Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Medicina
Terapia de choque

O eletrochoque para o tratamento de
doenças psiquiátricas é reabilitado pela
medicina


Paula Neiva

Até a década de 50, o eletrochoque era um procedimento corriqueiro no tratamento de doentes psiquiátricos. Com a criação de medicamentos mais efetivos para o tratamento de distúrbios mentais, ele foi sendo gradualmente abandonado. Agora, com a constatação de que os remédios não dão conta de tudo, o eletrochoque voltou a ser utilizado nos principais centros de psiquiatria – o nome técnico é eletroconvulsoterapia, ou simplesmente ECT. "Em casos muito específicos, a ECT tem se revelado imprescindível", diz o psiquiatra Sérgio Rigonatti, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Regulamentado pelo Conselho Federal de Medicina, o método é indicado para pacientes graves, que não respondem a nenhum outro tipo de tratamento (veja quadro).

Ainda não se desvendou por completo o princípio de ação do eletrochoque no combate a doenças como depressão ou transtorno bipolar. Suspeita-se que as descargas elétricas, ao causar convulsões no paciente, aumentariam a quantidade de substâncias químicas cerebrais relacionadas à sensação de bem-estar. Elas também teriam a capacidade de aumentar o número de conexões nervosas no hipocampo, área cerebral associada ao controle das emoções. O procedimento todo dura menos de um minuto. Antes da aplicação do eletrochoque, o paciente é anestesiado e imobilizado. Dois eletrodos são colocados, então, em sua cabeça e suas atividades vitais passam a ser monitoradas. A descarga elétrica, de dois segundos, é suficiente apenas para acender uma lâmpada de 20 watts por alguns instantes. Mesmo assim, depois da sessão, muitos pacientes relatam dores musculares e de cabeça. Por causa da anestesia, nenhum deles se lembra do procedimento. Em média, um tratamento requer até doze sessões, depois das quais a doença pode ser controlada com o uso de medicamentos. O tratamento de choque é eficaz em até 90% dos casos de depressão grave, refratários a medicamentos num primeiro momento.

As primeiras máquinas de eletrochoque foram criadas na década de 30, por cientistas italianos. Sem a precisão dos aparelhos modernos, os médicos não conseguiam controlar a intensidade da descarga e o tipo de onda elétrica. Por isso mesmo, os efeitos colaterais do tratamento podiam ser severos. Era comum que o paciente tivesse luxações e fraturas decorrentes das contraturas musculares e sofresse longos períodos de perda de memória. O eletrochoque, hoje, é sem dúvida mais seguro e lembra menos um instrumento de tortura. Nem por isso deve ser utilizado indiscriminadamente. "A prescrição precisa ser bem criteriosa, e o número máximo de aplicações é de três vezes por semana", diz o psiquiatra Marco Antônio Brasil, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria.

 

Último recurso

O eletrochoque é recomendado para pacientes graves e que não respondem ao uso de medicamentos. As principais indicações são:

Depressão

Esquizofrenia catatônica

Manias com sintomas psicóticos

Transtorno bipolar

Pacientes idosos e gestantes, que podem sofrer efeitos colaterais graves com o uso de medicamentos

 

Fontes: Sérgio Rigonatti, diretor do serviço de eletroconvulsoterapia
do Hospital das Clínicas de São Paulo,
e José Alberto Del Porto,
psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo

 
 
 
 
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