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Cinema
Um rei Arthur
bem diferente
Novo filme
sobre o herói inglês é boa
diversão. Só não acredite que ele
mostra "a verdade por trás do mito"

Sérgio Martins
Fotos Touchstone Pictures & Jerry
Bruckheimer Fims, Inc.
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| Arthur (Clive Owen)
à frente de seus cavaleiros: a serviço do Império
Romano |
Rei
Arthur (Estados Unidos, 2004), que estréia nesta
sexta-feira no país, se anuncia como "a verdadeira história"
por trás do principal mito nacional dos ingleses. Em nome
dessa suposta fidelidade, o diretor Antoine Fuqua (Dia de Treinamento)
despe Arthur da armadura reluzente com que ele é habitualmente
representado e o veste numa inusitada minissaia de centurião
romano. O mago Merlin, por sua vez, perde sua aura de poder e feitiçaria
para se reduzir a chefe de uma tribo bárbara. A mesma de
onde sai a futura rainha Guinevere, que aqui nada tem de donzela,
muito pelo contrário: é uma guerreira sanguinária
(interpretada por Keira Knightley, a queridinha do momento em Hollywood),
que diz a um colega diante do exército inimigo: "Não
se preocupe, não deixarei que eles o estuprem". No filme,
Arthur, ou melhor, Artorius (o inglês Clive Owen), é
filho de um romano com uma bretã, e lidera uma trupe de soldados
recrutados pelo Império em províncias remotas. Os
arturianos de carteirinha irão reconhecer a maior parte dos
nomes ali estão Tristão (Mads Mikkelsen), Gawain
(Joel Edgerton), Galahad (Hugh Dancy) e Lancelot (Ioan Gruffudd).
No dia em que deveriam ser dispensados de suas obrigações
militares com os romanos, Artorius e seus comandados recebem uma
última missão. Eles devem salvar uma família
de nobres romanos, que está prestes a ser trucidada pelos
guerreiros saxões. E tudo prossegue como manda o figurino
do produtor Jerry Bruckheimer, de Armageddon: com muito barulho
e pancadaria. A tal "verdadeira história", a essa altura,
já se perdeu nas brumas de Avalon de onde, aliás,
nunca chegou a sair, já que poucas linhas da arqueologia
rendem resultados tão ínfimos quanto a da busca por
um Arthur de carne e osso.
Tudo que
existe sobre a verdadeira identidade do rei Arthur são especulações.
As evidências históricas sobre sua origem são
tênues e conflitantes. A tese mais provável é
que Arthur tenha sido um guerreiro bretão romanizado e vivido
entre os séculos V e VI. Na época, o domínio
do Império Romano já estava se esfacelando, e as ilhas
estavam entregues à confusão: a Bretanha não
passava, então, de um amontoado de tribos rivais, que viviam
sob ameaças de outro punhado de bárbaros os
saxões. Oriundos do norte da Europa, os saxões chegaram
às Ilhas Britânicas como mercenários contratados
pelos romanos até perceberem que era mais lucrativo
invadir e saquear por conta própria. Segundo os historiadores,
Arthur teria sido o primeiro a submeter os belicosos saxões.
Daí seu destaque e a sua rápida conversão numa
lenda, que nos séculos seguintes foi cantada por trovadores
em todos os cantos do reino. Arthur passou ao papel, e com estrondo,
no século XII, quando o monge Geoffrey de Monmouth compilou
essa tradição oral (e enfeitou-a com tudo o que sua
fértil imaginação foi capaz de conceber) em
História dos Reis da Bretanha. Monmouth foi quem deu
ao mito a forma que ele mais ou menos preserva até hoje.
Mais ou menos porque, a cada novo autor que se debruçou sobre
o tema desde então, nova dose de fantasia foi acrescentada.
Lancelot, por exemplo, se juntou à narrativa no meio do percurso,
assim como a mais famosa peça de mobiliário da história
a távola redonda, em torno da qual Arthur e seus cavaleiros
se reuniam.
A Inglaterra
é pródiga em estudiosos obcecados em desvendar as
raízes factuais de Arthur. Mas sua importância real
é de outra ordem. É, por assim dizer, totêmica.
Ele representa a transição de um caos tribal para
o esboço de uma nação, e do politeísmo
celta para o cristianismo. O mito do rei Arthur volta à tona
toda vez que a Inglaterra passa por um período de turbulência
ou nacionalismo. Não é coincidência que seu
"patrono", Geoffrey de Monmouth, tenha escrito sua história
logo após a invasão da Inglaterra pelos normandos.
Arthur virou febre de novo no século XIX (em boa parte graças
ao poema Os Idílios do Rei, de Lord Tennyson), bem
quando o país consolidava sua impressionante expansão
imperial. Depois do idioma inglês, aliás, Arthur é
um dos mais bem-aceitos produtos de exportação das
ilhas: tem o poder de fascinar não só seus conterrâneos,
que podem ver espelhados na lenda todos os elementos que constituíram
sua cultura, como também leitores, ouvintes e espectadores
de todas as épocas, latitudes e idades. Se há uma
parte da tradição que vem se provando real, é
essa a promessa de que um dia Arthur voltará da mítica
Ilha de Avalon. Na indústria do entretenimento, ao menos,
seus retornos são regulares. E, mesmo quando eles não
têm o charme de um Excalibur, como este Rei Arthur,
é difícil resistir ao apelo do guerreiro use
ele armadura ou minissaia.
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