerreira sanguinária (interpretada por Keira Knightley, a queridinha do momento em Hollywood), que diz a um colega diante do exército inimigo: "Não se preocupe, não deixarei que eles o estuprem". No filme, Arthur, ou melhor, Artorius (o inglês Clive Owen), é filho de um romano com uma bretã, e lidera uma trupe de soldados recrutados pelo Império em províncias remotas. Os arturianos de carteirinha irão reconhecer a maior parte dos nomes – ali estão Tristão (Mads Mikkelsen), Gawain (Joel Edgerton), Galahad (Hugh Dancy) e Lancelot (Ioan Gruffudd). No dia em que deveriam ser dispensados de suas obrigações militares com os romanos, Artorius e seus comandados recebem uma última missão. Eles devem salvar uma família de nobres romanos, que está prestes a ser trucidada pelos guerreiros saxões. E tudo prossegue como manda o figurino do produtor Jerry Bruckheimer, de Armageddon: com muito barulho e pancadaria. A tal "verdadeira história", a essa altura, já se perdeu nas brumas de Avalon – de onde, aliás, nunca chegou a sair, já que poucas linhas da arqueologia rendem resultados tão ínfimos quanto a da busca por um Arthur de carne e osso.

Tudo que existe sobre a verdadeira identidade do rei Arthur são especulações. As evidências históricas sobre sua origem são tênues e conflitantes. A tese mais provável é que Arthur tenha sido um guerreiro bretão romanizado e vivido entre os séculos V e VI. Na época, o domínio do Império Romano já estava se esfacelando, e as ilhas estavam entregues à confusão: a Bretanha não passava, então, de um amontoado de tribos rivais, que viviam sob ameaças de outro punhado de bárbaros – os saxões. Oriundos do norte da Europa, os saxões chegaram às Ilhas Britânicas como mercenários contratados pelos romanos – até perceberem que era mais lucrativo invadir e saquear por conta própria. Segundo os historiadores, Arthur teria sido o primeiro a submeter os belicosos saxões. Daí seu destaque e a sua rápida conversão numa lenda, que nos séculos seguintes foi cantada por trovadores em todos os cantos do reino. Arthur passou ao papel, e com estrondo, no século XII, quando o monge Geoffrey de Monmouth compilou essa tradição oral (e enfeitou-a com tudo o que sua fértil imaginação foi capaz de conceber) em História dos Reis da Bretanha. Monmouth foi quem deu ao mito a forma que ele mais ou menos preserva até hoje. Mais ou menos porque, a cada novo autor que se debruçou sobre o tema desde então, nova dose de fantasia foi acrescentada. Lancelot, por exemplo, se juntou à narrativa no meio do percurso, assim como a mais famosa peça de mobiliário da história – a távola redonda, em torno da qual Arthur e seus cavaleiros se reuniam.

A Inglaterra é pródiga em estudiosos obcecados em desvendar as raízes factuais de Arthur. Mas sua importância real é de outra ordem. É, por assim dizer, totêmica. Ele representa a transição de um caos tribal para o esboço de uma nação, e do politeísmo celta para o cristianismo. O mito do rei Arthur volta à tona toda vez que a Inglaterra passa por um período de turbulência ou nacionalismo. Não é coincidência que seu "patrono", Geoffrey de Monmouth, tenha escrito sua história logo após a invasão da Inglaterra pelos normandos. Arthur virou febre de novo no século XIX (em boa parte graças ao poema Os Idílios do Rei, de Lord Tennyson), bem quando o país consolidava sua impressionante expansão imperial. Depois do idioma inglês, aliás, Arthur é um dos mais bem-aceitos produtos de exportação das ilhas: tem o poder de fascinar não só seus conterrâneos, que podem ver espelhados na lenda todos os elementos que constituíram sua cultura, como também leitores, ouvintes e espectadores de todas as épocas, latitudes e idades. Se há uma parte da tradição que vem se provando real, é essa – a promessa de que um dia Arthur voltará da mítica Ilha de Avalon. Na indústria do entretenimento, ao menos, seus retornos são regulares. E, mesmo quando eles não têm o charme de um Excalibur, como este Rei Arthur, é difícil resistir ao apelo do guerreiro – use ele armadura ou minissaia.

 
 
 
 
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