Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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O mistério dos ventos solares

A sonda Genesis, que vinha do Sol, despencou
no deserto. Mas talvez ainda seja possível
salvar sua preciosa carga


Thereza Venturoli


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Um rio cósmico

A missão da sonda Genesis – coletar e mandar para a Terra pedaços do Sol – foi preparada com extremo cuidado e com o que há de mais moderno em termos de tecnologia aeroespacial. Os equipamentos de coleta – bandejas recobertas por safira, ouro, diamante sintético e alumínio, entre outros materiais – foram montados e acondicionados num ambiente ultra-esterilizado. Os instrumentos de navegação e de vôo da nave foram checados e rechecados. A rota foi traçada com tanta precisão que a cápsula contendo as partículas solares retornou à Terra de sua longa viagem no local combinado, na hora esperada: por volta das 10 da manhã de quarta-feira, num campo de treinamento das Forças Armadas americanas, no deserto de Utah. Até a recepção tinha sido exaustivamente ensaiada: dois dublês de cinema foram treinados para, de helicóptero, pescar a cápsula pendente de um pára-quedas, ainda no ar. E tudo funcionou à perfeição, exceto por um detalhe: na última hora, os pára-quedas não se abriram. A missão de 264 milhões de dólares da Nasa terminou se esborrachando a mais de 300 quilômetros por hora no solo arenoso (veja quadro) do deserto.

A cápsula, que lembra um disco voador de 200 quilos e 1,5 metro de diâmetro, carregava uma minúscula quantidade de partículas atômicas continuamente lançadas pelo Sol – o que se chama de vento solar (veja ilustração). Além de hidrogênio e hélio – os principais constituintes do Sol –, o vento solar contém uma ínfima proporção de átomos de todos os outros 81 elementos da tabela periódica que existem naturalmente – ou seja, que não foram criados pelo homem em laboratórios. Os cientistas acreditam que a análise desse pó de estrela permitiria desvendar não apenas a composição original da nuvem de poeira e gases que deu origem a todo o sistema solar, há mais de 4,5 bilhões de anos. Seria possível também saber a proporção em que cada elemento participou na concepção do Sol e dos planetas. Para isso, seria preciso que a preciosa carga não tocasse o solo, para que não houvesse a menor contaminação.

Esses fiascos, embora desconcertantes, são quase rotina em missões muito ousadas. "Parece que sabemos pousar em Marte, mas não na Terra", ironizou John Logsdon, diretor do Instituto de Política Espacial, da Universidade George Washington. Não é à toa: a Nasa não tinha, até agora, nenhuma experiência em resgates terrestres desse tipo, com o emprego de técnicas e truques cinematográficos. Os engenheiros da Nasa não sabem dizer, ainda, o que ocasionou a falha com a Genesis e prometem dar alguma explicação em breve. Há esperança. Como a cápsula não se arrebentou completamente, é possível que algumas amostras ainda sejam aproveitáveis.

 
 
 
 
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