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Comportamento
Para estressados mirins
Era inevitável: a onda da auto-ajuda
chega ao público infanto-juvenil

Gabriela Carelli
Claudio Rossi
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| Colégio Pueri Domus, em São
Paulo: livros com conselhos em sala de aula |
A literatura sempre foi uma arma poderosa dos
pais para transmitir valores morais e éticos aos filhos.
Todos os clássicos da ficção infantil trazem
exemplos do que é bom e do que é mau, do certo e do
errado, e terminam com a mensagem de que é possível
superar medos, traumas e diferenças. De uns tempos para cá,
um outro tipo de livro passou a concorrer com a turma do Pinóquio
e da Cinderela o de auto-ajuda infantil. Isso mesmo: também
as crianças se tornaram alvo dos manuais que fornecem fórmulas
práticas para resolver todos os problemas da vida. Enquanto
a ficção infantil convencional utiliza fantasias e
metáforas para transmitir suas lições, os livros
de auto-ajuda vão direto ao ponto (veja
quadro). Ensinam a criança a lidar com o divórcio
dos pais e não se sentir culpada pela separação,
mostram como superar a morte de pessoas queridas, como se sair bem
na escola e até como ser gordinho num mundo em que Felipe
Dylon e Gisele Bündchen são o padrão de beleza.
André Penner
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| Adriana, com Henrique e Felipe: "Eles
relaxam com mais facilidade" |
Como já acontece há tempos com seus equivalentes para
adultos, os livros de auto-ajuda infantil estão se tornando
um fenômeno editorial. Nos Estados Unidos, a venda de títulos
do gênero duplicou nos últimos doze meses. No Brasil,
calcula-se que tenha aumentado 50% em 2003. "A procura nos pressionou
a criar um selo só para essa categoria", diz a paulista Lenice
Bueno, da editora Salamandra, há 25 anos especializada em
obras infantis. A maioria desses livros começa com uma introdução
explicativa sobre o assunto, discorre sobre os prós e os
contras das situações enfrentadas e termina com uma
lista de conselhos em forma de pílulas. Para os mais novos,
as mensagens costumam vir em meio a ilustrações e
podem ser lidas com o acompanhamento de um adulto. Todas as obras
apostam suas fichas no fato de que se vive uma época de pais
sem tempo suficiente para conversar com os filhos de maneira adequada
e de crianças e adolescentes igualmente estressados por múltiplas
atividades. Assim, os livros supririam importantes lacunas de comunicação.
Como muita gente não engole a literatura
de auto-ajuda, duvidando de sua eficácia como suporte ao
aperfeiçoamento interior, não é de estranhar
que especialistas em educação tenham opiniões
diversas sobre os novos best-sellers infantis. "Não gosto
de auto-ajuda nenhuma. Esses livros dão fórmulas do
que é certo ou errado. O ideal é estimular a criança
a pensar, e não inculcar-lhe juízos de valor", diz
a pedagoga Myriam Tricate, diretora do Colégio Magno, em
São Paulo. Os que vêem esses títulos com mais
simpatia argumentam que os livros são bons recursos para
os pais iniciarem o diálogo sobre temas complicados com os
filhos. "É um começo, mas a leitura não elimina
a responsabilidade dos pais de observar as reações
dos filhos e apoiá-los nos momentos difíceis", alerta
o psicólogo Fabiano Murgia, que já acompanhou crianças
usuárias desses livros.
Goste-se ou não dos manuais de auto-ajuda
para crianças, muitos colégios já os utilizam
para discutir determinados assuntos em sala de aula. É o
caso do Pueri Domus, em São Paulo, onde as professoras lêem
esses livros para alunos do maternal ao pré-primário.
"Em todo grupo há crianças segregadas pela turma porque
são gordinhas ou têm pais separados. Esses livros ajudam
a diminuir o preconceito, eles funcionam", diz a coordenadora de
educação infantil do Pueri Domus, Regina Borella.
"Até indicamos títulos para os pais usarem em casa."
A empresária Adriana Salles, mãe de Felipe, de 8 anos,
e de Henrique, de 4, descobriu os livros de auto-ajuda para crianças
por intermédio do colégio. Hoje, recorre à
leitura sempre que nota que os filhos passam por dificuldades ou
têm um comportamento estranho. Foi o que fez quando sentiu
que o mais velho estava com problemas de insônia e ansiedade.
"Escolhi um livro que mostrava como a ansiedade faz com que as pessoas
se atrapalhem, troquem os pés pelas mãos", diz Adriana.
"Tanto o Felipe quanto o Henrique se identificaram com o texto e
agora relaxam com mais facilidade." Assim como na auto-ajuda para
adultos, é difícil saber se esses manuais realmente
funcionam a longo prazo ou se as pessoas tendem a esquecer o que
leram diante das novas atribulações da vida. A única
certeza que se tem é a de que eles são uma mina de
ouro inesgotável.
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O que os livros
dizem às crianças
NAMORADA DO PAI
"Ela não vai ser sua nova mãe. Você
já tem uma mãe. Ela é alguém
que gosta do seu pai e que vai gostar de você
também, se você deixar"
Tenho
Duas Casas
(Editora DeLeitura)
APARÊNCIA
"Não zombe de quem tem algum defeito. É
uma covardia. Ninguém é perfeito, nem
você!"
Ninguém
É Perfeito
(Editora Paulus)
RAIVA
"Não destrua coisas quando estiver nervoso
nem as suas nem as dos outros. É provável
que se arrependa disso mais tarde"
Ficar
com Raiva Não É Ruim
(Editora Paulus)
BEBÊ
A CAMINHO
"Não se preocupe. Ele não vai tirar
o seu lugar. Você já tem lugar garantido
no coração de seus pais"
Tenho
Duas Casas
(Editora DeLeitura)
MEDO
"Falar com os pais sobre o medo é uma boa solução.
A conversa pode fazer com que seus medos sejam vistos
na perspectiva correta"
Bicho-Papão
Não Existe
(Editora Fundamento)
BOAS
MANEIRAS
"Quem fala não tá comendo / Quem
tá comendo não fala nada / Não
se fala de boca cheia e se come de boca fechada"
Manual
de Boas Maneiras
(Jorge Zahar Editor)
ESCOLA
"Sua mente é como uma esponja que nunca fica
cheia. Aproveite e absorva todas as idéias que
puder"
Tornando
a Escola Legal
(Editora Paulus)
FICAR
SOZINHO
"Se você estiver sozinho em casa e alguém
tocar a campainha, não abra a porta, mesmo se
a pessoa estiver usando uniforme de policial ou carteiro"
Quando
Estou Sozinho... Um Guia de Auto-Ajuda para as Crianças
(Editora Callis)
MORTE
"Você pode se sentir triste e sozinho, e isso
dói. Não é fácil falar desses
sentimentos, mas, se conseguir, vai se sentir melhor"
Quando
os Dinossauros Morrem
(Editora Salamandra)
OBESIDADE
"Se suas amigas são mais magras e você
não pode trocar roupas com elas, troque tiaras,
sandálias, pulseiras
ou, melhor ainda, troque idéias"
De Cara
com o Espelho
(Editora Moderna)
SEPARAÇÃO
"Você não é o culpado pelo divórcio.
Ele não aconteceu porque você fez qualquer
coisa de errado"
Meus
Pais se Separaram, e Agora?
(Editora Novo Século)
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