Edição 1871 . 15 de setembro de 2004

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Tecnologia
Crítico eletrônico

O computador será um instrumento poderoso
na autenticação de obras-primas da pintura

Com técnicas como os raios X e a análise de pigmentos, a ciência há muito tem contribuído para autenticar obras de arte e desmascarar falsificações. Um campo tecnológico dos mais promissores está se abrindo agora: a análise do estilo artístico com uso da computação. Examinando imagens digitalizadas, o computador pode identificar as características mais marcantes de um artista. É possível, por exemplo, comparar milhões de pinceladas de um pintor para estabelecer matematicamente quais são os seus padrões habituais. Assim, ao analisar uma obra de atribuição duvidosa, o computador pode determinar se ela foge ao modelo ou se encaixa nele. Pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro já desenvolveram um sistema que, com base nas pinceladas, conseguia distinguir se uma tela era do grande modernista brasileiro Cândido Portinari ou de seu discípulo Enrico Bianco. Na Alemanha, um sistema elaborado na Universidade de Bremen mostrou-se capaz de identificar desenhos de Delacroix com uma taxa de acerto de 87%. Mas a mais ambiciosa pesquisa do gênero está em curso na Universidade de Maastricht, na Holanda. O projeto Authentic, criado pelo professor de ciências da computação Eric Postma, debruça-se sobre os quadros de Vincent van Gogh que pertencem ao acervo do Museu Van Gogh, de Amsterdã.

A análise matemática das pinceladas de Van Gogh está apenas começando. Mas os pesquisadores já avançaram no exame do uso das cores pelo pintor. Que Van Gogh gostava de recorrer às cores complementares – como vermelho e verde ou azul e amarelo – é conhecimento comum. O Authentic, porém, mostrou matematicamente como essa característica foi mudando nos diversos períodos da produção do artista – de forma geral, Van Gogh evoluiu para um uso cada vez mais intenso das cores complementares. Também está avançado o exame do tecido das telas utilizadas pelo artista. O computador registra a maneira como os fios do tecido se entrelaçam e é capaz de identificá-lo, com a ajuda de raios X, sob as pinturas mais variadas. Os responsáveis pelo Authentic avisam, contudo: está longe o dia em que bastará passar uma pintura pelo scanner para que se saiba quem é seu autor. Programas de computador cada vez mais sofisticados poderão produzir laudos detalhados sobre um pintor, mas ainda será necessário que um crítico dê a palavra final sobre a autenticidade. Afinal, por motivos históricos ou biográficos, sempre será possível que um artista fuja aos seus padrões costumeiros – e assim também ao exame matemático frio. "O computador não vai substituir o expert, mas será uma ferramenta indispensável para que se façam avaliações mais confiáveis", prevê Igor Berezhnoy, um dos pesquisadores do Authentic.


 
 
 
 
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