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Economia e Negócios
Diplomacia do faz-de-conta
A postura
beligerante do presidente
Néstor
Kirchner mostra que o Mercosul
é apenas uma ficção
Chrystiane Silva e
Carlos Rydlewski
O presidente
da Argentina, Néstor Kirchner, cutucou novamente o Brasil
em sua tentativa de conter o declínio de seus índices
de popularidade. Não satisfeito com as barreiras impostas
à entrada de eletrodomésticos e produtos têxteis
brasileiros, Kirchner decidiu agora criar problemas com a indústria
automobilística. Em visita a uma fábrica da Volkswagen
na Província de Buenos Aires, na semana passada, o presidente
afirmou que não aceita liberar as vendas de automóveis
dos dois lados da fronteira a partir de 2006, como havia sido combinado
há quatro anos num acordo entre os quatro países do
Mercosul. A justificativa do presidente argentino reforça
a percepção de que sua administração
tem especial apreço pelo rompimento de acordos. Segundo Kirchner,
a liberação do comércio de automóveis
entre os dois países ameaça o desenvolvimento da indústria
argentina porque os brasileiros têm mais condições
de competir. Ele disse que a decisão não causaria
atritos porque seria "totalmente compreendida" pelo presidente Luiz
Inácio Lula da Silva.
No dia
seguinte, Roberto Lavagna, o ministro da Economia de Kirchner, tentou
colocar panos quentes depois de se encontrar em Brasília
com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ministros
Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, Celso Amorim, das Relações
Exteriores, Antonio Palocci, da Fazenda, e José Dirceu, da
Casa Civil. Para os encontros em Brasília, Lavagna levou
uma proposta para "melhorar" o Mercosul que se resume a aumentar
a intervenção do governo. A Argentina quer controles
para dirigir os investimentos externos, fontes de financiamento
e políticas setoriais. Por ordem de Lula, os ministros vão
dar atenção às propostas, mas, na verdade,
o governo brasileiro decidiu não reagir. A orientação
é demonstrar novamente solidariedade com os problemas econômicos
do país vizinho. Se quisesse reagir à altura, no entanto,
o Brasil teria argumentos de sobra. Se o Mercosul fosse um campeonato
de futebol, a Argentina estaria disparado na frente. Desde que os
presidentes Fernando Collor, Andrés Rodríguez, Carlos
Menem e Luis Alberto Lacalle assinaram o Tratado de Assunção,
que deu origem ao bloco em 1991, as trocas comerciais entre Argentina
e Brasil, as duas maiores economias, foram muito mais favoráveis
ao país ao sul do Rio da Prata. O saldo argentino ultrapassa
os 7 bilhões de dólares. Ainda assim, o choro dos
portenhos não estanca. A crise existencial do Mercosul tem
sido uma constante desde a desvalorização do real
em 1999, mas o ânimo com que o atual governo argentino protege
os setores que perdem na competição com os brasileiros
deu um novo ímpeto às previsões pessimistas
sobre o futuro do bloco. Simplesmente porque livre-comércio
não rima com protecionismo.
AFP
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| Piquetes em Buenos
Aires:
governo reage à crise social com medidas populistas |
A intenção
do presidente Kirchner de renegociar os prazos do acordo que regula
o comércio de automóveis no Mercosul era conhecida
do governo brasileiro há várias semanas. Além
de todos os problemas do Mercosul, a Argentina se tornou uma espécie
de pária desde 2001, quando deu um calote em investidores
privados que possuem cerca de 100 bilhões de dólares
em títulos argentinos. O Mercosul foi um projeto geopolítico
idealizado pelo Itamaraty e defendido por quem ocupou o Palácio
do Planalto desde então. Mas, a contar pela reação
brasileira nos últimos vinte meses, as demandas argentinas
estão encontrando maior receptividade no governo do PT.
Desde o
começo dos anos 90, o Brasil atraiu quase 30 bilhões
de dólares em investimentos para a indústria automobilística.
Nos últimos seis anos, dez fábricas foram construídas
no Brasil e nenhuma na Argentina. Para alguns analistas argentinos,
essa discrepância tem relação com os incentivos
fiscais. Eles esquecem o tamanho do mercado brasileiro. As vendas
internas no Brasil neste ano devem chegar a 1,6 milhão de
veículos, contra 250.000 na Argentina. Em 1997, quando os
dois países registraram números recordes, o mercado
brasileiro absorveu cerca de 2 milhões de automóveis
e o argentino chegou perto de 450.000. Apesar da evidência
dos números, as montadoras estão dispostas a conversar.
"Em qualquer hipótese, devemos estar sempre abertos para
negociar", diz José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente
da General Motors do Brasil.
Com a criação
do Mercosul, parte das empresas brasileiras fez investimentos e
se planejou para explorar o mercado argentino. Nos anos 90, a produtividade
da indústria brasileira deu um salto. Medida pelo número
de produtos que cada empregado fabrica por ano, cresceu a uma taxa
anual de 8%. Entre os emergentes, a Coréia do Sul foi a única
a apresentar um resultado melhor. Já a Argentina teve um
desempenho 25% inferior ao brasileiro. Agora, em vez de colherem
os frutos do esforço, as empresas brasileiras estão
sendo punidas com cotas e intervenções. "Precisamos
promover um processo de reindustrialização da Argentina",
diz Lavagna.
Os representantes
do governo argentino costumam argumentar que seu país é
um mercado valioso porque é o destino de produtos industrializados
brasileiros. Se o valor agregado dos produtos fosse o único
parâmetro para medir a importância dos parceiros comerciais,
não haveria dúvidas de que a prioridade está
no norte. Já na década de 90, metade das vendas de
produtos brasileiros de alta tecnologia era feita nos Estados Unidos
e no Canadá. A partir de 2000, de cada 10 dólares
exportados na categoria high-tech, 7 iam para a América do
Norte. Os negócios não se restringem a aeronaves e
produtos eletrônicos, como mostra um estudo da Fundação
Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). Os setores
de máquinas e de informática estão bastante
consolidados. Apesar dos números, o choro argentino não
dá mostras de que vá parar.
Com reportagem de Carina Nucci
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"Se
eu fosse um professor universitário
diria que o Mercosul não deu certo"
AP
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O ministro da Economia da Argentina, Roberto Lavagna,
foi um dos idealizadores do processo que acabou aproximando
as duas maiores economias da América do Sul na
década de 80. Na semana passada ele esteve em
Brasília e concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja
Por que o Mercosul
ainda não conseguiu ser uma área de livre-comércio
sem cotas?
Lavagna
Primeiro, é
preciso entender que com o Mercosul houve o maior crescimento
comercial entre Brasil e Argentina dos últimos
cinqüenta anos. Segundo, pode-se perguntar se o
bloco alcançou toda a sua potencialidade? Neste
caso, a resposta é não.
Veja
Livre-comércio
para o senhor pressupõe que dentro de um país
haverá perdedores e ganhadores?
Lavagna
Vou deixar
a definição de livre-comércio para
os livros. Para mim, livre-comércio é
o que garante o aumento das transações
comerciais e o desenvolvimento industrial de uma região.
No mundo todo, o que garantiu a expansão do comércio
e a riqueza foi a especialização intra-industrial.
O Mercosul vai ter êxito quando se expandir assim,
utilizando todas as cadeias produtivas.
Veja
Sempre se compara
o Mercosul com a União Européia. E o Nafta,
que era menos ambicioso, mas foi bem mais longe que
o Mercosul?
Lavagna
Eu não vou fazer uma
análise sobre o Nafta. Mercosul e Nafta são
diferentes. O Nafta veio legalizar o comércio
que já existia entre Estados Unidos, Canadá
e México. No caso do Mercosul, criou-se o comércio
entre Brasil e Argentina, que era muito baixo.
Veja
Outra diferença
entre Mercosul e Nafta é o número de cotas,
muito maior entre Argentina e Brasil...
Lavagna
O
problema é de definição. Essa questão
das cotas é irrelevante. O que importa é
a expansão do comércio e dos investimentos.
Apesar de os países terem adotado políticas
muito distintas na década de 90, hoje elas estão
muito parecidas.
Veja
Como pode haver equilíbrio
entre duas economias tão distintas?
Lavagna
Não existe uma indústria
igual a outra. Há um erro grave ao afirmar que
toda a indústria brasileira é mais competitiva
que a argentina. Existem alguns setores em que o desempenho
é melhor, e por isso o governo argentino decidiu
discutir o problema da industrialização.
O Brasil não é responsável por
nada, e a Argentina não pede nada ao Brasil.
Veja
A indústria
argentina teve muito tempo para se adaptar à
competição com o Brasil. Vai precisar
de mais dez anos?
Lavagna
A situação
da Argentina não é responsabilidade do
Brasil, e jamais alguém disse que era. Na Argentina
houve o problema da convertibilidade entre o peso e
o dólar, que durou onze anos e empurrou o país
para a desindustrialização.
Eduardo
Salgado
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