Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Economia e Negócios
Diplomacia do faz-de-conta

A postura beligerante do presidente
Néstor Kirchner mostra que o Mercosul
é apenas uma ficção


Chrystiane Silva e Carlos Rydlewski

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Os entraves impostos pela Argentina sobre produtos brasileiros

O presidente da Argentina, Néstor Kirchner, cutucou novamente o Brasil em sua tentativa de conter o declínio de seus índices de popularidade. Não satisfeito com as barreiras impostas à entrada de eletrodomésticos e produtos têxteis brasileiros, Kirchner decidiu agora criar problemas com a indústria automobilística. Em visita a uma fábrica da Volkswagen na Província de Buenos Aires, na semana passada, o presidente afirmou que não aceita liberar as vendas de automóveis dos dois lados da fronteira a partir de 2006, como havia sido combinado há quatro anos num acordo entre os quatro países do Mercosul. A justificativa do presidente argentino reforça a percepção de que sua administração tem especial apreço pelo rompimento de acordos. Segundo Kirchner, a liberação do comércio de automóveis entre os dois países ameaça o desenvolvimento da indústria argentina porque os brasileiros têm mais condições de competir. Ele disse que a decisão não causaria atritos porque seria "totalmente compreendida" pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No dia seguinte, Roberto Lavagna, o ministro da Economia de Kirchner, tentou colocar panos quentes depois de se encontrar em Brasília com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ministros Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, Celso Amorim, das Relações Exteriores, Antonio Palocci, da Fazenda, e José Dirceu, da Casa Civil. Para os encontros em Brasília, Lavagna levou uma proposta para "melhorar" o Mercosul que se resume a aumentar a intervenção do governo. A Argentina quer controles para dirigir os investimentos externos, fontes de financiamento e políticas setoriais. Por ordem de Lula, os ministros vão dar atenção às propostas, mas, na verdade, o governo brasileiro decidiu não reagir. A orientação é demonstrar novamente solidariedade com os problemas econômicos do país vizinho. Se quisesse reagir à altura, no entanto, o Brasil teria argumentos de sobra. Se o Mercosul fosse um campeonato de futebol, a Argentina estaria disparado na frente. Desde que os presidentes Fernando Collor, Andrés Rodríguez, Carlos Menem e Luis Alberto Lacalle assinaram o Tratado de Assunção, que deu origem ao bloco em 1991, as trocas comerciais entre Argentina e Brasil, as duas maiores economias, foram muito mais favoráveis ao país ao sul do Rio da Prata. O saldo argentino ultrapassa os 7 bilhões de dólares. Ainda assim, o choro dos portenhos não estanca. A crise existencial do Mercosul tem sido uma constante desde a desvalorização do real em 1999, mas o ânimo com que o atual governo argentino protege os setores que perdem na competição com os brasileiros deu um novo ímpeto às previsões pessimistas sobre o futuro do bloco. Simplesmente porque livre-comércio não rima com protecionismo.

 
AFP
Piquetes em Buenos Aires: governo reage à crise social com medidas populistas

A intenção do presidente Kirchner de renegociar os prazos do acordo que regula o comércio de automóveis no Mercosul era conhecida do governo brasileiro há várias semanas. Além de todos os problemas do Mercosul, a Argentina se tornou uma espécie de pária desde 2001, quando deu um calote em investidores privados que possuem cerca de 100 bilhões de dólares em títulos argentinos. O Mercosul foi um projeto geopolítico idealizado pelo Itamaraty e defendido por quem ocupou o Palácio do Planalto desde então. Mas, a contar pela reação brasileira nos últimos vinte meses, as demandas argentinas estão encontrando maior receptividade no governo do PT.

Desde o começo dos anos 90, o Brasil atraiu quase 30 bilhões de dólares em investimentos para a indústria automobilística. Nos últimos seis anos, dez fábricas foram construídas no Brasil e nenhuma na Argentina. Para alguns analistas argentinos, essa discrepância tem relação com os incentivos fiscais. Eles esquecem o tamanho do mercado brasileiro. As vendas internas no Brasil neste ano devem chegar a 1,6 milhão de veículos, contra 250.000 na Argentina. Em 1997, quando os dois países registraram números recordes, o mercado brasileiro absorveu cerca de 2 milhões de automóveis e o argentino chegou perto de 450.000. Apesar da evidência dos números, as montadoras estão dispostas a conversar. "Em qualquer hipótese, devemos estar sempre abertos para negociar", diz José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente da General Motors do Brasil.

Com a criação do Mercosul, parte das empresas brasileiras fez investimentos e se planejou para explorar o mercado argentino. Nos anos 90, a produtividade da indústria brasileira deu um salto. Medida pelo número de produtos que cada empregado fabrica por ano, cresceu a uma taxa anual de 8%. Entre os emergentes, a Coréia do Sul foi a única a apresentar um resultado melhor. Já a Argentina teve um desempenho 25% inferior ao brasileiro. Agora, em vez de colherem os frutos do esforço, as empresas brasileiras estão sendo punidas com cotas e intervenções. "Precisamos promover um processo de reindustrialização da Argentina", diz Lavagna.

Os representantes do governo argentino costumam argumentar que seu país é um mercado valioso porque é o destino de produtos industrializados brasileiros. Se o valor agregado dos produtos fosse o único parâmetro para medir a importância dos parceiros comerciais, não haveria dúvidas de que a prioridade está no norte. Já na década de 90, metade das vendas de produtos brasileiros de alta tecnologia era feita nos Estados Unidos e no Canadá. A partir de 2000, de cada 10 dólares exportados na categoria high-tech, 7 iam para a América do Norte. Os negócios não se restringem a aeronaves e produtos eletrônicos, como mostra um estudo da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). Os setores de máquinas e de informática estão bastante consolidados. Apesar dos números, o choro argentino não dá mostras de que vá parar.



Com reportagem de
Carina Nucci

 

"Se eu fosse um professor universitário
diria que o Mercosul não deu certo"


AP


O ministro da Economia da Argentina, Roberto Lavagna, foi um dos idealizadores do processo que acabou aproximando as duas maiores economias da América do Sul na década de 80. Na semana passada ele esteve em Brasília e concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Por que o Mercosul ainda não conseguiu ser uma área de livre-comércio sem cotas?
Lavagna – Primeiro, é preciso entender que com o Mercosul houve o maior crescimento comercial entre Brasil e Argentina dos últimos cinqüenta anos. Segundo, pode-se perguntar se o bloco alcançou toda a sua potencialidade? Neste caso, a resposta é não.

Veja – Livre-comércio para o senhor pressupõe que dentro de um país haverá perdedores e ganhadores?
Lavagna – Vou deixar a definição de livre-comércio para os livros. Para mim, livre-comércio é o que garante o aumento das transações comerciais e o desenvolvimento industrial de uma região. No mundo todo, o que garantiu a expansão do comércio e a riqueza foi a especialização intra-industrial. O Mercosul vai ter êxito quando se expandir assim, utilizando todas as cadeias produtivas.

Veja – Sempre se compara o Mercosul com a União Européia. E o Nafta, que era menos ambicioso, mas foi bem mais longe que o Mercosul?
Lavagna – Eu não vou fazer uma análise sobre o Nafta. Mercosul e Nafta são diferentes. O Nafta veio legalizar o comércio que já existia entre Estados Unidos, Canadá e México. No caso do Mercosul, criou-se o comércio entre Brasil e Argentina, que era muito baixo.

Veja – Outra diferença entre Mercosul e Nafta é o número de cotas, muito maior entre Argentina e Brasil...
Lavagna – O problema é de definição. Essa questão das cotas é irrelevante. O que importa é a expansão do comércio e dos investimentos. Apesar de os países terem adotado políticas muito distintas na década de 90, hoje elas estão muito parecidas.

Veja – Como pode haver equilíbrio entre duas economias tão distintas?
Lavagna – Não existe uma indústria igual a outra. Há um erro grave ao afirmar que toda a indústria brasileira é mais competitiva que a argentina. Existem alguns setores em que o desempenho é melhor, e por isso o governo argentino decidiu discutir o problema da industrialização. O Brasil não é responsável por nada, e a Argentina não pede nada ao Brasil.

Veja – A indústria argentina teve muito tempo para se adaptar à competição com o Brasil. Vai precisar de mais dez anos?
Lavagna – A situação da Argentina não é responsabilidade do Brasil, e jamais alguém disse que era. Na Argentina houve o problema da convertibilidade entre o peso e o dólar, que durou onze anos e empurrou o país para a desindustrialização.

  Eduardo Salgado

 

 
 
 
 
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