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Brasil
Sentados em
cima do cofre
Uma
nova categoria de ministros
irrita
o presidente: são os que não
conseguem gastar nem o que têm

Otávio Cabral
Epitacio Pessoa/AE
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Tinha
1,1 bilhão
de reais para
gastar neste
ano e, até agora,
gastou apenas
148 milhões
de reais, o que
corresponde a
menos de 13%
de sua verba
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Olívio
Dutra, das
Cidades: soluções
para daqui a um século
e meio
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Com orçamento
apertado aliado a um rigoroso ajuste fiscal feito pelo Palácio
do Planalto, tudo o que um ministro de Estado anseia é ter
dinheiro para gastar. A novidade é que no primeiro escalão
da atual administração federal há ministros
que simplesmente não conseguem gastar o dinheiro que têm,
um fenômeno que vem esgotando a paciência do presidente
Lula. Um dos ministros mais enredados nesse dilema é o gaúcho
Olívio Dutra, ministro das Cidades e amigo do peito do presidente.
Com mais de 1 bilhão de reais à disposição
para investir em obras de saneamento e habitação,
duas áreas nas quais a carência brasileira é
alarmante, Dutra conseguiu gastar menos de 13% do que lhe coube
no orçamento. Dá uma média de menos de 19 milhões
de reais de investimento por mês, quantia suficiente para
construir, por exemplo, apenas 3.700 casas populares. Considerando
que o déficit habitacional brasileiro chega perto de 6,6
milhões de casas e que ele se manterá estável,
Dutra levaria, no ritmo atual, nada menos que 148 anos para zerar
o problema. O outro ministro sentado em cima do cofre é o
mineiro Patrus Ananias, que assumiu o Ministério do Desenvolvimento
Social há oito meses com a missão de arrancar o trabalho
social do governo da letargia. Até agora, no entanto, de
uma verba de 186 milhões de reais, Patrus Ananias investiu
apenas 26 milhões de reais, 14% do total de seu cofre.
"O Olívio
ainda não mostrou a que veio e o Patrus não correspondeu
à expectativa criada em torno dele", avalia um ministro petista
próximo do presidente, que pede para não ser identificado.
Tanto Olívio Dutra quanto Patrus Ananias, ao montar suas
equipes de trabalho, fizeram questão de satisfazer o maior
número possível de tendências internas do PT,
supondo que, assim, conseguiriam trabalhar num ambiente de consenso
partidário. Em vez disso, criaram estruturas mais parecidas
com as de um sindicato do que com as de um ministério, em
que as reuniões se repetem sem que delas brotem decisões.
Nas quatro secretarias do Ministério das Cidades, por exemplo,
Olívio Dutra colocou representantes das tendências
batizadas como Campo Majoritário, Democracia Socialista e
Movimento PT, além de contemplar as tendências regionais
gaúchas aliadas à corrente a que pertence o próprio
ministro. Afora isso, nas estruturas das quatro secretarias há
um emaranhado com subdivisões de correntes partidárias.
Com esse desenho labiríntico, as coisas demoram a acontecer.
As discussões para a implantação do Programa
de Habitação Popular, por exemplo, levaram mais de
seis meses, sempre travadas por incontornáveis divergências
ideológicas. O programa, na verdade, só foi lançado
no início deste ano, depois que o ministro Olívio
Dutra ouviu um ultimato do presidente Lula, que já estava
exasperado com a demora.
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Tinha
186 milhões de reais
para gastar neste ano
e, até agora,
só gastou 26 milhões
de reais,
o que corresponde a apenas 14%
de sua verba
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Givaldo Barbosa/Ag. O G
lobo
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Divulgação
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| O ministro Patrus
Ananias, da área social:
frustrando as expectativas
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Marina Silva, a
ministra do Meio Ambiente: enredada numa selva de ONGs |
A ministra
Marina Silva, do Meio Ambiente, é um caso semelhante. Embora
não tenha chegado ao ponto de dividir seu ministério
entre correntes do PT, ela acabou fazendo uma espécie de
loteamento entre ONGs ecológicas. Querendo uma gestão
que agradasse a todas as variantes de verdes, Marina Silva colheu
resultado parecido ao de seus colegas da área social
a paralisia produzida pelo misto de assembleísmo e divergência.
Como não lida com quantias substanciais de verbas para liberar,
o problema do Ministério do Meio Ambiente é a emissão
de alvarás ambientais, que costumam ficar emperrados na selva
das ONGs. Numa conversa recente, o presidente Lula pediu à
ministra empenho especial para viabilizar a transposição
do Rio São Francisco, a principal obra pública prevista
no Orçamento da União para 2005, neutralizando a burocracia
dos alvarás. Apesar das dificuldades, o presidente não
pensa em demitir a ministra, pois julga que sua biografia, de ex-seringueira
e amiga do sindicalista assassinado Chico Mendes, empresta prestígio
internacional à área ambiental do governo. No caso
dos outros dois, Dutra e Ananias, as nuvens podem ficar carregadas
depois da eleição municipal, quando o Planalto poderá
fazer uma reforma ministerial para adaptar-se politicamente ao cenário
que sair das urnas.
Além
dos petistas de primeira hora, há outros dirigentes que parecem
estar sentados sobre o cofre. Um deles, na avaliação
do Palácio do Planalto, é o economista Carlos Lessa,
presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES). O outro é Jorge Mattoso, que comanda a
Caixa Econômica Federal. Os dois controlam bilhões
de reais destinados a financiamentos. O problema é que, tanto
no BNDES quanto na Caixa, o fluxo dos recursos é tão
lento que já irrita até aliados. "Há muita
burocracia, muitas normas, muitos manuais nas áreas que envolvem
investimento de recursos", reclama o governador do Acre, o petista
Jorge Viana. "Essa avalanche de regras cria barreiras para o próprio
desenvolvimento do país." Mais de uma vez, o presidente Lula
conclamou publicamente seus ministros a gastar o dinheiro disponível
em suas pastas e, com isso, superar as críticas recorrentes
sobre inépcia do governo. Em conversas reservadas, o presidente
costuma reclamar dos ministros que não conseguem gastar o
que têm. Na reforma ministerial depois das eleições,
a capacidade de investir o que possuem e trabalhar com agilidade
será um dos critérios de prêmios e punições.
A conferir.
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