Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Comportamento
Para estressados mirins

Era inevitável: a onda da auto-ajuda
chega ao público infanto-juvenil


Gabriela Carelli


Claudio Rossi
Colégio Pueri Domus, em São Paulo: livros com conselhos em sala de aula


EXCLUSIVO ON-LINE
Trechos dos livros

A literatura sempre foi uma arma poderosa dos pais para transmitir valores morais e éticos aos filhos. Todos os clássicos da ficção infantil trazem exemplos do que é bom e do que é mau, do certo e do errado, e terminam com a mensagem de que é possível superar medos, traumas e diferenças. De uns tempos para cá, um outro tipo de livro passou a concorrer com a turma do Pinóquio e da Cinderela – o de auto-ajuda infantil. Isso mesmo: também as crianças se tornaram alvo dos manuais que fornecem fórmulas práticas para resolver todos os problemas da vida. Enquanto a ficção infantil convencional utiliza fantasias e metáforas para transmitir suas lições, os livros de auto-ajuda vão direto ao ponto (veja quadro). Ensinam a criança a lidar com o divórcio dos pais e não se sentir culpada pela separação, mostram como superar a morte de pessoas queridas, como se sair bem na escola e até como ser gordinho num mundo em que Felipe Dylon e Gisele Bündchen são o padrão de beleza.

André Penner
Adriana, com Henrique e Felipe: "Eles relaxam com mais facilidade"


Como já acontece há tempos com seus equivalentes para adultos, os livros de auto-ajuda infantil estão se tornando um fenômeno editorial. Nos Estados Unidos, a venda de títulos do gênero duplicou nos últimos doze meses. No Brasil, calcula-se que tenha aumentado 50% em 2003. "A procura nos pressionou a criar um selo só para essa categoria", diz a paulista Lenice Bueno, da editora Salamandra, há 25 anos especializada em obras infantis. A maioria desses livros começa com uma introdução explicativa sobre o assunto, discorre sobre os prós e os contras das situações enfrentadas e termina com uma lista de conselhos em forma de pílulas. Para os mais novos, as mensagens costumam vir em meio a ilustrações e podem ser lidas com o acompanhamento de um adulto. Todas as obras apostam suas fichas no fato de que se vive uma época de pais sem tempo suficiente para conversar com os filhos de maneira adequada e de crianças e adolescentes igualmente estressados por múltiplas atividades. Assim, os livros supririam importantes lacunas de comunicação.

Como muita gente não engole a literatura de auto-ajuda, duvidando de sua eficácia como suporte ao aperfeiçoamento interior, não é de estranhar que especialistas em educação tenham opiniões diversas sobre os novos best-sellers infantis. "Não gosto de auto-ajuda nenhuma. Esses livros dão fórmulas do que é certo ou errado. O ideal é estimular a criança a pensar, e não inculcar-lhe juízos de valor", diz a pedagoga Myriam Tricate, diretora do Colégio Magno, em São Paulo. Os que vêem esses títulos com mais simpatia argumentam que os livros são bons recursos para os pais iniciarem o diálogo sobre temas complicados com os filhos. "É um começo, mas a leitura não elimina a responsabilidade dos pais de observar as reações dos filhos e apoiá-los nos momentos difíceis", alerta o psicólogo Fabiano Murgia, que já acompanhou crianças usuárias desses livros.

Goste-se ou não dos manuais de auto-ajuda para crianças, muitos colégios já os utilizam para discutir determinados assuntos em sala de aula. É o caso do Pueri Domus, em São Paulo, onde as professoras lêem esses livros para alunos do maternal ao pré-primário. "Em todo grupo há crianças segregadas pela turma porque são gordinhas ou têm pais separados. Esses livros ajudam a diminuir o preconceito, eles funcionam", diz a coordenadora de educação infantil do Pueri Domus, Regina Borella. "Até indicamos títulos para os pais usarem em casa." A empresária Adriana Salles, mãe de Felipe, de 8 anos, e de Henrique, de 4, descobriu os livros de auto-ajuda para crianças por intermédio do colégio. Hoje, recorre à leitura sempre que nota que os filhos passam por dificuldades ou têm um comportamento estranho. Foi o que fez quando sentiu que o mais velho estava com problemas de insônia e ansiedade. "Escolhi um livro que mostrava como a ansiedade faz com que as pessoas se atrapalhem, troquem os pés pelas mãos", diz Adriana. "Tanto o Felipe quanto o Henrique se identificaram com o texto e agora relaxam com mais facilidade." Assim como na auto-ajuda para adultos, é difícil saber se esses manuais realmente funcionam a longo prazo ou se as pessoas tendem a esquecer o que leram diante das novas atribulações da vida. A única certeza que se tem é a de que eles são uma mina de ouro inesgotável.

 

O que os livros dizem às crianças

NAMORADA DO PAI
"Ela não vai ser sua nova mãe. Você já tem uma mãe. Ela é alguém que gosta do seu pai e que vai gostar de você também, se você deixar"

Tenho Duas Casas
(Editora DeLeitura)


APARÊNCIA
"Não zombe de quem tem algum defeito. É uma covardia. Ninguém é perfeito, nem você!"

Ninguém É Perfeito
(Editora Paulus)


RAIVA
"Não destrua coisas quando estiver nervoso – nem as suas nem as dos outros. É provável que se arrependa disso mais tarde"

Ficar com Raiva Não É Ruim
(Editora Paulus)


BEBÊ A CAMINHO
"Não se preocupe. Ele não vai tirar o seu lugar. Você já tem lugar garantido no coração de seus pais"

Tenho Duas Casas
(Editora DeLeitura)


MEDO
"Falar com os pais sobre o medo é uma boa solução. A conversa pode fazer com que seus medos sejam vistos na perspectiva correta"

Bicho-Papão Não Existe
(Editora Fundamento)


BOAS MANEIRAS
"Quem fala não tá comendo / Quem tá comendo não fala nada / Não se fala de boca cheia e se come de boca fechada"

Manual de Boas Maneiras
(Jorge Zahar Editor)


ESCOLA
"Sua mente é como uma esponja que nunca fica cheia. Aproveite e absorva todas as idéias que puder"

Tornando a Escola Legal
(Editora Paulus)


FICAR SOZINHO
"Se você estiver sozinho em casa e alguém tocar a campainha, não abra a porta, mesmo se a pessoa estiver usando uniforme de policial ou carteiro"

Quando Estou Sozinho... Um Guia de Auto-Ajuda para as Crianças
(Editora Callis)


MORTE
"Você pode se sentir triste e sozinho, e isso dói. Não é fácil falar desses sentimentos, mas, se conseguir, vai se sentir melhor"

Quando os Dinossauros Morrem
(Editora Salamandra)


OBESIDADE
"Se suas amigas são mais magras e você não pode trocar roupas com elas, troque tiaras, sandálias, pulseiras –
ou, melhor ainda, troque idéias"

De Cara com o Espelho
(Editora Moderna)


SEPARAÇÃO
"Você não é o culpado pelo divórcio. Ele não aconteceu porque você fez qualquer coisa de errado"

Meus Pais se Separaram, e Agora?
(Editora Novo Século)

 
 
 
 
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