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Internacional
"...É DOLOROSO
QUE QUASE TODOS OS TERRORISTAS
SEJAM MUÇULMANOS"
Abdel
Rahman al-Rashed, diretor da rede
de televisão Al Arabiya
Repúdio
ao massacre das crianças russas
revela a existência de vozes moderadas
no mundo islâmico, que
não aceitam que
Alá seja usado para justificar
atrocidades
AP
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REPULSA
MUNDIAL
Italianos protestam em
Roma contra o
massacre dos inocentes na Rússia
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O massacre das
crianças no sul da Rússia teve um desdobramento inesperado
e, de certa forma, auspicioso: pôs em marcha entre os muçulmanos
uma onda de autocrítica e condenações ao terror.
"É fato que nem todos os muçulmanos são terroristas,
mas é igualmente certo, e doloroso, que quase todos os terroristas
são muçulmanos", escreveu Abdel Rahman al-Rashed,
diretor da rede de televisão Al Arabiya, a de maior audiência
no mundo árabe. Rashed manifestou claramente, em sua coluna
num jornal que circula por todo o mundo árabe, uma repulsa
ao terror que raros muçulmanos ousam expressar em público.
Seus leitores não estão acostumados a ler que não
há causa que justifique o terrorismo. Na última década,
sobretudo desde o ataque ao World Trade Center, há três
anos, a imprensa e as pessoas com alguma autoridade nos países
islâmicos sempre encontravam um desvio retórico para
ignorar ou justificar ações terroristas. Quando alguém
expressava reservas por discordar de matanças indiscriminadas
ou talvez por duvidar da eficácia do método
quase sempre ressalvava que se compreendiam as razões dos
assassinatos em massa. Desta vez, ouviu-se coisa diferente. Rashed
qualificou de "degradantes" não apenas a chacina cometida
na cidadezinha russa de Beslan, mas também atentados sobre
os quais os muçulmanos mantiveram silêncio. Um deles,
o recente assassinato de doze trabalhadores nepaleses no Iraque.
O jornal Okaz, editado na Arábia Saudita, terra natal
de Osama bin Laden e de quinze dos terroristas do 11 de Setembro,
resumiu sua indignação em uma manchete arrasadora:
"Açougueiros em nome de Alá".
Os comentários
da imprensa árabe são excepcionais por ter sido escritos
por muçulmanos para ser lidos por muçulmanos. Ajudam
também a jogar luz sobre um conflito existente no interior
do mundo islâmico, mas pouco percebido fora dele: a disputa
por corações e mentes entre duas formas de ser muçulmano
nos tempos modernos. De um lado estão os fanáticos,
como Osama bin Laden, cujo objetivo é destruir a civilização
ocidental ou, na impossibilidade prática de um empreendimento
de tal magnitude, causar aos infiéis o maior sofrimento possível.
São eles que deixam um rastro de sangue inocente por onde
passam. Do outro lado estão os chamados moderados. São
pessoas fiéis à religião de Alá, mas
que acreditam que o Islã pode coexistir pacificamente com
gente de outras confissões religiosas, ou mesmo com aquelas
sem fé alguma. É razoável supor que a vasta
maioria do 1 bilhão de muçulmanos que vivem em quatro
dezenas de países seja formada por pessoas cuja prioridade
é tocar a vida pacificamente, e não sair pelo mundo
trucidando crianças. No momento, infelizmente, é o
culto à morte que prospera no mundo islâmico.
Os moderados
sentem-se isolados, sobretudo depois da invasão do Iraque.
"A reação de repulsa ao massacre na Rússia
é importante, mas é difícil imaginar que a
opinião pública no mundo islâmico deixe de apoiar
atentados suicidas na Palestina ou no Iraque", disse a VEJA a libanesa
Azizah al-Hibri, professora de direito islâmico na Universidade
de Richmond, nos Estados Unidos. "Enquanto essas regiões
estiverem convulsionadas pela violência, o fundamentalismo
continuará avançando", acrescenta. Sempre que questionados
sobre o mal-estar dominante no mundo islâmico, muçulmanos
de todos os países listam alguns agravos: a invasão
americana do Iraque, o conflito na Palestina, a guerra na Chechênia.
Essas alegações de injustiça devem ser vistas
com reservas. "É preciso ir à raiz do problema: o
Islã está sendo usado para justificar a violência
em vários lugares, como Chechênia, Marrocos, Palestina
e Indonésia", disse a VEJA o jornalista Rashed.
AFP
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A
VOZ DAS TREVAS
Ayman al-Zawahiri,
braço direito de Laden, aparece em novo vídeo:
ameaças
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Osama bin
Laden declarou guerra aos Estados Unidos bem antes da guerra no
Iraque. Essa, na verdade, é uma conseqüência do
11 de Setembro, e não o contrário. Israel tem certa
responsabilidade pela atmosfera pesada no Oriente Médio.
Nenhum Estado pode dominar, humilhar e maltratar outro povo sem
provocar uma resposta violenta. Diga-se a favor dos israelenses,
contudo, que, seja lá o que eles façam, o problema
real é que a geografia os colocou como o primeiro alvo da
fúria árabe contra o Ocidente. "É preciso escapar
desse círculo vicioso e analisar o que é certo do
ponto de vista moral, mesmo que americanos ou israelenses ataquem
os muçulmanos", disse a VEJA o egípcio Khaled Abou
El Fadl, professor de direito islâmico na Universidade da
Califórnia.
Ajudar
os moderados do mundo islâmico deveria ser o projeto das potências
ocidentais. Só os moderados podem mudar a dinâmica
política da vida nos países orientais de modo a desencorajar
os jovens a optar pela luta terrorista. Pelo jeito, infelizmente,
não é. O projeto americano de espalhar democracia
pelo Oriente Médio, do qual a deposição do
ditador Saddam Hussein seria o primeiro passo, acabou causando mais
terrorismo, e não menos. O que move o fanatismo islâmico
é a aversão, bastante presente mesmo entre os muçulmanos
menos radicais, àquilo que considera os pecados da civilização
liberal a democracia, a autonomia das mulheres, a economia
de mercado e as liberdades individual, artística e sexual.
Não se trata de um objetivo tangível, mas da fantasia
mórbida de restaurar o califado com a pureza hipotética
do século VII. Que tipo de negociação pode
haver com quem só deseja o paraíso e a destruição
dos hereges?
Logo depois
do massacre de Beslan, o presidente russo Vladimir Putin reagiu
com firmeza às sugestões vindas da Europa Ocidental
e dos Estados Unidos de que deveria dialogar com os chechenos moderados
e com esses iniciar negociações. E por boa razão.
O movimento checheno pela independência começou político
e racional, mas acabou tomado pelos clérigos e instrutores
islâmicos que se instalaram no Cáucaso para participar
da guerra santa contra os infiéis. O americano David Brooks,
colunista do New York Times, escreveu que muita gente fora
da Rússia prefere desviar os olhos do horror fundamental
e discutir academicamente a questão chechena. "Sejam quais
forem os horrores que os russos perpetraram contra os chechenos,
a natureza essencial desse ato foi o ato em si", escreveu Brooks.
"Foi o fato de que um grupo de seres humanos pôde entrar numa
escola, conviver com centenas de crianças, olhar em seus
olhos, ouvir seu choro e depois fazê-las explodir pelos ares."
O moderno
fenômeno do terrorismo islâmico obteve sua licença
para matar com a justificativa de que defendia uma boa causa. A
opinião pública em diversos países comprou
essa idéia. Esse sentimento foi totalmente raspado do quadro
do terrorismo mundial. Como escreveu Brooks, a essência do
terrorismo esgota-se no ato em si. É pelo ato em si que os
terroristas têm de ser julgados, e não pela cultura
que os gerou ou pela causa que dizem defender. Matar friamente crianças
indefesas na frente de outras crianças em ginásio
de escola, como fizeram os terroristas em Beslan, é um crime
hediondo e indefensável. Buscar agora as razões que
levaram à desumanização dos terroristas não
faz sentido na ordem de prioridade que suas ações
suscitam. Em primeiro lugar, como sustenta Vladimir Putin, eles
precisam ser caçados onde quer que estejam fincados seus
acampamentos.
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O
CORÃO E A
MATANÇA
Reuters
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ASSASSINOS
EM AÇÃO
Refém
sul-coreano é exibido antes
de ser decapitado no Iraque
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Os
terroristas islâmicos costumam citar passagens
do Corão, o livro santo do Islã,
para justificar atrocidades. Desde abril, oito estrangeiros
seqüestrados foram decapitados no Iraque. O ritual
incluiu a gravação em vídeo da
execução, acompanhada da leitura de um
trecho do Corão no qual Maomé ordena
a decapitação de prisioneiros. Cortar
cabeças é realmente um ato sacramentado
pelo Islã? Bem, certo verso corânico recomenda
a decapitação, mas só no campo
de batalha. Outra passagem, na qual Maomé faz
referência à decapitação
de prisioneiros, foi revista no século X
e, na versão aceita como definitiva, o profeta
liberta os prisioneiros. A citação usada
pelos terroristas como justificativa de atrocidades
é exatamente aquela expurgada pelos teólogos
do passado. "Distorcer os textos sagrados para atender
a um interesse específico é freqüente
entre os fundamentalistas de todas as religiões",
disse a VEJA o teólogo americano Gabriel Said
Reynolds, da Universidade de Notre Dame, nos Estados
Unidos. "No caso do Islã, em que não há
uma hierarquia clerical rígida, é comum
a interpretação do Corão
ser feita por um imã sem uma educação
religiosa adequada", acrescenta. Muitos estudiosos do
Islã entendem que a decapitação
é um pecado, pois Maomé proibiu expressamente
mutilar o corpo dos inimigos e também maltratar
os prisioneiros.
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